Dar fim às tristezas e medos gerados por traumas são, decerto, o grande desejo de quem convive com eles. Mas como? A também neuropsicóloga Roselene Espírito Santo Wagner acredita que uma saída é neutralizando-os com ações positivas.
A seguir, ela compartilha seus conhecimentos, após lidar com a morte do marido e, dois dias depois, a descoberta de um câncer.
A Tribuna – Neutralizar o medo com ações positivas, de fato, é um caminho para superar traumas?
Roselene Espírito Santo Wagner – É um caminho. Do ponto de vista da circuitaria neural (rede de neurônios), a gente cria caminhos sinápticos, criando memórias. E a memória de dor vai formando mapas mentais, indicação de caminhos. Só que a memória foi feita para ser esquecida, para ir armazenando novos dados.
Quando a gente quer esquecer, tem de lembrar, contar, se esvaziar do trauma para, aí então, começar a criar novos caminhos. Vamos identificando o medo, neutralizando e modificando a ação. A vida recompensa quem sai da inércia e tem ações positivas para consigo mesmo.
O que seriam essas ações positivas?
Sigmund Freud diz que o pensamento é o ensaio da ação. Tudo que existe nesse mundo um dia foi uma ideia. Você pensa, mentaliza e realiza. E a vida recompensa.
Tem coisas na vida que parecem destino, outras dependem do outro, das relações sociais. Mas tem uma parte que é simplesmente responsabilidade sua. É a auto responsabilidade: eu estou no lugar em que me coloco. Saio da posição de vítima e me retiro da inércia.
É preciso viver o luto primeiro, para depois partir para essa neutralização do medo?
Não se deve apressar as fases do luto nessa dinâmica da vida, em que tudo é vivido num instante. É preciso atravessar as fases do luto. Falo de uma morte concreta: depois do sepultamento, vai se fazer dia a dia o reinvestimento afetivo naquela relação que não existe mais.
Mas não se pode estacionar ali como um marco de paralisação: você lembra, chora a dor. É assim nas mortes abstratas: num divórcio.
Como perceber que está pronto para começar a neutralização?
Quando você começa a ter olhos para novas fontes de prazer. O que é a vida? É algo que existe num hiato de tempo entre o nascimento e a morte. É quando você consegue compreender esse lapso de tempo com momentos e que o olhar desperta para novos interesses, sejam românticos, sexuais, turísticos, familiares, ou por si só.
Isso acontece quando?
Um luto bem elaborado demora seis meses, a depender da pessoa e da perda dela. Quando o luto é patológico, o entorno tem que começar a observar e sinalizar: “Olha, você está precisando de ajuda profissional”.
Porque a pessoa deixa de estar deprimida para desenvolver a depressão, que é ausência de libido, de energia vital. E desperdiça a existência dela Outro sinal é também quando ela começa a se vitimizar muito.
É uma tática para todos?
Todos são capazes, mas uma parcela precisa de ajuda. O paciente tem respostas, mas não sabe fazer as perguntas. Por exemplo: qual o seu maior medo? Às vezes a pessoa demora a identificar.
Mas não é fácil na prática…
É simples, mas o simples não é sinônimo de fácil. É um desafio. Tem de ter resistência, persistência e perseverança. E ser resiliente.
Tem de querer, certo?
Tem de querer. Porque eu posso fazer tudo por você enquanto profissional, menos a sua parte.
Há traumas mais difíceis?
Histórias de abusos, principalmente os sexuais e os estupros.
O trabalho para sair da inércia e colocar em prática as ações positivas demora?
Em menos de 10 sessões não é possível construir novos caminhos para nada. É o tempo mínimo para elaboração de novas diretrizes.
Percebo nos consultórios, que quando você tem o dom das palavras, você organiza a mente. Uma mente organizada tem vida organizada.
Quando a boca cala, o corpo adoece. Quando a boca fala, o corpo sara, porque saiu do lugar da angústia. Tudo aquilo que sinto e não tem um nome para a dor, eu transformo em angústia e em sintoma. Quando eu consigo dizer, quando a gente começa a produzir através de palavras a expressão do que sentimos, deixamos de sentir angústia.
Como neutralizar os medos com ações positivas?
O primeiro passo é identificar o medo para modificar. Depois disso, me posiciono de forma diferente na vida.
Como tudo isso se cruza com a sua vida?
Eu era casada há mais de 30 anos com um homem maravilhoso. Dediquei os últimos seis anos aos cuidados dele. O prédio que ele periciava caiu, e ele junto, do quarto andar. Eu dava medicação, banho, fazia barba, tudo. Ele morreu no dia 19 de dezembro.
Dois dias depois da missa de sétimo dia eu passei a ter uma hemorragia intestinal. Fui para a emergência e saí de lá com o diagnóstico de câncer.
Eu negligenciei sintomas. Qual era meu maior medo? Perder a minha saúde e não ter condição de cuidar de quem eu mais amava. Eu não verbalizava. Então eu esqueci a minha saúde. Quando eu me dei conta disso, percebi que era hora de focar em mim.
Comecei a ter ações e pensamentos que me levassem a neutralizar o medo: vou recuperar minha saúde, vou viver antes de morrer. Vou utilizar o tempo a meu favor. Saí da inércia. E vou contar uma história de heroína.
PERFIL
Roselene Espírito Santo Wagner
- É mestre em psicanálise e psicopatologia pelo Instituto GAIO Ensino Superior. É mestre em psicanálise clínica lacaniana pela mesma instituição.
- É membro do Centro de Pesquisas e Análises Heráclito.
- Tem formação em Psicanálise Clínica pela Sociedade Brasileira de Psicanálise e é pós-graduada em Neuropsicologia pela Unesa- RJ.
- Atua também como Perita Judicial em Psicologia.