Muitas crianças estão contando os dias para guardar os cadernos e curtir as férias em frente ao computador, com jogos virtuais, e ver repetidas vezes suas séries preferidas. Mas também já tem pai preocupado com o tempo em excesso que os filhos vão passar em frente às telas.
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Porém, esse assunto não precisa ser motivo de conflito em casa, de acordo com a psicóloga e orientadora parental Nanda Perim.
Recentemente, ela lançou um livro infantil com a temática das telas, que muito preocupa os pais, pois está na rotina das crianças.
A psicóloga diz que o problema pode ser resolvido com combinados e rotina, mesmo nas férias.
A Tribuna – Com a proximidade das férias os pais podem liberar o tempo de tela?
Nanda Perim – Quando falamos em liberar telas, sendo nas férias ou não, os pais precisam ter em mente que há um nível de exposição a altos níveis de dopamina e quais as consequências disso. Temos de lembrar, por exemplo, que depois que a criança acostuma com esses altos níveis, reacostumar com níveis basais baixos é muito mais difícil.
Ao liberar mais tela durante as férias, por exemplo, tem de lembrar que depois, necessariamente, terão de passar por um período de transição em que os pais vão ter que diminuir e isso vai deixar a criança mais sensível, chorosa. É uma decisão a se tomar ainda considerando a idade, a saúde emocional, a maturidade dessa criança.
Isso porque estamos em uma sociedade em que pais e mães não têm muita rede de apoio. Muitos fazem duas jornadas de trabalho, morando em bairros perigosos, em que as crianças não podem ficar brincando na rua. Então, eles recorrem às telas, para que as crianças fiquem em segurança, para conseguir trabalhar e pagar as coisas. Então, sempre digo, que é o mínimo de tela possível, dentro da dinâmica familiar e rede de apoio.
Quais são as suas dicas para as férias?
Minha dica é entender que férias não significa não ter rotina, “chutar o balde”. Férias não significa que essa criança deixou de demandar de nós cuidados, rotina, ritmo, rituais. Então, precisamos ter uma rotina de férias, e dentro dela, precisamos pegar um papel, uma cartolina, canetinha e fazer um quadro de rotinas para a criança ter onde consultar quanto tempo falta para o momento de telas.
Até pelo menos 8 anos, a criança não tem calendário, um relógio mental. Ela não sabe se são 2 horas da tarde ou 9 horas da manhã. Ela vai ficar perguntando para o adulto o tempo inteiro quanto tempo falta e isso vai causar um estresse muito grande dentro de casa.
É importante que a criança tenha horário, que seja avisada que está na hora de acabar e que haja esse acolhimento se for difícil para ela quando estiver acabando.
Tudo precisa ser combinado antes, quantos episódios, o jogo, o filme, porque a criança não tem maturidade de saber que estão faltando 10 minutos para o tempo de tela acabar e o episódio ainda tem 23 minutos. Os pais precisam ajudar a criança nessa administração ao invés de deixar a criança administrar sozinha, sem qualquer maturidade e depois dar bronca porque passou dez minutos da hora combinada.
Brincar é algo natural das crianças? Por que hoje muitas preferem as telas?
Brincar é um estado natural da criança. Ela é o brincar! Para a realidade delas, estar assistindo à tela é brincar. Para nós, brincar é movimento, exploração, aprendizado na prática. Enquanto, as telas são estáticas, hipnotizantes, absorvedoras.
Mas, as telas têm um convite muito grande à infância. Principalmente, porque a grande indústria de telas hoje sabe qual é o ritmo, as cores, os sons que mais atraem, que mais mergulham as crianças. Então, a criança é absorvida pelas telas com esse objetivo.
As telas liberam movimento rápido, ritmo, cores, sons que ajudam o corpo a ter o sistema de recompensa o tempo todo acionado, com a liberação da dopamina. O que faz ter uma liberação, acima do normal, de dopamina no corpo das crianças e dos adultos quando a gente consome telas. Se torna viciante porque, quando esse nível de dopamina cai, sentimos certa abstinência, e queremos mais.
O explorar a natureza, a cor do mundo, o rosto dos familiares, não libera tanta dopamina quanto a tela. Então, o que a gente precisa é que a criança não esteja acostumada com esses altos níveis de dopamina e por isso, temos de ter medidas de redução de telas.