O domínio do idioma e a capacidade de expressão por meio da leitura e da escrita são instrumentos fundamentais para o exercício da cidadania, e esse é o maior desafio para a educação de qualidade.
Além dos reconhecidos benefícios para a educação integral, a leitura e a escrita ampliam as oportunidades de inserção social e da disseminação cultural.
Quanto mais o aluno associar a leitura e a escrita a uma atividade que lhe dê prazer, o aprendizado será mais fácil, afinal, aprende-se a ler e escrever, lendo e escrevendo.
Se a leitura é prazerosa, todos podem se apaixonar por ela. Uma leitura especial pode inspirar a produção de textos inovadores. Se o lance é escrever, os entraves precisam ser superados, visto que, escrever vai além da motivação, pressupõe o conhecimento das várias linguagens.
Como sugestão para as próximas iniciativas, aprecie a riqueza deste artigo.
Escrever é a arte de cortar palavras
De que mestre das letras teria partido essa preciosa lição?
Armando Nogueira
Escrever é cortar palavras. Passei alguns anos certo de que o autor dessa preciosa máxima era Carlos Drummond de Andrade. Até que um dia perguntei ao poeta. Ele conhecia, mas negou que fosse dele. Confesso que fiquei desapontado. A sentença tinha a cara do mestre Drummond, cuja prosa é um exemplo de concisão.
Otto Lara Resende desconfiava que pudesse ser de um escritor mexicano a ideia da dica preciosa. Eu, por mim, seria capaz de atribuí-la a John Ruskin, notável escritor e crítico inglês do século passado. Se não o disse, com todas as letras, certamente foi Ruskin quem melhor ilustrou o adágio, num conto antológico. É o caso de um feirante de peixes num porto britânico.
O homem chega à feira e lá encontra seu companheiro, arrumando os peixes num imenso tabuleiro de madeira. Cumprimentam-se. O feirante está contente com o sucesso do seu modesto negócio. Entrou no negócio há poucos meses e já pôde até comprar um quadro-negro pra badalar seu produto.
Atrás do balcão, num quadro-negro, está a mensagem, escrita a giz, em letras caprichadas: HOJE VENDO PEIXE FRESCO. Pergunta, então, ao amigo e compadre:
– Você acrescentaria mais alguma coisa?
O compadre releu o anúncio. Discreto, elogiou a caligrafia. Como o outro insistisse, resolveu questionar. Perguntou ao feirante:
– Você já notou que todo o dia é sempre hoje?
– E acrescentou: – Acho dispensável. Esta palavra está sobrando…
O feirante aceitou a ponderação: apagou o advérbio. O anúncio ficou mais enxuto. VENDO PEIXE FRESCO.
– Se o amigo me permite – tornou o visitante – gostaria de saber se aqui nessa feira existe alguém dando peixe de graça? Que eu saiba, estamos numa feira. E feira é sinônimo de venda. Acho desnecessário o verbo. Se a banca fosse minha, sinceramente, eu apagaria o verbo.
O anúncio encurtou mais ainda: PEIXE FRESCO.
– Me diga uma coisa: Por que apregoar que o peixe é fresco?
O que traz o freguês a uma feira, no cais do porto, é a certeza de que todo peixe, aqui é fresco. Não há no mundo uma feira livre que venda peixe congelado…
E lá se foi também o adjetivo. Ficou o anúncio reduzido a uma singela palavra: PEIXE
Mas, por pouco tempo. O compadre pondera que não deixa de ser menosprezo à inteligência da clientela anunciar, em letras garrafais, que o produto aí exposto é peixe. Afinal está na cara. Até mesmo um cego percebe, pelo cheiro, que o assunto, é pescado.
O substantivo foi apagado. O anúncio sumiu. O quadro-negro também. O feirante vendeu tudo. Não sobrou nem a sardinha do gato. E ainda aprendeu uma preciosa lição: Escrever é cortar palavras.
NOGUEIRA, Armando. Escrever é a arte de cortar palavras. Revista Imprensa Jornalismo e Comunicação. Imprensa Editorial Ltda. Ano 23. Nº 253. 2010.