A quarentena causada pela pandemia do novo coronavírus tem modificado as relações familiares em quase todos os sentidos. Mesmo morando sob o mesmo teto há anos, muitos estão aprendendo a conviver somente agora.
Mas para buscar uma boa convivência não basta somente passar mais tempo junto. É necessário derrubar algumas barreiras e seguir regras básicas, como ressalta a psicanalista e especialista em Inteligência Emocional, Karine Zanon.
“As pessoas estavam mais separadas, mesmo dentro de um mesmo ambiente. Agora, as famílias estão obrigadas a se relacionar. A pandemia nos proporcionou essa possibilidade de estar perto e enxergar coisas que antes não prestávamos atenção. Estamos descobrindo as belezas, mas também as coisas menos bonitas do outro”, afirmou.
A especialista ressaltou que a boa convivência passa por mudanças de atitude em relação ao respeito, à comunicação, à generosidade e ao perdão. Em entrevista ao jornal A Tribuna, Karine destrinchou esses pontos e explicou como alcançá-los.
“As pessoas não estão acostumadas a praticar essas regras. E se isso não for feito, teremos o caos”.
ENTREVISTA
Karine Zanon, psicanalista e especialista em Inteligência Emocional
A Tribuna – Há muitas famílias que só estão aprendendo a conviver juntos agora, nesse momento de quarentena?
Karine Zanon – Esse momento de pandemia acabou propiciando isso. Vivemos tempos em que a tecnologia tomou conta das famílias. Cada vez mais, os pais estão envolvidos em maratonas de séries nos finais de semana, enquanto filhos se envolvem nas redes sociais e videogames. Há casas em que existem televisões espalhadas pelos cômodos e cada um faz o que quer e na hora que quer.
As pessoas estavam mais separadas, mesmo dentro de um mesmo ambiente. Muitos diziam que não tinham intimidade com os próprios pais, não se relacionavam mais.
O que mudou agora?
As famílias estão obrigadas a se relacionar. A pandemia proporcionou estar perto, e agora estamos enxergando coisas que antes não prestávamos atenção. As pessoas estão olhando para os seus de uma forma mais sutil. Percebemos pais que estão aprendendo a brincar com os filhos. Estamos descobrindo as belezas, mas também as coisas menos bonitas do outro.
Este momento de quarentena é o melhor possível para melhorar a convivência familiar?
Não é o momento ideal, mas é um tempo oportuno. É o tempo de pegar o limão é fazer uma limonada. Porque é na iminência de morte que nos sentimos mais próximos. As pessoas se assustaram com a pandemia e ficaram mais próximas, protegendo os seus. Começaram a entender que tinham perdido tempo de estar próximos. Precisou isso acontecer para que fosse assim.
A oportunidade de melhorar a convivência está posta. Temos relatos de pessoas que descobrem que o filho adolescente revoltado também estava desesperado internamente e agora consegue se expressar em casa. Se não fosse a pandemia, as pessoas não iriam se alertar para as outras que dividem o mesmo tempo.
Qual é a regra básica para uma boa convivência familiar?
A primeira regra é o respeito. Ele não é só no trato. É respeitar o outro como pessoa, mesmo que o outro seja uma criança. É a importância dos limites nas relações humanas. O ser humano tem quatro poderes: o de pensar, o de sentir, o de falar e o de agir. Em todos, temos controle só dos nossos poderes. Não temos controle sobre o poder dos outros.
Quando entendemos isso e respeitamos esses poderes do outro, começamos a olhar o outro como um ser, alguém que tem suas escolhas, medos, alegrias e tristezas. Quando temos esse princípio do respeito, partimos para a segunda regra: a boa comunicação.
Qual é a importância dessa boa comunicação?
O respeito faz a comunicação ser eficiente. Precisamos observar o que falamos. Por exemplo, quando falamos com nosso filho: “engole o choro, cala a boca, não venha dar pitaco”. Não existe respeito, então a comunicação não é eficaz.
Existem outras regras?
A generosidade é uma delas. É bom fazer bem àqueles que nos faz bem. E o quarto ponto é o perdão. É o olhar para o outro entendendo que ele é diferente de mim. Olhar com compaixão, entendendo que ele também tem medos e quer ser feliz, assim como eu.
Como colocar isso em prática durante a quarentena?
Tudo gira em torno desses quatro poderes que eu falei. Temos de agir, fazer diferente. Ser aquela mudança que gostaríamos de ver no mundo, como falava Gandhi. Temos que parar com a queda de braço e lembrar que na família estão pessoas que amamos. Partir para a ação e fazer, começar aquilo que não conseguimos ver no outro. Começar por nós.
A flexibilidade é uma premissa para o ser humano. Quando som
os flexíveis, entendemos que nossa opinião não é a única e aceitamos a do outro. Quem é mais flexível é mais feliz. Quem é muito endurecido, não aceita opiniões, briga por sua ‘verdade pessoal’, sendo que bastava ouvir o ponto de vista do outro. Temos que entender que o poder que temos é só sobre o que sentimos, falamos, pensamos e fazemos. Entendendo isso, vamos parar de pensar que o outro precisa fazer igual.
Mas muitos não conseguem fazer isso. Por conta disso, a querentena também tem gerado muitas brigas?
Sim, pois relacionamentos começaram a ser observados mais de perto e isso tem causado conflitos. Aumentam as brigas, pois as pessoas não estão acostumadas a praticar essas regras: o respeito, a comunicação, a generosidade e o perdão. Se isso não for feito, gera o caos.
Por que muitas pessoas são mais gentis e respeitam mais as outras fora do ambiente familiar do que em casa?
As pessoas, quando estão dentro de casa, são o que são, não precisam esconder uma falsa delicadeza. Quem está ali com ela já conhece, e a pessoa não consegue fazer de conta que é perfeita. Lá fora, pela necessidade das pessoas de se sentirem aceitas e amadas, acabam criando essa máscara de perfeição. Elas não vão falar tudo na lata. Quem tem o perfil de ser assim, de dizer verdades, acaba sendo taxada de intolerante. Em casa, não há tanto a necessidade de agradar. Em casa, estamos despidos.