- Vitória, ES 23°C

Vitória 23°C

Publicidade: Combate os sintomas da gripe
NATUREZA

O recado da floresta para 2026: curar não é voltar, é abrir espaço

Em entrevista, terapeuta floral fala sobre recomeços, equilíbrio emocional e o papel das medicinas da natureza

O recado da floresta para 2026: curar não é voltar, é abrir espaço
- Lizandra na Mata Atlântica. Entre folhas, luz e silêncio, a floresta ensina que curar não é voltar ao que era, mas criar espaço para seguir.
Foto de perfil de Aline Moura

Aline Moura

Aline Moura é formada pela UFPE, trabalhou como repórter de Política, Editora Assistente de Produção de Política e repórter especial do Diario de Pernambuco, num período de 15 anos, onde atuou em todas as áreas, exceto esportes. Também teve experiência de quatro anos como gerente de comunicação da Secretaria do Trabalho, Emprego e Qualificação de Pernambuco e voltou ao jornalismo para integrar a equipe do Portal da Tribuna Online como repórter.

Última atualização



A floresta não fala alto. Não grita, não disputa atenção. Ela cresce. Resiste. Regenera. Talvez por isso, em 2026, o primeiro aprendizado não venha em forma de promessa, mas de ritmo: a natureza não aceita atalhos — e, ainda assim, sempre oferece caminhos.

Vivemos em cidades que exigem pressa, produtividade e atenção fragmentada. O corpo corre, o pensamento se dispersa, o emocional tenta acompanhar. A floresta surge como contraponto. Não como fuga, mas como território — simbólico e concreto — onde o tempo desacelera, a respiração encontra cadência e o sentir ganha chão.

Foi nesse entremeio, entre o concreto da cidade e o verde que insiste em existir, que conheci Lizandra Maria Ferreira de Borba, terapeuta floral e aromaterapeuta. Conheci também uma forma diferente de olhar para cura, imunidade e autocuidado — não como retorno ao que éramos, mas como abertura para o que ainda podemos ser.

Conheci Lizandra num momento de perda. Em meio à pandemia, após a morte da minha gatinha Nice, fui até Aldeia, em Camaragibe, adotar uma nova companheira felina. Voltei para casa com Arruda nos braços — e com a sensação de que aquele encontro não se limitava à adoção. Havia ali um saber que não vinha em discurso pronto, mas em presença, escuta e relação com a natureza.

“A floresta por si só já ajuda muito no nosso equilíbrio mental e emocional”, diz Lizandra. Não como frase de efeito, mas como constatação de quem observa o corpo reagir ao ambiente. O problema, segundo ela, é que a vida urbana impõe outro ritmo, outra lógica. É nesse intervalo — entre o que nos adoece e o que nos sustenta — que entram a aromaterapia e os florais. Não como solução mágica, mas como pontes.

Viver perto do verde, mesmo dentro da cidade



Cada planta carrega uma função. Uma resposta. Óleos essenciais como melaleuca e orégano atuam como aliados da imunidade, com ação bactericida reconhecida. Mas Lizandra chama atenção para algo que costuma passar despercebido: a floresta trabalha em camadas, assim como o ser humano. O efeito não é apenas físico. É também emocional, energético, simbólico.

Viver perto do verde — mesmo dentro da cidade — não é detalhe. Lizandra mora hoje na Várzea, no Recife, território onde a urbanização ainda convive com sombra, silêncio e resquícios de mata atlântica. Ali, atua há cinco anos com florais, numa prática que une técnica, escuta e ancestralidade.

O caminho até esse trabalho não foi linear. Quase cursou Psicologia, passou pela Biologia, mas se formou em Administração. Hoje, reconhece que nada foi desperdício. “Isso me ajuda muito a organizar meu trabalho como empreendedora”, afirma. Ainda assim, foi no percurso do autoconhecimento e no contato com as chamadas medicinas da floresta que diz ter resgatado conhecimentos antigos — não como retorno ao passado, mas como reconciliação com ele.






A floresta também ensina a sustentar intenções

Se o início de um ano costuma vir carregado de metas, listas e expectativas, a floresta também ensina a sustentar intenções sem se perder no excesso. Lizandra cria alquimias personalizadas, mas destaca um perfume inspirado em Oxóssi, orixá associado ao foco e à direção. A composição reúne aromas que remetem diretamente à mata: alecrim, capim-limão e tomilho. Óleos que ajudam a alinhar o mental e manter a atenção. Não para acelerar, mas para não se dispersar.

Quando o assunto são traumas, o ensinamento é outro: cura exige cuidado. Óleos como o pau-rosa — planta nativa do Pará, ainda pouco valorizada no Brasil — atuam diretamente no sistema nervoso central. É uma essência delicada, usada com atenção, mas de grande potência. Outros óleos surgem como apoio emocional: gerânio, rosas e lavanda, definida por Lizandra como “uma grande mãe da aromaterapia”. Para quem não se identifica com aromas doces, há alternativas como pinho-sibéria e manjerona, que auxiliam em processos de liberação emocional.

Ela faz questão de lembrar que nada age sozinho. “Tudo depende também de uma cadeia de outros suportes.” A floresta não substitui processos — ela acompanha.

Autoestima, nesse contexto, não é vaidade. É alegria e vitalidade. Óleos cítricos ajudam a reconectar emoções e devolver leveza. Gerânio e ylang-ylang atuam também no campo hormonal, trazendo confiança e segurança. Mas há algo que ultrapassa a química: o gesto. O uso consciente de produtos naturais funciona como lembrete cotidiano de que o corpo merece atenção, tempo e respeito.




O empurrão da natureza para um bom ano

Para o início de 2026, Lizandra tem recomendado óleos ligados ao fortalecimento da imunidade, como copaíba, orégano e a seiva do sangue-de-dragão. A observação vem da prática: muitas pessoas adoecendo com frequência, viroses recorrentes, cansaço persistente. Períodos de encerramento e recomeço exigem energia. Para isso, entram também lavanda e manjericão, que acolhem e equilibram, além de canela, pimenta-rosa e capim-limão, que aquecem e impulsionam o novo.


Sempre com um cuidado essencial: buscar orientação profissional. Cada corpo responde de um jeito. Cada história pede escuta.


Se a floresta tivesse um recado para quem não quer repetir os erros do passado, talvez fosse simples e difícil ao mesmo tempo: “crescer exige espaço”, explica. Abrir espaço para o novo entrar implica reconhecer o que precisa mudar — processo que, às vezes, leva anos.


“A ajuda terapêutica está cada vez mais acessível para que possamos acessar mudanças de forma leve e amorosa”, diz Lizandra. Estar em harmonia com a natureza e zelar pelo meio ambiente não é apenas uma escolha ética. É pacto de sobrevivência. “Garantir saúde e boa vida para todos nós.”


Em 2026, talvez o maior aprendizado seja esse: não repetir erros não significa apagar o passado, mas aprender com ele — como a floresta faz, folha por folha, ciclo após ciclo.

E talvez seja por isso que aquele encontro, anos atrás, ainda faça sentido agora. Não fui até Lizandra apenas buscar outra gata depois de perder o amor felino da minha vida. Fui, sem saber, atravessar um trecho de mata em meio ao luto. Voltei com Arruda nos braços, ainda pequenina, é verdade, mas também com algo que só a floresta ensina: perdas não se substituem, se transformam. Algumas viram raiz. Outras, sombra. Outras, caminho.


A floresta não devolve o que foi embora. Ela ensina a seguir crescendo com o que ficou.

Sobre a entrevistada

Lizandra Maria Ferreira de Borba (41) é terapeuta floral e aromaterapeuta, atua há cinco anos com florais e mora na Várzea, no Recife-PE.

Instagram: @flordasmatas | @lizborba

Veja entrevista completa de Lizandra:O que a floresta ensina sobre cura emocional, imunidade e autocuidado

Mais Lidas

Ver tudo ›