As sensações persistentes de angústia, de desânimo, de vazio e de preocupação excessiva ameaçam a qualidade de vida. Tanto que a depressão, a ansiedade e outros problemas de saúde mental já preocupam mais os brasileiros do que o câncer.
De acordo com a pesquisa “Monitor Global dos Serviços de Saúde”, do instituto de pesquisas Ipsos, 49% da população elenca a saúde mental como um dos principais problemas de saúde do País, enquanto apenas 29% citam o câncer. Em 2018, somente 18% da população apontava a saúde mental, na mesma pesquisa.
A pandemia, além das mudanças de comportamento, se reflete no aumento da preocupação com a saúde mental, explica o líder da área de saúde da Ipsos, Cássio Damacena. Como o câncer já é uma doença historicamente relevante, a atenção se volta aos impactos pandêmicos vividos pela população, analisa.
“Observamos aspectos relacionados à saúde mental como algo mais relevante na percepção da população, tanto o isolamento, as perdas e a proximidade com uma pandemia levaram a diferentes reflexões sobre saúde. Tivemos que nos adaptar a uma nova realidade com os efeitos da pandemia”.
A médica psiquiatra Letícia Mameri explica que, desde antes da pandemia, o Brasil lidera o ranking mundial de pessoas vivendo com ansiedade, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Para ela, ainda há uma subnotificação do problema no País.
“A situação se tornou insustentável. Ainda existe um estigma sobre a saúde mental, mas as pessoas estão vencendo crenças e buscando ajuda. Vivemos, nos últimos anos, um desmonte da saúde mental no SUS, o que dificulta o acesso aos tratamentos. Saúde deve ser política de Estado”.
Já a psicóloga Marina Miranda analisa que as crises econômica, política e social se refletem na saúde mental da população. Para ela, as pesquisas podem contribuir para a melhoria dos serviços de saúde.
“Os serviços de saúde mental para as populações mais carentes ainda são escassos, além de problemas em relação à qualidade dessa oferta, já que se reproduz uma lógica hierárquica e opressora por falta de qualificação para lidar com minorias sociais. O medo, o estresse e a ansiedade afetam a qualidade de vida das pessoas”.
Força para vencer câncer e depressão
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A insônia, a irritabilidade, o isolamento e a angústia eram rotina para a aposentada Iria Damico, 67, no início de 2020.
Após perder familiares e pessoas próximas para a covid-19 e não poder visitar o neto recém-nascido naquele ano, por conta da pandemia, ela entrou em depressão.
Com o diagnóstico, a aposentada iniciou um tratamento medicamentoso. O cuidado com a saúde mental a fortaleceu, ainda, para enfrentar um câncer do sistema linfático, descoberto em dezembro de 2021.
Hoje, curada do câncer, Iria comemora as superações em sua saúde. “A fé e a família foram minha força para vencer o câncer e, hoje, estou superando a depressão. Todos devem cuidar da saúde da mente”.
Fé e cuidados
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A convivência com a mãe e duas irmãs diagnosticadas com depressão, além de um irmão com esquizofrenia, fez a produtora de elenco Penha Paiva, 43, compreender como cuidar da saúde mental é fundamental para viver bem.
Ela conta que, em muitos momentos, encontrou força na fé para enfrentar problemas pessoais. “Já tive mil motivos para entrar em depressão. É uma doença séria e precisa de tratamento”.
Saiba mais: preocupação dobrou em 4 anos
Pesquisa
– A pesquisa “Monitor Global dos Serviços de Saúde”, do instituto de pesquisas Ipsos, foi realizada entre os dias 22 de julho e 5 de agosto de 2022, com 23.507 entrevistados, de 34 países, como Brasil, Argentina, Itália, Estados Unidos e Portugal.
– Os participantes foram perguntados sobre os principais problemas de saúde de seu país, com as seguintes opções disponíveis, em múltipla escolha: saúde mental, câncer, estresse, obesidade, diabetes, abuso de drogas, abuso de álcool, doenças cardíacas, tabagismo, demência, hospitais superlotados e doenças sexualmente transmissíveis.
Preocupações
– Seis em cada dez brasileiros (62%) consideram a covid-19 o maior problema de saúde enfrentado pelo país. O índice está acima da média global, que é de 47%.
– Em seguida, os brasileiros citaram a saúde mental como um dos principais problemas enfrentados no país, com 49%. O índice, em 2018, era de 18%, ou seja, a preocupação com a depressão, ansiedade e outras condições de saúde mental mais do que dobrou nos últimos quatro anos.
– Apenas 29% dos entrevistados citaram o câncer como um dos principais problemas enfrentados no Brasil. A doença teve uma alta queda no ranking: em 2018, esse número foi de 57%.
– O estresse ficou em quarto lugar entre os principais problemas de saúde apontados pelos brasileiros, com 27%.
– Em quinto lugar, a obesidade alcançou 15% das menções dos brasileiros entrevistados.
Dados
– No Brasil, quase 19 milhões de pessoas sofrem de ansiedade. O País está no topo do ranking mundial no problema, desde 2019, antes da pandemia, que agravou a situação.
Fonte: Ipsos, Organização Mundial da Saúde (OMS) e especialistas consultados.