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Desativado
Aos 5 anos de idade, o escritor Fabrício Carpinejar caiu em uma cova num cemitério e passou o dia inteiro lá. Ficou sem voz de tanto gritar por socorro.
A experiência foi um trauma em sua vida, que o conectou com o sofrimento das pessoas. “Eu me senti morto, entendi o que é não existir”, disse em entrevista ao AT2.
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Por ter sentido na pele “a morte”, ele se mostra a pessoa ideal para falar sobre o luto, ou melhor, sobre como aceitá-lo. E é o que faz em “Manual do Luto”, seu 51º livro.
Escrita como se fossem cartas íntimas para um enlutado, a obra é aquele abraço amigo que se recebe no velório de uma pessoa querida, um consolo na alma. Uma lição de empatia, já que falar de morte sempre foi um tabu na sociedade.
“É um tabu porque você sempre está vivendo na pressa do egoísmo e não exerce a empatia de ouvir o que o outro está passando. O livro existe com essa causa (risos), que as pessoas não tenham mais vergonha de poder falar a respeito disso. Que elas não comprem o livro apenas porque estão passando por um momento de dor, mas para entender todas as dores que estão ao redor delas”, ressaltou.
Logo nas primeiras páginas, Carpinejar avisa: “Viver é assustador”. No bate-papo com o At2, explicou o porquê: “Você nunca sabe o que pode acontecer. Você só tem o agora. Não faça de conta que você tem todo o tempo do mundo”.
Fabrício Carpinejar, escritor – “O luto é uma experiência, é uma cicatriz”
AT2 – Por que falar sobre o luto?
Carpinejar – Há uma invisibilidade dos enlutados, ele não são respeitados em sua perda, em sua saudade. É como se eles tivessem que voltar à normalidade, mas a normalidade nunca mais vai existir, porque você foi impactado pela perda. Você muda sua vida depois de uma perda. Você não tem mais um referencial do seu afeto, terá que remodelar a sua rotina, reagir diante daquela ausência.
Existe um desrespeito ao luto que eu tento combater no meu livro. São mentiras sociais a respeito da morte de um ente querido, de um amigo. Uma delas é que o luto tem data de validade. Não tem. O luto é para toda vida, você não tem como expulsar aquela dor, até porque aquela dor é o que ficou do morto, é saudade, não tem como mandar a saudade embora. Você vai continuar vivendo ajeitando aquela dor. Vai levar a dor para o trabalho, para o dia a dia, para o passeio, para a viagem.
A segunda mentira social é que com o tempo dói menos. Vai continuar doendo, não importa que tenha transcorrido um longo período do enterro e do velório. Toda perda é sempre recente, é sempre como se fosse ontem. É para sempre. O luto não é uma doença. Tratam como se fosse uma doença, como se você estivesse se recuperando.
O luto é uma experiência, é uma cicatriz, não sai, não sai da alma. Existe um condicionamento de que o luto é como se fosse um aborrecimento, uma mágoa. A vida é se despedir dia a dia, exite uma urgência que você só aprende após esses baques ao seu redor
Qual sua inspiração para escrever o livro?
Eu não quis falar de uma perda específica, porque senão eu não estaria falando de todas as perdas, estaria falando da minha. Eu não quis falar de uma morte pessoal, porque se você perde a mãe, você não vai falar do luto, você vai falar do luto de sua mãe. Eu quis um livro que fosse a respeito do luto, tanto que o subtítulo é “todas as dores do mundo”.
Eu falo como se fossem cartas, uma comunicação absolutamente íntima. Porque o que o enlutado mais quer é o reconhecimento do seu sentimento, para que ele não se sinta louco ou adoecido.
É um livro solidário, que abraça as pessoas em luto?
Totalmente. É um livro para elas. Qualquer um teve alguma perda na vida e se sentiu mexido por ela, se sentiu transformado por ela. O que a gente pode fazer é colocar a dor para trabalhar, já que teremos que dividir as despesas com ela.
Acredita que dá para fazer mesmo um manual para enfrentá-lo?
Eu não estou fazendo um breviário de como sair do luto, estou fazendo um manual de como aceitar o luto. Você vai sofrer mais por não poder expressar a sua dor. A dor represada é a que mais dói. Você não pode chorar em público, não pode mais ficar lembrando de quem não está mais presente, porque você passa a ser uma figura inoportuna, desagradável e chata.
Você passa a ser considerado mórbido, fúnebre, você perde os amigos, porque eles não suportam se você ainda se sentir recordando da partida. A rede de apoio ao enlutado é extremamente precária. Nós não temos paciência. Existe uma invisibilidade.
Qual foi o pior luto que já viveu? Existe um luto pior que o outro?
O pior luto que a pessoa pode viver é perder um filho. Você só tem medo de morrer quando nasce um filho. Quando você perde um filho, passa a ter medo de viver. Dentro de você o filho continua existindo, você passa a aniversariar a ausência. Dentro de você, você vai ficar imaginando o que a pessoa poderia estar fazendo. As roupas não crescem, as fantasias continuam amadurecendo.
Qual perda você mais teme em sua vida?
Não existe uma hierarquia na perda, ela se torna gritante pela proximidade, pelo envolvimento. Você pode perder um amigo e ele representar uma família inteira. Nós temos essa mania de querer catalogar as perdas por laços de sangue ou parentesco. Você sofre por tudo aquilo que foi vivido.
Quando morre alguém mais velho, depois de 80 anos, pensamos: ‘ah, mas viveu muito’. Como que se isso fosse reduzir a abrangência do luto. Pelo contrário, você pode até sofrer mais, porque você tem mais experiências partilhadas com a pessoa. A bagagem é maior. A culpa costuma entrar quando uma vida é abortada na sua juventude, no seu auge. Porque é como se você percebesse que não tem controle sobre a finitude. Nunca saberemos quando será a última vez.
Eu falo no livro dois lembretes importantíssimos. Todo ano a gente passa pela data da nossa morte sem perceber, aquela data que será um segundo aniversário, o aniversário da saudade para aqueles que ficarem a chorar nossa partida. Da mesma forma todo mundo já tem a sua foto de morto, a foto que será postada no anúncio fúnebre, que vai circular nas redes sociais. Esses dois lembretes advertem para a intensidade de se viver cada momento. Nunca adie, não protele, não faça de conta que você tem todo o tempo do mundo, você jamais saberá qual é o seu tempo.
Para você, qual a função da dor?
Eu acredito que a felicidade entra pela mesma porta que a tristeza, quem mais sofre na vida também será feliz como nunca, porque ambas partem da vulnerabilidade. A minha sensibilidade é para o bem e para o mal. E não abro mão disso. Infeliz é quem é indiferente.
Acredita que algumas pessoas abandonam os enlutados por um tempo?
Eu acredito que se a pessoa abandona você no luto é porque ela nunca esteve próxima de você. Você testa a amizade nos momentos mais agudos da existência.
Ainda é um tabu falar sobre a morte?
É, porque você sempre está vivendo na pressa do egoísmo e não exerce a empatia de ouvir o que o outro está passando.
Acredita que algum dia vai deixar de ser?
O livro existe com essa causa (risos), que as pessoas não tenham mais vergonha de poder falar a respeito disso. Que elas não comprem o livro apenas porque elas estão passando por um momento de dor, que elas comprem o livro para entender todas as dores que estão ao redor delas.
Por que viver é assustador, como diz em seu livro?
Você nunca sabe o que pode acontecer.
Se for parar para pensar, a pessoa fica louca, né?
A pessoa fica louca se ela desperdiça a sua vida achando que tem todo o tempo pela frente. Você só tem o agora, o presente. Você vive de ilusões, a ilusão da onipotência, do controle do destino, de tentar seguir seu planejamento à risca. Pessoas felizes são as que improvisam, as que sabem lidar com as adversidades e os contratempos. Você não pode depender da idealização, só gera frustração e ansiedade.
Serviço
“Manual do Luto”
Autor: Carpinejar
Editora: Bertrand Brasil
Páginas: 144
Preço: R$ 45,73
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