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O MILAGRE NA BR-408

Motorista de app escapa de carro em chamas após ser sentenciado à morte

Homem de 30 anos foi torturado e trancado no porta-malas; em meio ao fogo, ele resgatou a lembrança do chá de bebê da filha dele

Motorista de app escapa de carro em chamas após ser sentenciado à morte
- Carro foi totalmente incendiado. Esta foi a primeira tentativa de latrocínio de motorista de app do ano, mas quatro motoristas já morreram durante assaltos nestes primeiros quatro meses de 2026
Foto de perfil de Aline Moura

Aline Moura

Aline Moura é formada pela UFPE, trabalhou como repórter de Política, Editora Assistente de Produção de Política e repórter especial do Diario de Pernambuco, num período de 15 anos, onde atuou em todas as áreas, exceto esportes. Também teve experiência de quatro anos como gerente de comunicação da Secretaria do Trabalho, Emprego e Qualificação de Pernambuco e voltou ao jornalismo para integrar a equipe do Portal da Tribuna Online como repórter.

Última atualização

Com informações de Luciana Queiroz

O cheiro de combustível misturado ao couro queimado ainda parece sufocar Rafael, cujo sobrenome será preservado. Aos 30 anos, o motorista por aplicativo não carrega apenas as bolhas e os curativos que cobrem seus braços, rosto e peito; ele carrega a memória nítida do momento em que o metal do porta-malas de seu próprio carro se transformou em uma câmara de execução.

Na madrugada da última quinta-feira (16), o que seria apenas mais uma jornada de trabalho para garantir o sustento de uma bebê de dois meses tornou-se um dos episódios mais brutais da recente onda de violência que atinge a categoria em Pernambuco.

O início do pesadelo: do Curado ao medo

Tudo começou com uma chamada comum no bairro do Curado I, em Jaboatão dos Guararapes. Rafael seguia para o Terminal Integrado de Passageiros (TIP) para buscar um cliente. No entanto, sob a sombra fria do viaduto, o destino foi interceptado. Dois homens, encapuzados e armados com revólveres, surgiram do nada. Um ocupou o banco da frente; o outro, o de trás.

Ali, a liberdade de Rafael foi a primeira coisa a ser roubada. “Eu pensei em correr, mas pensei na minha filha de dois meses”, relatou ele, com a voz interrompida vez por outra e uma respiração curta – sinal do trauma que ainda reverbera em seus pulmões. Ele cooperou. Entregou o celular, cancelou a viagem na plataforma e desligou o aparelho sob ordem dos criminosos. Mas a cooperação não foi suficiente para aplacar a agressividade da dupla.

Ao vasculharem o veículo, os bandidos encontraram a carteira do motorista. Nela, havia R$ 500. Era o dinheiro suado, guardado nota sobre nota, para pagar a parcela do carro que ele havia adquirido há apenas 11 meses. A descoberta do valor, que Rafael inicialmente negou ter, serviu de gatilho para a primeira sessão de espancamento. Coronhadas de revólver e bofetadas estalaram dentro do habitáculo.

“Atrasando o corre”: o plano de morte

Os criminosos não queriam apenas o dinheiro. Eles tinham um objetivo mais sombrio: usar Rafael e seu veículo como escudo e transporte para um assassinato em São Lourenço da Mata. “Eles disseram que iam matar um cara em São Lourenço e iam tocar fogo na casa dele”, contou o motorista.

Contudo, a mecânica e a física impuseram um obstáculo ao crime planejado. Próximo à Arena de Pernambuco, o carro apresentou sinais de pane seca. Rafael avisou que precisava abastecer, mas os bandidos, cegos pela desconfiança e pela adrenalina, acreditaram tratar-se de um truque, um “botão de segurança” acionado pela vítima.

Quando o motor finalmente silenciou na BR-408 por falta de combustível, a sentença foi proferida: Rafael estava “atrasando o corre” deles. E, por isso, teria seu próprio “corre” atrasado definitivamente.

O inferno no porta-malas

Sob a mira das armas e sob o peso de novos golpes, Rafael foi obrigado a ir para o banco de trás e, em seguida, para o porta-malas. “Eu perguntei se ia morrer ali mesmo, eles disseram que sim”. Trancado no compartimento escuro, ele ouviu o som do líquido sendo despejado. Não havia galões visíveis; os criminosos carregavam o combustível dentro de mochilas, um detalhe que revela o planejamento para o incêndio.

“Eu só senti o cheiro forte de combustível. Quando levantei a cabeça para ver, só foi o fogo. Fogo na minha cara, fogo pegando tudo”. O calor era insuportável. O plástico derretia e pingava sobre sua pele. O oxigênio desaparecia. Foi nesse átimo de segundo entre a vida e a morte que o instinto de pai falou mais alto que o medo.

Rafael conseguiu forçar a passagem para o banco traseiro. Em meio às chamas que já consumiam o painel, ele viu um pequeno objeto: a lembrancinha do chá de fraldas de sua filha. Com as mãos queimadas, ele agarrou um dos símbolos do nascimento da sua criança. Era o seu elo com o mundo dos vivos.

Saltou pela janela traseira – que ele acredita ter sido deixada aberta pelos bandidos apenas para que o oxigênio alimentasse as chamas – e caiu de joelhos no asfalto. Segundos depois, o veículo explodiu.

“Quando eu saí pela janela, que eu caí de joelho no chão, quando eu me levantei, o veículo explodiu na minha cara. Fui arremessado para dentro dos mato. Levantei zonzo, a camisa pegando fogo, o ouvido estava apitando. Aonde eu comecei a correr na BR, eu só pensava em correr, correr, correr.”

O resgate e a nova data de nascimento

Rafael correu pela rodovia. Todo queimado, com o ouvido apitando pela explosão, ele tentou parar carros na rodovia. Ninguém parava. O medo do outro, tão comum em tempos de violência, quase o deixou morrer à beira da estrada.

A salvação veio na forma de uma viatura que passou, hesitou, deu ré e o acolheu. No Hospital Maternidade de São Lourenço da Mata, o encontro com a família foi o seu verdadeiro renascimento.

Sua mãe, que o esperava em casa com a neta no colo, descreveu o horror de receber a notícia. “Dói saber que podia ser pior. Saber que ele podia estar sem vida aí, estar pior do que esse carro. Eu me desesperei, a esposa também. Eu clamei muito a Deus para descansar meu coração. Só descansei quando ele chegou. Não chegou da maneira que eu queria, todo queimado, mas estava ali”, desabafou ela, emocionada.

Para a esposa, que segurava a mão de Rafael na entrevista, a perda material é o de menos diante do herói que o marido se tornou. “Feliz em saber que eu escolhi a pessoa certa para ser o pai dela. Receber a notícia não foi fácil, foi desesperador. Mas saber que ele está vivo e bem… bens materiais a gente consegue de novo”, disse ela, enquanto olhava para os curativos que agora marcam o corpo do companheiro.

A inércia do Estado e a dor do recomeço

Enquanto Rafael tenta lidar com as bolhas e a dor física, a categoria dos motoristas por aplicativo em Pernambuco clama por socorro. Este foi o segundo caso grave na mesma semana envolvendo profissionais de 30 anos. Anderson Câmara, presidente do sindicato da categoria, expressou profunda indignação com a postura do Governo de Pernambuco. Ainda nesta sexta-feira, ocorreu o velório e enterro de Djalma Alves da Silva Júnior, também de 30 anos.

Câmara revelou que existe uma tecnologia de segurança — um aplicativo que conecta o motorista diretamente à central da polícia em situações de risco, já utilizado com sucesso no Mato Grosso — mas que o estado de Pernambuco ainda não demonstrou interesse real em implementar. Somente este ano, quatro motoristas de app foram vítimas de latrocínio (média de 1 por mês) e um passou por tentativa.

“Já tivemos várias audiências públicas. O governo do estado ainda não se interessou. Se tivesse esse aplicativo, ele poderia ter acionado antes de o pessoal entrar, e a polícia já ia monitorar o carro”, criticou.

Para Rafael, o futuro é uma incerteza enfaixada. O carro, comprado com sacrifício há menos de um ano, está reduzido a cinzas. O seguro pode levar até 90 dias úteis para processar a burocracia.

“Como é que eu vou trabalhar? Como vou sustentar minha filha de dois meses?”, questionou, com a voz de quem ainda não acredita que sobreviveu. Ele já havia sido assaltado antes, em Boa Viagem. Daquela vez levaram o carro. Desta vez, tentaram levar a vida.

Mesmo com o corpo marcado pelo fogo e o trauma pulsando em cada respiro curto, Rafael diz que não tem dúvidas: o que o tirou daquela mala foi a força de um amor que nem as chamas puderam apagar. Ele agora guarda a lembrancinha do chá de fraldas não apenas como um souvenir, mas como símbolo do primeiro dia de sua segunda vida.

Quem quiser ajudar Rafael, o pix é: (81) 99667-7779

Veja a matéria completa de Luciana Queiroz n JT1, apresentado por Artur Tigre



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