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Saúde

Mais de 12 mil pessoas no ES sofrem com a pior dor no mundo

Descrita como choques elétricos, a neuralgia do nervo trigêmeo é mais frequente em pessoas acima dos 50 anos, embora possa ocorrer em jovens

Mais de 12 mil pessoas no ES sofrem com a pior dor no mundo
- Wanessa Lins está em tratamento
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Camila Lima

Jornalista formada pela Faculdade Estácio de Sá de Vitória, atua há 7 anos no jornal A Tribuna. Integrante da editoria de Cidades, tem como principal foco a cobertura de saúde, área na qual construiu sólida experiência em reportagens, entrevistas e coberturas de eventos pelo Brasil. Apresenta o podcast Fala, Doutor, dedicado a levar informação acessível e de qualidade sobre medicina e bem-estar ao público.

Última atualização

Uma dor intensa, repentina e incapacitante na face, descrita como choques elétricos ou facadas tem levado pessoas a interromper atividades simples do dia a dia, como escovar os dentes, mastigar, falar ou até sentir o vento no rosto.

Classificada como “a pior dor do mundo”, é dessa forma que muitos descrevem a neuralgia do nervo trigêmeo, condição que afeta cerca de 0,3% da população mundial, aproximadamente 12 mil pessoas no Espírito Santo.

O tema ganhou repercussão após a apresentadora Lívia Andrade, de 42 anos, revelar nas redes sociais que foi diagnosticada com a doença e passar por uma cirurgia. “Eu tive algumas crises. Uma foi desesperadora, insuportável”, contou em suas redes sociais.

A neurologista Mariana Grenfell explica que o trigêmeo é um nervo de três partes que ajuda na sensibilidade da face. “Ele tem um ramo que vai para a região do olho, outro para a maxilar e outro para a mandíbula. Ele pode comprometer qualquer um desses ramos, causando dor”, explica.

Apesar de a maioria dos casos não ter uma causa determinada, há casos em que o aparecimento da condição está associado a uma compressão — que pode ser causada por um tumor benigno — ou por uma alça vascular, vaso que passa em cima do nervo, conforme destaca Mariana.

O neurocirurgião Lúcio Hott, especialista em dor, do São Bernardo Apart Hospital, ressalta que a condição é mais frequente em mulheres e em pessoas acima dos 50 anos, embora possa ocorrer em jovens. Pacientes com esclerose múltipla têm um risco maior, pois a doença ataca justamente a proteção dos nervos, segundo o médico.

“Hipertensão arterial também é um fator de atenção, já que artérias mais enrijecidas em suas paredes tendem a pressionar mais o nervo trigêmeo”, alertou.

O anestesiologista e acupunturiatra com foco em tratamento de dor, Alberto Barbosa, diz que a neuralgia do trigêmeo ainda é uma condição que costuma demorar para ser corretamente diagnosticada.

“Isso acontece porque a dor, apesar de muito intensa, pode ser confundida com problemas mais comuns, como dor de dente, sinusite, enxaqueca ou até disfunções da articulação da mandíbula. Não é raro que o paciente passe por dentistas, clínicos e até realize procedimentos desnecessários antes de chegar ao especialista em dor. Esse caminho pode levar meses ou até anos.”

Choques intensos


Em 2022, a bancária Wanessa Lins, 43, começou a sentir um formigamento nos lábios que se espalhou pelo lado direito do rosto. Como havia tirado um tumor do cerebelo em 2012, Wanessa procurou a neurologista que a acompanhava.

“Onde tirou o tumor, ficou um vácuo que empurra minha massa cerebral e faz a compressão no nervo. É uma dor intensa. Durante muito tempo do dia sinto uma queimação no rosto, como se estivesse em carne viva. É uma dor em choque.”

Hoje, em tratamento, Wanessa sente de cinco a 10 choques por dia, mas, em crises, os choques são tão intensos que a impedem de falar.

“Afeta minha qualidade de vida, nunca sei quando a dor virá. Não faço planejamento de nada. Eu uso um adesivo semanal de uma substância que tem 30 vezes a eficácia da morfina.”

FIQUE POR DENTRO



O que é a neuralgia do trigêmeo?

> Afeta o maior nervo da face, responsável pela sensibilidade da região. O nervo possui três ramificações: uma que vai para a região dos olhos, outra para a maxilar e outra para a mandíbula.

> A condição acontece quando há um comprometimento desse nervo, provocando crises de dor intensa e intermitente. Especialistas explicam que é como se os nervos fossem fios elétricos encapados.

> Quando essa “capa” protetora, chamada mielina, sofre desgaste, ocorre uma espécie de curto-circuito no nervo, desencadeando dores extremamente intensas.

Onde afeta

> A dor geralmente atinge apenas um lado do rosto e pode acometer regiões como mandíbula, bochecha ou área próxima aos olhos.

Quem tem maior risco

> Mais comum em mulheres e pessoas acima de 50 anos.

> Nem sempre há uma causa identificável, mas entre os fatores já associados estão: compressão do nervo por artérias ou veias; tumores benignos, como meningioma.

> A hipertensão arterial também aparece como fator de atenção.

Gatilhos

> Estímulos simples e que normalmente não causariam dor podem desencadear crises. Entre os principais gatilhos estão: escovar os dentes, mastigar, pentear o cabelo, fazer a barba, maquiar-se e sentir vento no rosto

Diagnóstico

> Muitas vezes não acontece rapidamente porque os sintomas podem ser confundidos com problemas mais comuns.

> Muitos pacientes procuram inicialmente dentistas, otorrinolaringologistas e clínicos gerais. Alguns chegam até a extrair dentes sem necessidade antes de descobrir a causa real da dor.

> A confirmação costuma ser feita por meio de ressonância magnética para investigar possíveis causas secundárias.

Tratamento

> Normalmente, são usados medicamentos. Em alguns casos, a cirurgia pode ser indicada.

> Uma das inovações mais recentes é a Estimulação Magnética Transcraniana (EMT), considerada evidência A para dor neuropática. A técnica utiliza ondas magnéticas para modular áreas cerebrais ligadas à dor.


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