Se assumir vítima de humilhações não é um processo fácil. A pesquisa da Empresa Júnior da UVV (Ejuvv) mostrou que 40,8% não contaram que eram alvos de bullying.
Somando esses a aqueles que contaram mas continuaram sofrendo com humilhações, totalizaram 96% de entrevistados que não tiveram o problema resolvido.
“Dificilmente é possível reverter situações de bullying, no entanto, com certeza, precisam ser cuidadas e com bastante cautela, para não piorar ainda mais o sofrimento do alvo. Colocar alvo e autor frente a frente, por exemplo, pode agravar a situação de violência”, alerta a mestre em Psicologia Educacional e pedagoga Sandra Cristina Dedeschi, do Programa Semente.
Ela ressalta que, geralmente, demora bastante tempo para que a família, e mesmo a escola, tome ciência das ações de bullying, pois se tratam de agressões veladas. “O alvo frequentemente sofre calado e os espectadores preferem ficar quietos ou participar rindo das situações, às vezes com receio de se tornarem próximas vítimas”.
Muitas vezes, a falta de confiança na rede de apoio faz com que as crianças e adolescentes não contem a ninguém ou apenas aos amigos, que têm poucos recursos para ajudar. É o que observa a psicóloga escolar Camila Simões, do Colégio Caetano Álvares.
“Precisamos fazer a criança reconhecer sua rede de apoio. Esse é o nosso papel e desafio como escola e como família. O bullying começa de maneira sutil e precisa ser compreendido e combatido rapidamente. Sem recursos de ajuda, gera uma distorção de autoimagem”.
Os adultos, pais, professores e funcionários da escola devem ser apaziguadores de relações infantis, segundo a doutora em Educação Edna Tavares. “Sendo assim, devem estar sempre alertas para que o bullying não seja camuflado como ‘brincadeiras’. Quando a criança que é alvo não é acolhida, a sensação de impunidade pode deixar a vítima constrangida em relatos posteriores, o que pode trazer danos emocionais graves”.
A mudança de comportamento pode ser o principal indício de que algo está acontecendo. Segundo psicopedagogo Cláudio Miranda, às vezes a que sofre o bullying pode ser constrangida a não contar o que está acontecendo.
“Mas, invariavelmente, apresentará mudança de comportamento diferente do seu padrão normal. O bullying pode ser identificado ao ser analisar o comportamento usual da vítima, que vai mudando sistematicamente. Às vezes pode ser confundido com ansiedade”.
Vida nova após trocar de escola
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A cabeleireira Carina dos Santos Nascimento, de 33 anos, contou que sofreu junto com o filho Matheus Diom, de 10, quando o menino era vítima de bullying na escola antiga. Ela conta que o menino tinha 5 anos quando colegas de classe bateram nele dentro da sala de aula. “Ele sempre foi um menino retraído, quieto, mas comecei a perceber que ele estava ainda mais calado, não me olhava nos olhos e nem conversava comigo”.
Além do comportamento, o aprendizado e a recusa em ir para a escola também preocuparam a família. “A escola disse que ele tinha autismo, TDAH, o que não era verdade. Só melhorou quando troquei o Matheus de escola. Agora ele é outra criança, adora ir para aula. O que uma escola tirou do meu filho, a outra devolveu”.
“Aprendi a superar”
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Maísa Cordeiro Amorim, de 13 anos, teve de aprender desde pequena a se defender de bullying. Hoje ela combate e fala sobre o assunto. A estudante lembra que tinha 5 anos quando colegas da escola a xingaram e humilharam em sala de aula.
Foi com o apoio da mãe, Sheyliene Amorim, de 36 anos, do pai e do irmão, que ela superou e hoje não se importa com as ofensas, quando aparecem. “Hoje ainda há alguns episódios, mas aprendi a superar com a ajuda da minha família, principalmente da minha mãe”, contou.
Saiba mais
O que é bullying?
São atitudes agressivas, intencionais e repetitivas, que ocorrem sem motivação evidente, causando dor e angústia.
São executadas dentro de uma relação desigual de poder, tornando possível a intimidação da vítima. Podem ocorrer na forma direita, indireta e on-line.
Formas de bullying
Direta: Os alvos são atacados diretamente por meio de agressões físicas ou verbais (apelidos, ameaças, ofensas) e por gestos que incomodam.
Indireta: As ações levam ao isolamento social, ou seja, a agressão ocorre por meio de indiferença, isolamento, exclusão social ou difamação por boatos/fofocas.
Cyberbullying: Ocorre por meio de computadores ou celulares, sendo, geralmente, uma extensão do bullying que acontece na escola para o virtual.
Alguns tipos
Físico: Chutes, empurrões, lesões ligadas a atos de pressão e contato, beliscões.
Verbal: Apelidos, intimidação, provocação, observações homofóbicas ou racistas, muitas vezes com início mais leve e discreto, até atingir o alvo.
Moral, social ou psicológico: Inclui ignorar, fazer pouco caso, imitar desfavoravelmente, usando trejeitos e fazendo piadas, excluir ou incentivar a exclusão social com objetivo de humilhar. É mais difícil de reconhecer.
Material: Inclui estragar, danificar, furtar os pertences ou atirá-los contra a vítima.
Cyberbullying: Inclui a utilização de mídia eletrônica, por intermédio de e-mails, postagens, imagens ou vídeos. Tem o potencial de, em segundos, alcançar um número muito grande de pessoas deliberadamente e, em alguns casos, anonimamente, podendo causar danos psicológicos mais acentuados e negativos.
Fonte: Sociedade Brasileira de Pediatria e Ministério da Saúde.
Alguns sintomas
Irritabilidade
A agressividade e irritabilidade em casa ou em outros ambientes, dado a uma mudanças de comportamento inesperadas, podem ser sinais de problemas. É preciso ficar atento também à criança ou adolescente que pratica o bullying, pode ser sinal de problema em outros ambientes.
Isolamento social
Se isolar no quarto, não participar de momento em que toda a família está reunida, dificultar o diálogo podem ser um sinais de que a criança ou o adolescente quer fugir de conversas, esconder sinais de agressão ou não quer demonstrar seus sentimento diante da família. É preciso buscar meios de uma conversa afetiva.
Baixa autoestima
A vítima do bullying passa a apresentar falta de autoconfiança. Ela não consegue confiar em suas próprias habilidades para resolver seus problemas e isso pode durar até a vida adulta. Exalte pontos positivos e valorize conquistas.
Choro frequente
Muitas vezes, a reação à humilhação é o choro, que pode demonstrar a dificuldade de lidar com a agressão. Geralmente, o choro acontece sem um motivo aparente. Crianças e adolescentes que sofrem bullying podem desenvolver comportamento de ansiedade e depressão se não descobertas e protegidas a tempo.
Mudanças na escola
Quando está em sofrimento, a criança ou o adolescente apresenta mudanças de comportamento, na maioria das vezes. Eles podem ficar distraídos, desatentos ou quietos, e isso se reflete no desempenho escolar.
Alterações no sono
Junto com a ansiedade e os sintomas de depressão, podem surgir alterações de sono. Tanto a insônia quanto o sono excessivo podem ser formas de escapar do contato social. Podem acontecer também episódios frequentes de pesadelos.
Fonte: Especialistas consultados.