
Quanto tempo você passa nas redes sociais? E limpando a casa ou com os amigos? Essas tarefas, bem como o trabalho em excesso, podem roubar o tempo de convivência com a família e, com isso, prejudicar a relação familiar.
Segundo o terapeuta de família Cláudio Miranda, para garantir uma boa convivência em família, “não se pode perder tempo com tarefas sem importância”.
Alguns sinais podem indicar quando uma família não está sabendo conviver, como as discussões frequentes, irritabilidade e a desatenção com o outro.
ENTREVISTA | Cláudio Miranda, terapeuta de Família e Psicopedagogo Clínico
A Tribuna – As famílias estão mais distantes, mesmo neste momento, com mais tempo na mesma casa?
Cláudio Miranda – O distanciamento afetivo nas famílias já acontecia antes. Nesse momento de pandemia ficaram evidenciados muitos aspectos da nossa inabilidade de convivermos.
Infelizmente, estar juntos fisicamente nem sempre nos torna próximos afetivamente. Há registros do aumento de agressão e estresse doméstico. Apesar de, juntos, sob o mesmo teto, as famílias não mostram um bom nível de interação.
Como ter essa interação?
A questão é que não podemos perder muito tempo com tarefas sem importância. Excesso de trabalho, arrumação da casa, tempo demasiado em redes sociais e com amigos podem afetar a comunicação e o relacionamento familiar.
A vida familiar é estruturada nas relações de cuidado e de atenção. Se as pessoas da família se ocupam com tarefas que os afastam do convívio e do contato, a relação familiar será prejudicada.
Por exemplo, a dona de casa que coloca atenção excessiva na arrumação da casa; e o pai e a mãe que se ocupam demasiadamente com o trabalho fora, provavelmente, não estarão com disposição para se relacionar com os filhos e a família.
Quando os filhos buscam muito os amigos, eles podem estar desenvolvendo um mecanismo de compensação da ausência do pai e da mãe em suas vidas. Os amigos se tornam mais importantes.
Muitas casas têm se tornado uma espécie de república, em que as pessoas dividem um mesmo espaço, mas não compartilham suas alegrias e suas dores.
Algum membro da família pode dizer que essas tarefas são, sim, importantes para ele. De que forma a família pode ocupar lugar central?
É verdade que as tarefas da casa e o trabalho são importantes, contudo elas não devem se sobrepor à relação e a vida em família. E isso está se tornando cada vez mais comum.
A família ocupa o lugar central quando o pai e a mãe sabem que sua presença e seus cuidados na vida dos filhos os estruturarão e farão deles os homens e mulheres de bem que esse mundo precisa.
Quais os sinais de que uma família apresenta problemas de convívio?
Filhos que ficam o tempo todo fechados no quarto; brigas e discussões frequentes; diálogo monossilábico; refeições e lanches separados; desinteresse em estar juntos; desatenção com o outro, em datas comemorativas como aniversário; irritabilidade; comportamento de tristeza, apatia e casos até de automutilação; tempo excessivo no trabalho e redes sociais.
Dois comportamentos desse já são um indicativo de problemas de comunicação e relacionamento familiar. Falta predisposição para o diálogo. Isso requer tempo, e tempo é interesse.
Como abrir um diálogo transparente em casa?
Isso é treinado. Muitas famílias não têm esse hábito. Elas mantêm o contato físico, mas não têm o hábito de comunicar. Muitos membros se olham, mas não se veem.
Na comunicação real, existe um calor nas palavras. As palavras não são vazias e frias. Quando falo de comunicação, não digo apenas de falar, e sim, também de um olhar, gesto, atitudes e sinais de reciprocidade. É dizer que está presente.
Viver é fácil, conviver que é o difícil. No viver, eu sento à mesa para comer. Já no convívio, além de estar à mesa, eu tenho troca de afeto, de olhar e cuidado.
Quando a comunicação não tem envolvimento e predisposição, ela se torna um noticiário, como, por exemplo, ‘você viu isso?’. Fica apenas nos fatos, não tem afeto.
É possível recuperar uma família que enfrenta problemas de convívio? De que forma?
Toda família com problemas de convívio pode se modificar. E toda família com problemas de relacionamento pode melhorar. O primeiro passo é reconhecer que está com uma dificuldade. Em seguida, o casal começará a experimentar estratégias de aproximação mútua e dos filhos. Para isso, eles poderão buscar ajuda em livros, cursos, encontros de casais em suas igrejas e centros comunitários.
Outros poderão também buscar ajuda especializada na terapia de casal e de família. Os resultados são sempre muito bons.
Quais atividades podem ajudar na construção de uma boa relação familiar?
Cada família e casal deve descobrir atividades prazerosas que integrem e unam mais o grupo.
Quaisquer atividades que façam juntos e prazerosamente, como: contar casos, jogos em grupo (baralho, dados, trilha). Preparar uma refeição, arrumar ou limpar juntos a casa, assistir a um filme, orar ou meditar.