Ela era bem mais do que uma “gracinha”! Hebe Camargo era atrevida, irreverente e absolutamente dona do sofá que comandava nas noites da televisão. “A Hebe não é de direita, a Hebe não é de esquerda. A Hebe é direta”, disse certa vez.

A fala célebre, direcionada àqueles que a acusavam de ser uma defensora “das bichas”, está em “Hebe – A Estrela do Brasil”, de Maurício Farias, nos cinemas amanhã. “Eu defendo quem eu sinto que precisa”, completou ela na época.
A época é 1980, transição da ditadura para a democracia, e quem vive a loira “linda de viver” é a atriz Andréa Beltrão. Depois de receber no seu sofá Dercy Gonçalves (Stella Miranda) e Roberta Close (Renata Bastos), o cerco se fecha em torno de Hebe. Mas ela não aceita ser silenciada e se demite ao vivo.
A ousadia chama a atenção de Silvio Santos, que oferece um programa semanal para a paulista que fazia aniversário no Dia da Mulher. Ainda na trama, o lado menos conhecido de Hebe: o relacionamento abusivo com o segundo marido, Lélio Ravagnani, com quem viveu até sua morte, causada por câncer, em 2012.
“Parecia algo inalcançável” – Andréa Beltrão, atriz
AT2: Qual foi sua primeira reação ao convite para interpretar Hebe Camargo?
Andréa Beltrão: Quando a Carol Kotscho, roteirista e produtora, me convidou para interpretar a Hebe, a minha primeira sensação foi: sim, mas como? Eu sou uma atriz carioca, não tenho nenhuma semelhança física com a Hebe Camargo.
Mas a Carol viu algo em mim que lhe deu total certeza para me convidar. Sem nenhum teste, o que seria natural nesse caso, já que se trata de uma personagem que existiu, viveu 60 anos numa tela de televisão, com a vida toda disponível no YouTube. O projeto foi andando, e eu comecei a procurar os caminhos da preparação.
AT2: Quais foram os caminhos?
Andréa Beltrão: Nós optamos por descartar o uso de próteses ou recursos que aprofundassem ou sublinhassem uma semelhança física. Então, eu escolhi um caminho, uma transversal, estudei muito o gestual da Hebe.
Eu dediquei milhares de horas à pesquisa, me debrucei sobre todos os links disponíveis, foram quase dois anos de preparação.
Quando eu via a Hebe no início da pesquisa, me parecia algo inalcançável, inatingível, impossível de fazer. Eu via muitas diferenças. A questão do sotaque, então, era uma coisa imensa para mim para ser atravessada.
Mas, quando passou aquele momento do desespero total, do pânico, de vez em quando eu reconhecia o Lado B dela, ali no Lado A. É um prazer, uma delícia, fazer a virtuose do gesto, do sotaque, da postura – e ela tem uma postura muito característica dela, sempre muito levantada, é muito bonito. E eu corri atrás disso.
AT2: Como foi correr atrás disso?
Andréa Beltrão: Nessa preparação, tive parceiros muito importantes na composição física da personagem para formar em pouco tempo, de maneira muito substantiva, uma personalidade para o filme, e a personalidade da Hebe, que veio junto com a minha também.
Eu nunca quis fazer um trabalho em relação a Hebe em que eu ficasse lutando para ter uma incorporação. Eu queria que ela estivesse, mas que eu também estivesse, e que nós duas criássemos então uma terceira pessoa, que é essa pessoa que vai numa e vai na outra. Eu não queria virar a Hebe.
AT2: Como foi essa nova parceria com Maurício Farias, seu marido, na direção?
Andréa Beltrão: Eu considero o Maurício um gênio. Além de ser casada com ele, eu tive essa sorte. Nós trabalhamos há 26 anos juntos, Maurício e eu, eu e Maurício, mas nós também temos nossos projetos em separado. Nós nos damos muito bem no trabalho, temos uma dobradinha de provocação, de desafio, de riscos, além de adorarmos estar juntos.
Eu trabalho há quase 40 anos, e, poucas vezes, eu vi uma pessoa enfrentar um set, uma equipe de 150 pessoas, e uma plateia de figurantes de 400 pessoas ou mais até, com uma tranquilidade absoluta, serenidade, alegria, entusiasmo incansável e doçura. É realmente bonito de ver como ele joga com classe.
Eu, que sou apaixonada por futebol, acho que ele é assim um Zidane, aquele jogador elegante, rico em conteúdo, cheio de humanidade.
AT2: Alguma cena te marcou?
Andréa Beltrão: Há uma cena logo no início do filme, em que a Hebe aparece dirigindo, saindo do estúdio do SBT, num longo caminho para casa. Para mim, é um momento fundamental do filme. Sempre fico abismada quando assisto, porque é incrível como conseguiram, com uma cena sem texto, etérea, mergulhar o espectador de uma maneira suave num lugar mais profundo, para dentro da casa da Hebe, para o seu Lado B. Ela entra sozinha, pela área de serviço, vai andando pelas vísceras da casa. É uma cena maravilhosa.