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Saúde

Como vai agir nova pílula contra o câncer que reduz em 60% o risco de morte

Nova medicação para tratamento do tumor de pâncreas, um dos mais agressivos, emocionou médicos durante a sua apresentação

Como vai agir nova pílula contra o câncer que reduz em 60% o risco de morte
- Fernando Zamprogno destaca que o medicamento preenche uma lacuna importante para tratamento da doença
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Camila Lima

Jornalista formada pela Faculdade Estácio de Sá de Vitória, atua há 7 anos no jornal A Tribuna. Integrante da editoria de Cidades, tem como principal foco a cobertura de saúde, área na qual construiu sólida experiência em reportagens, entrevistas e coberturas de eventos pelo Brasil. Apresenta o podcast Fala, Doutor, dedicado a levar informação acessível e de qualidade sobre medicina e bem-estar ao público.

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Considerado um dos tumores mais letais, o câncer de pâncreas tem sido um desafio para a comunidade médica, até agora. Isso porque uma nova esperança de tratamento para esse tipo de tumor tem comovido médicos e pesquisadores da área.

Uma nova medicação oral experimental, chamada daraxonrasib, reduziu em cerca de 60% o risco de morte em pacientes com a doença.

A apresentação do tratamento foi um dos destaques da reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), que terminou nessa terça-feira (2), realizada em Chicago, nos Estados Unidos. O estudo, intitulado RASolute 302, foi recebido com entusiasmo por médicos, que, emocionados, aplaudiram de pé os resultados.

A medicação atua bloqueando a proteína RAS, uma das principais responsáveis pelo crescimento dos tumores e que está alterada em mais de 90% dos casos desse tipo de câncer.

Segundo o oncologista clínico e coordenador da Oncologia da Rede Meridional, Fernando Zamprogno, o último tratamento para o câncer de pâncreas é de 2014. O novo medicamento, de acordo com ele, preenche uma lacuna importante.

“Agora podemos ter uma opção de segundo tratamento, que, comparado com a quimioterapia comum, prolongou a sobrevida dos pacientes e o intervalo livre de progressão. Para quem fez o tratamento, dobrou o tempo de vida de seis meses e meio para algo em torno de 13 meses de sobrevida. Isso é uma redução de 60% do risco de morte”, ressaltou.

A presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), Clarissa Baldotto, explica que o medicamento é uma terapia-alvo. “É uma terapia direcionada para uma mutação (RAS) que acontece com muita frequência em pacientes com câncer de pâncreas. É uma estratégia, de certa forma, personalizada”.

Pós-doutora Débora Dummer Meira, professora e pesquisadora do Núcleo de Genética Humana e Molecular da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), ressalta que o daraxonrasib representa muito mais do que um novo tratamento.

“Ele demonstra que uma das principais engrenagens moleculares do câncer, considerada inalcançável por mais de 40 anos, pode finalmente ser controlada. É uma descoberta que pode mudar não apenas o tratamento do câncer de pâncreas, mas a forma como enfrentamos diversos tumores impulsionados pela via RAS”.

Estudo para definir melhor forma de utilização

Apesar dos resultados promissores apresentados na ASCO 2026, a pílula para tratamento de câncer de pâncreas ainda precisa passar pelas etapas de aprovação das agências reguladoras, como a Agência de Alimentos e Medicamentos dos EUA (FDA) e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Além disso, de acordo com a pós-doutora em Biociências e professora da Ufes, Débora Dummer Meira, serão necessários estudos adicionais para confirmar a segurança, definir as melhores formas de utilização e identificar quais pacientes terão maior benefício. “No Brasil, após a aprovação pela Anvisa, também será importante avaliar sua incorporação ao SUS”.

O oncologista clínico Fernando Zamprogno destaca que ainda não há preço definido para o medicamento, e que, mesmo aprovado no Brasil, ainda não estará disponível no SUS e nem nos planos de saúde, dependendo de incorporação no Rol da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). “Dependendo do preço, só pessoas ricas poderão comprar”.

Tire suas dúvidas

O que é o câncer de pâncreas

O câncer de pâncreas é um dos tumores com pior prognóstico para a oncologia. A taxa de sobrevida estimada em 5 anos para o câncer de pâncreas é de cerca de 5%. Muitos pacientes descobrem a doença já em estágio avançado e as opções de tratamento costumam oferecer ganhos modestos de sobrevida.

O que é essa nova pílula?

O daraxonrasib é um medicamento experimental desenvolvido para tratar o câncer de pâncreas avançado. Ele atua bloqueando a proteína RAS, uma das principais responsáveis pelo crescimento dos tumores e que está alterada em mais de 90% dos casos desse tipo de câncer.

Como o estudo foi feito>

Quinhentos pacientes foram divididos por sorteio em dois grupos. Um grupo tomou o comprimido; o outro seguiu com a quimioterapia convencional.

Os resultados do estudo RASolute 302, de fase 3, indicam que o daraxonrasib praticamente dobrou o tempo de vida dos pacientes com câncer de pâncreas avançado. A sobrevida média passou de 6,7 meses, entre aqueles tratados apenas com quimioterapia, para 13,2 meses nos que receberam a nova medicação.

O risco de morte caiu 60%.

O tempo até a doença voltar a avançar também dobrou: 7,3 meses contra 3,5 meses com a quimioterapia.

Além da maior eficácia, a terapia apresentou menos efeitos colaterais graves e uma taxa significativamente menor de abandono do tratamento, de apenas 1,2%.

Como funciona?

Segundo a pós-doutora Débora Dummer Meira, professora e pesquisadora do Núcleo de Genética Humana e Molecular da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), o daraxonrasib é um inibidor RAS(ON) multisseletivo, capaz de bloquear múltiplas formas mutadas de RAS enquanto a proteína está em seu estado ativo (“ligado”). Isso o diferencia dos inibidores clássicos, que atuam apenas em mutações específicas, como KRAS G12C.

Em vez do daraxonrasib atuar apenas sobre uma mutação rara e específica, como faziam alguns medicamentos mais antigos, ele consegue interferir de forma mais ampla na sinalização da família RAS, uma das principais vias que comandam o crescimento, a sobrevivência e a disseminação das células tumorais.

O sucesso do daraxonrasib sugere que estratégias semelhantes poderão atuar sobre outros tumores que também dependem da via RAS, como alguns cânceres de pulmão, colorretais e biliares.

Aprovação

A Revolution Medicines, farmacêutica responsável pelo remédio, confirmou, segundo o G1, que submeterá os dados à Agência de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA) como parte de um pedido formal.

Ainda não há previsão de quando a medicação pode ser aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Fonte: Especialistas consultados, G1 e pesquisa AT.



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