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Brasil

Mulheres avançam no mercado de trabalho, mas são as mais afetadas por desemprego

Levantamento da FGV aponta que pouco mais da metade das mulheres em idade de trabalhar ocupa a força de trabalho

Mulheres avançam no mercado de trabalho, mas são as mais afetadas por desemprego
- Tarefas de cuidado e maternidade impactam a trajetória profissional feminina

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A participação das mulheres no mercado de trabalho avançou nos últimos anos, mas as desigualdades em relação aos homens permanecem: elas seguem sendo mais afetadas pelo desemprego, ganham menos e têm inserção muito inferior à masculina na força de trabalho.

A desocupação, que atingiu mínimas históricas, as beneficia. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que o desemprego entre elas foi de 6,2%, o menor desde 2012, início da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua). Mesmo com a redução, o índice é dois pontos percentuais acima do registrado entre os homens (4,2%).

Além disso, pouco mais da metade das mulheres em idade de trabalhar ocupa a força de trabalho. O percentual é de 52,8%. Entre os homens, chega a 72%, diferença de quase 20 pontos percentuais, segundo levantamento da professora Janaína Feijó, da FGV (Fundação Getulio Vargas). Em 2012, elas representavam 51,6% do mercado, e os homens, 74,5%.

Janaína diz que, nos últimos dois anos, o país conseguiu melhorar muito o indicador de desocupação, que é chave para o desenvolvimento, diminuindo as desigualdades, mas a taxa de participação está praticamente estagnada.

Segundo ela, as mulheres ainda têm dificuldades para entrar e permanecer no mercado de trabalho, o que passa por questões de gênero. “Ainda não conseguimos fazer com que aquelas mulheres que desejam ir ao mercado de trabalho consigam, de fato, oferecer sua mão de obra e encontrar uma oportunidade”, afirma Janaína.

Tarefas de cuidado e maternidade impactam a trajetória profissional feminina, segundo a professora Tcharla Bragantin, coordenadora de cursos da área de gestão do centro universitário Módulo. Ela afirma que as desigualdades aparecem desde os processos de avaliação e até na promoção. “Eles são estruturados de forma que acabam desfavorecendo as mulheres, muitas vezes por vieses inconscientes”, afirma.

A sobrecarga aparece na rotina de muitas trabalhadoras. A auditora interna e criadora de conteúdo Karoline Santos, 32, diz que o peso das responsabilidades ficou mais evidente após a maternidade. Ela divide o tempo entre o trabalho e a maior parte das tarefas domésticas, como cozinhar, limpar a casa e lavar roupas, enquanto ainda amamenta a filha de dois anos.

“Tenho que rodar os pratinhos para conseguir manter minhas entregas no trabalho”, afirma.

Situação semelhante é vivida pela assistente de apoio técnico Bruna Almeida, 30. Depois de um dia de trabalho presencial, ela chega em casa e prepara o jantar, lava a louça e organiza a rotina da filha. “Quando se tem criança é mais difícil, porque não dá para deixar faltar jantar nem atenção. Brinco que meu dia tinha que ter pelo menos umas 30 horas”, diz.

DESIGUALDADES REGIONAIS E DE COR E RAÇA

As desigualdades também aparecem nos indicadores regionais e de renda. Na Bahia, por exemplo, a taxa de desemprego entre mulheres ficou em 10,8% no fim de 2025, enquanto entre os homens nenhum estado registrou índice de dois dígitos.

Quando se considera a taxa de subutilização da força de trabalho -que inclui desempregados, desalentados e pessoas que trabalham menos horas do que gostariam- a diferença entre gêneros permanece. No quarto trimestre de 2025, o indicador foi de 16,6% entre as mulheres, ante 10,9% entre os homens.

Na renda, o padrão se repete. O rendimento médio das mulheres atingiu R$ 3.137 por mês no período, recorde da série histórica, mas ainda está cerca de 21% abaixo do registrado entre os homens (R$ 3.977). Parte da diferença está ligada à concentração feminina em setores que pagam menos.

Outros dados mostram que as desigualdades também variam por raça e região. Entre mulheres pretas ou pardas, a taxa de participação é de 51,3%, inferior à das mulheres brancas (54,2%), segundo o Ministério das Mulheres. Por região, o Nordeste tem o menor índice de participação feminina (43,5%), enquanto o Centro-Oeste registra o maior (58,8%).

Mesmo quando estão empregadas, as mulheres continuam dedicando mais tempo ao trabalho doméstico e ao cuidado de pessoas. Elas gastam, em média, 17,8 horas semanais nessas atividades, contra 11 horas dos homens. Segundo a Pnad Contínua, 91,3% das mulheres realizam tarefas domésticas e 34,9% cuidam de crianças, idosos ou doentes.

Essa divisão desigual também ajuda a explicar por que muitas mulheres ficam fora do mercado. Entre os 9,8 milhões de jovens de 15 a 29 anos que não estudam nem trabalham no país, 63,9% são mulheres. A falta de acesso a creches é um fator relevante: 68,1% das mulheres com filhos matriculados nesses serviços estão ocupadas, enquanto entre aquelas cujos filhos não frequentam creche o percentual cai para 42,6%.



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