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Cidades

Vigaristas se passam até por juiz em novo golpe contra consumidores

Criminosos usam dados reais de processos e se passam até por juízes para convencer vítimas a transferir dinheiro

Vigaristas se passam até por juiz em novo golpe contra consumidores
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Foto de perfil de Rodrigo Péret

Rodrigo Péret

Formado em Jornalismo pela Faesa em 2017 e atualmente cursando o último período de Direito na Multivix Vitória, Rodrigo Péret está em A Tribuna desde 2019, onde atua como repórter de Política e Economia, ocasionalmente atuando como colunista de Plenário. Paralelamente, colabora para o portal Wrestlemaníacos, especializado em Pro-Wrestling, desde 2011.

Última atualização


Bandidos estão forjando até falsas audiências judiciais pela internet para tentar convencer vítimas dos golpes que aplicam, passando-se não só por advogado, mas até por juiz.

O objetivo é aumentar a credibilidade. Eles contactam a vítima por mensagem e a convencem a participar de uma “audiência virtual”, dizendo haver um valor em processo vencido pela vítima a ser liberado. Na audiência falsa, um dos estelionatários se passa por juiz para ganhar a confiança da vítima.

No Espírito Santo, uma aposentada de 59 anos só não caiu em um golpe do tipo porque, por não ter a própria chave Pix, entrou em contato com o filho, que suspeitou.

Ela chegou a receber uma imagem gerada em IA com uma logo fazendo referência ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), informações do processo, seu número de CPF, nome completo, e que afirmava que o repasse teria de ocorrer durante videoconferência para “garantir a segurança, praticidade e celeridade” do procedimento.

O filho, em condição de anonimato, contou que desconfiou após ouvir da mãe que o falso advogado teria enviado um número do celular que seria de um “gerente superior parlamentar do STJ”, cargo que não existe. Com isso, fez a mãe desligar a ligação e procurar a advogada pessoalmente, que confirmou se tratar de um golpe.

“Minha mãe recebeu os dados de um processo, com valor de causa acima de R$ 7 mil, que ela venceu contra a prefeitura em que trabalhou. Os bandidos entraram em contato via WhatsApp prometendo transferir o dinheiro, mas pedindo para entrarmos em contato com um número que se dizia ser do STJ para suposta audiência virtual.”

Em nota, o STJ informou que órgãos do Judiciário não entram em contato por WhatsApp nem por chamadas de vídeo para solicitar transferências ou acesso a aplicativos bancários.

A mesma sorte não teve uma vítima em Uberaba (MG), que no mês passado teve um prejuízo de R$ 120 mil. Os bandidos realizaram a audiência falsa e informaram à vítima que ela precisaria pagar valores relacionados a impostos, taxas e procedimentos burocráticos para a liberação do valor judicial.

A Polícia Civil orienta para que em caso de dúvidas sobre a autenticidade das informações, o cidadão procure o órgão responsável ou o representante legal para confirmar as informações recebidas.

“Ao identificar qualquer situação suspeita, a pessoa não deve compartilhar senhas, código de autenticação, dados bancários ou realizar pagamentos sem a devida confirmação da legitimidade do contato. Caso haja indícios de tentativa de golpe ou eventual prejuízo financeiro, a orientação é registrar ocorrência junto à Polícia Civil.”

Vítima de golpe

“Fingiram ser juiz, promotor e pressionaram na videochamada”

No Espírito Santo, um casal de aposentados, de 67 e 61 anos, relatou ter caído em um golpe. Um processo relacionado a uma ação de consumo foi usado como pretexto pelos criminosos.

A Tribuna — Como aconteceu a abordagem?

Vítimas — Tínhamos uma ação em andamento na área de Direito do Consumidor. Um número com o símbolo do escritório da nossa advogada informou que o processo havia sido concluído e nos chamou para uma audiência virtual para recebermos o dinheiro. Também enviaram um ofício com o número do processo e nossos dados.

E como foi a videochamada? Havia mais de uma pessoa?

Havia uma pessoa se passando por juiz e outra como promotor.

E como foi o diálogo?

Eles eram persuasivos e pressionavam, dizendo que, se não fosse resolvido naquela videochamada, poderíamos perder o dinheiro.

E o que fizeram com os dados?

Eles fizeram um empréstimo de R$ 2.500 usando o limite do cartão e pediram outra conta para uma suposta simulação da transferência. O valor foi enviado para essa conta e, em seguida, solicitaram que fosse repassado para uma conta que seria do promotor.

E o que ocorreu em seguida?

Eles pediram para fazer uma nova simulação, só que com um valor ainda maior. Aí desconfiamos e desligamos a ligação.

Vocês entraram em contato com o banco?

Sim, e eles disseram que não poderiam fazer nada. Estamos agora num processo para tentar reaver o dinheiro e recuperar o prejuízo. Além do valor que perdemos, estamos pagando pelo empréstimo que eles fizeram.

Análise 

“Verificação jamais pode ser substituída”

“A tecnologia aproximou a Justiça do cidadão, mas também aproximou os golpistas de suas vítimas. Por isso, a confiança jamais pode substituir a verificação. A prevenção continua sendo a principal ferramenta de defesa.

Qualquer pedido de dinheiro relacionado a processo judicial deve ser confirmado junto ao advogado de confiança e pelos canais oficiais.

Quando até uma audiência judicial pode ser falsificada, a maior defesa do cidadão não está na tela do celular, mas no senso crítico. Em tempos de fraude digital, desconfiar não é paranoia, é sobrevivência.”

Saiba Mais 

Como o golpe funciona

  • A fraude geralmente começa por telefone ou WhatsApp. Os criminosos se apresentam como advogados, servidores da Justiça ou representantes de tribunais superiores.
  • Em muitos casos, eles já possuem algumas informações reais da vítima, como nome completo, CPF ou detalhes de um processo judicial, o que aumenta a credibilidade da abordagem.
  • O golpista informa que a pessoa teria valores a receber em razão de uma ação judicial, precatório, revisão previdenciária, indenização ou acordo homologado pela Justiça. Em seguida, afirma que, para liberar o pagamento, será necessário participar de uma videoconferência.

Encenação da audiência

  • Na data marcada, a vítima recebe um link para uma chamada de vídeo. Durante a videoconferência, os estelionatários costumam adotar uma série de estratégias para dar aparência de legalidade ao procedimento.
  • Utilizam fundos virtuais com brasões de tribunais; vestem-se formalmente ou usam togas falsas; exibem documentos supostamente oficiais; mencionam órgãos como o STJ, STF, TRFs ou tribunais estaduais e falam em linguagem jurídica para impressionar a vítima.
  • Em alguns casos, mais de uma pessoa participa da chamada, desempenhando papéis diferentes, como “juiz”, “servidor” ou “gerente responsável pela liberação do valor”.

O momento da fraude

  • Após conquistar a confiança da vítima, os criminosos alegam que existe uma pendência para a liberação dos recursos. As justificativas variam: Pagamento de taxa cartorária; custas judiciais; imposto sobre o valor recebido; taxa de desbloqueio bancário; garantia para transferência eletrônica; confirmação de identidade via Pix.
  • Também são comuns pedidos para que a vítima compartilhe a tela do celular ou do computador. Durante esse procedimento, os golpistas orientam a realização de operações bancárias que, na prática, resultam em transferências para contas controladas pela quadrilha.

Por que o golpe convence

A fraude explora três fatores principais:

  • Autoridade: a suposta participação de integrantes do sistema de Justiça reduz a desconfiança.
  • Urgência: os criminosos afirmam que o dinheiro será perdido caso a vítima não aja imediatamente.
  • Expectativa financeira: muitas vítimas realmente possuem processos em andamento e acreditam estar diante de uma etapa legítima para receber valores.

O que diz a Justiça

  • Tribunais brasileiros têm alertado que juízes e servidores não exigem depósitos antecipados para liberar valores decorrentes de processos. Quando existem custas ou despesas processuais legítimas, elas seguem procedimentos formais e documentados, normalmente por meio dos canais oficiais do processo.
  • Além disso, audiências judiciais virtuais são agendadas oficialmente e não servem para solicitar transferências bancárias ou validar pagamentos via Pix.

Como se proteger

  • Ao receber uma abordagem desse tipo, a orientação é encerrar a conversa, não realizar transferências, não compartilhar tela nem senhas e confirmar as informações diretamente com o advogado responsável pelo processo, utilizando contatos previamente conhecidos.


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