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Pedro Valls Feu Rosa

Um retrato

Atropelamento reacende debate sobre bicicletas elétricas no calçadão

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- Pedro Valls Feu Rosa é desembargador do Tribunal de Justiça do Espírito Santo
Foto de perfil de Pedro Valls Feu Rosa

Pedro Valls Feu Rosa

Pedro Valls Feu Rosa é desembargador ex-presidente do TJES e do Tribunal Regional Eleitoral do Espírito Santo. Bacharel em Direito pela UFES, é autor de obras jurídicas e idealizador de projetos inovadores como o “Botão do Pânico”, vencedor do Prêmio Innovare.

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Há alguns dias passeava eu pelo calçadão da Praia da Costa. Era uma tarde ensolarada de final de semana. Crianças corriam alegremente de um lado para o outro. Idosos contemplavam o cenário. Diversas pessoas refrescavam-se com uma água de coco geladinha. Seria, enfim, um cenário típico do espírito deste nosso querido Brasil, não fosse por um detalhe: as bicicletas elétricas que passavam a centímetros de crianças e idosos, em uma velocidade compatível somente com a arrogância de quem as conduzia.

Eis que acabou atropelada uma criança – que estava, registro, fora da ciclovia. Foi-lhe cortado seriamente o braço. Até aí, tratava-se apenas de um acidente evitável. O que aconteceu em seguida, porém, impressionou-me fortemente o espírito. O ciclista, reequilibrando-se, berrou uma série de palavrões e foi embora, largando para trás a criança ensanguentada.

Enquanto ajudávamos a vítima ouvi testemunhos sobre episódios similares por parte de diversas pessoas. De um idoso a quem quebraram um dos braços a uma grávida que quase perdeu o filho, passando por outra criança que quase morreu, as narrativas foram várias.

Recordei-me que alguns dias antes, rumo ao trabalho, estava eu a trafegar de carro pela avenida Beira-Mar, em Vitória, a precisos 50 km/h, quando fui “ultrapassado” por uma dessas bicicletas – que ia pela ciclovia local, em horário de intenso movimento, em meio a várias outras.

Que tal meditarmos sobre este quadro? Comecemos pelas bicicletas: não são baratas. A conduzi-las, pessoas “educadas”. Como explicar-se, então, tamanho desprezo pelas leis? Como justificar-se tamanha arrogância? Ou seria ela típica desta classe social?

Lancemos agora um olhar aos acidentes. Restam sem explicação a agressividade e total falta de empatia demonstradas na maior parte dos casos. À omissão de socorro, um crime, adicionou-se a injúria – outro crime.

Mas deixemos as reflexões para lá. Sejamos práticos. Como resolver-se o problema? Iniciemos pela conscientização. Diante de comportamentos que tais, seria ela possível? Temo que não. Passemos à fiscalização da velocidade. Considerada a realidade nacional, seria esta exequível? A resposta também é negativa: alguns condutores seriam penalizados à guisa de exemplo, e só isso – como é tão comum por estas bandas….

A solução, absolutamente triste, é tratar este tipo de veículo como motocicleta. Que sejam claramente identificadas, que demandem formação específica e que transitem pelas ruas – não pelas calçadas e calçadões, ao lado de crianças e idosos.

Este tipo de solução já vem sendo adotado em países outros. Lamentavelmente, talvez seja o único que nos resta.

Lanço, novamente, um olhar sobre a criança atropelada, a chorar enquanto tentava estancar o sangue que corria de seu braço. Seria ela o retrato do Brasil que temos construído? A medida da empatia desta nova geração de brasileiros? O fruto maldito dos discursos que confundem autoridade com arbitrariedade? Ou o dos que criam, impunemente, uma impunidade que nos envergonha?



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