Educar é a difícil tarefa de se equilibrar entre o “sim” e o “não”. E muitas vezes, lidar com o sentimento e a dúvida se está fazendo o certo ou errado.
Educar dá trabalho, segundo a escritora, filósofa e palestrante Tânia Zagury. Autora de mais de 30 livros sobre educação, ela garante que se não der trabalho, não é uma boa criação, seja criando filhos dessa geração, acostumada com celulares e computadores, seja nas gerações passadas.
Mas, destaca que não precisa haver sentimento de culpa e chama os pais a uma reflexão no Dia das Crianças: a forma como está educando, está alinhada ao seu propósito como pai?
| A Tribuna: Essa é uma geração de crianças diferentes? Como os pais podem lidar?
Tânia Zagury – Muitas pessoas podem estar percebendo essa geração mais acelerada, conectada, mas ainda não é uma característica geracional.
Não fiz nenhum estudo de campo ainda sobre as características dessa nova geração. É preciso ter muito cuidado com afirmativas. Não podemos partir de um pressuposto por impressões, não seria cientificamente válido e nem colocado em uma característica geracional.
Agora, em termos comportamentais, os pais precisam se perguntar qual seria o motivo para que uma criança tenha um celular ou um computador pessoal, em que ela tenha independência de uso.
Os pais me abordam durante as palestras e dizem que ficam pressionados a dar o celular porque todos os amiguinhos do filho têm e ele não quer que a sua criança se sinta mal, inferiorizada.
Então, é importante que os pais reflitam: ‘Está querendo dar o celular porque realmente há uma necessidade ou porque todos os outros têm?’
É preciso tomar cuidado com esse “todos” também. Na verdade, as pessoas usam muito essa palavra, sem fazer realmente uma investigação se são todos mesmo que têm.
As crianças são muito inteligentes e sabem lutar pelo que elas querem. Principalmente nas gerações mais atuais, em que a criança tem muito mais liberdade com os pais.
| Como assim liberdade?
Não há aquele espaço entre gerações. Antigamente, um pai era visto quase como uma eminência. Hoje, tem criança que manda dentro de casa, que resolve até o que vai comer, porque diz ao pai o que quer e o que não quer.
Se observar a minha geração, eu quando criança via meu pai quase que em um pedestal. A minha mãe era a pessoa que intermediava o contato com ele. Essa era uma característica geracional.
Hoje, uma coisa que me preocupa nos pais da geração atual é essa quebra total dos níveis de autoridade. Tem de ensinar que existe uma hierarquia dentro de casa, na vida, na sociedade. Quando, simplesmente elimina isso, pode ser bem ruim.
A geração que está criando os filhos hoje teve muito mais liberdade. Por isso, percebo que há uma tendência de que há um grande número de pais que, por terem tido bastante liberdade, lidam diferente com a questão da autoridade.
É uma mudança de eixo em relação a geração anterior de pais.
Acredito que foi uma grande surpresa para a nova geração de pais perceber que o fato de ter filhos acaba te polindo, de certa maneira.
Isso fez com que muitos pais, por não quererem abrir mão dessas benesses conquistadas, resolvem levar as crianças onde ela for. Mas é preciso pensar que não é todo lugar que se pode levar uma criança.
| Mas não é legal os pais quererem levar o filho?
O problema é que os pais não querem ficar com filhos, eles levam porque não têm como não levar. Pensam que talvez eles pudessem não ir já que pode ter risco para a criança.
A mesma coisa em relação ao celular. Então, se der um celular para uma criança de 10 anos usar do jeito que quiser, o pai colocará seu filho em risco.
| Além disso, será que a criança é acelerada por ela ter nascido nos anos de 2010 ou por causa de um contexto de que ela não tem ainda maturidade para digerir, enfrentar?
Esses aparelhos, a web, as novas tecnologias, são altamente atraentes, que até adulto acaba dependente. Imagine uma criança, que o cérebro está em formação?
Acho que vemos uma aceleração nas crianças porque elas estão hiper motivadas a entrar na web.
Alguns pais ficam sentidos em negar um desejo do filho. Como se manter firme?
É uma questão de foco. Os pais têm de parar e pensar: ‘Qual é o meu papel? O meu papel é de prover a felicidade do meu filho?
Sou o responsável pela felicidade do meu filho? Ou responsável por criar o cidadão que vai colaborar, contribuir com a sociedade e também com uma pessoa equilibrada emocionalmente?’
| Mas não pode ser as duas coisas?
É claro que pode, e deve, querer fazer o filho contente e feliz, mas nunca em detrimento ao seu objetivo maior que é a de formar um futuro adulto cidadão.
Esse exercício de dizer sim e não faz com que a criança entenda que ela não pode ter tudo que ela quer.
Então, quando um pai se sente mal porque não deu uma coisa que o filho quer, é porque se deixou levar pela a emoção do amor de pai e mãe, que realmente é um amor sem igual, mas com isso estará esquecendo que a melhor maneira de amar o filho é propiciar para ele a compreensão da vida.
Isso faz parte da educação e é um elemento fundamental em qualquer geração.
| Dizer o não dá trabalho. Tem sempre de oferecer alternativas?
Dá trabalho! Não existe possibilidade de educar bem sem ter trabalho. Educar bem dá trabalho! Implica em, pelo menos, 30 anos de trabalho. E se não fizer isso, vai ter 70 anos de trabalho.
Hoje vemos pessoas adultas, com uma profissão, mas que não sabem ouvir um não do chefe, que briga em todos os empregos, toda hora está saindo do trabalho para procurar outro.
Às vezes, acaba vivendo com o papai e com a mamãe sem se adaptar a lugar nenhum. Então, não é só uma questão de dizer não, é um projeto de vida em relação aos filhos.
| Depois dessas reflexões, qual seria então o melhor presente para o Dia das Crianças?
O melhor presente que os pais podem dar para seus filhos é ter clareza dos seus propósitos como pais. Esse é o presente ideal!
O Dia das Crianças não é só para comprar coisas, é também para fazer um balanço e pensar como está agindo como pai.
Está sendo uma pessoa coerente com o teu propósito? Ou está uma bagunça porque uma hora deixa e depois se arrepende?
É legal que os pais escolham o presente para seus filhos, ao invés de levarem na loja e deixar escolherem o que quiserem, se sentirem pressionados.
O presente pode ser uma forma de demonstrar carinho e um momento para uma lição importante, saber e ensinar que o que realmente é importante é como a gente age com nossos filhos.
Sobre Tania Zagury
Filósofa, mestre em Educação
– Autora com 38 livros publicados no Brasil e exterior e mais de 1.5 milhão de exemplares vendidos.
– Seu livro “Limites sem trauma”, uma das referências sobre a questão dos limites na criação dos filhos, chega a sua 100ª reimpressão com edição revista e atualizada para o mundo digital.
|
Texto Auxiliar:
Alinhamento Texto Auxiliar:
Link Externo:
Alinhar à esquerda: false
Alinhar à direita: false
Alinhar ao centro: true
Fullscreen:
Fullscreen Exit:
Conteúdo Sensível:
Estilo:
– Conferencista com mais de 5 mil palestras no currículo.
– Trabalhou na formação de professores no Rio de Janeiro.