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Cidades

Capixabas buscam soluções para impactos do clima

Monitoramento de rios, córregos, florestas e oceanos, além de proteção de área de manguezal, são alguns projetos

Capixabas buscam soluções para impactos do clima
- Cayo Fontana mostra equipamento criado por ele para monitorar e informar a situação de córregos e rios
Foto de perfil de Francine Spinassé

Francine Spinassé

Graduada em Jornalismo pela Faculdade Estácio de Sá de Vitória, atua como repórter de A Tribuna desde 2008. Em 2011, passou a integrar a equipe responsável pelas reportagens especiais diárias do jornal, ao lado da jornalista Eliane Proscholdt.

Última atualização



O clima está mudando e os efeitos já podem ser sentidos na saúde, na produção de alimentos, nas cidades, no mar e na rotina da população.

Diante do cenário de eventos extremos cada vez mais desafiador, cientistas capixabas trabalham em pesquisas que buscam entender o que está acontecendo e encontrar soluções para reduzir impactos no futuro.

Um dos projetos que tem sido desenvolvido no Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) é uma ferramenta capaz de monitorar e informar, em tempo real, a situação de córregos e rios. O objetivo é que a tecnologia possa gerar alertas pelo celular a autoridades e comunidades sobre aumento súbito do nível dos rios.

O projeto Sistema Integrado de Monitoramento de Transbordos Hidrográficos (Simth) foi idealizado pelo professor de Computação no Ifes campus Guarapari Cayo Magno da Cruz Fontana.

Ele revelou que a tecnologia teve como principal motivação eventos que ocorreram no Sul capixaba.

Cayo explicou que o sistema já está funcionando em ambiente experimental. “Cada córrego poderá ter um ou vários pontos monitorados. Para cada ponto, há um equipamento de monitoramento – uma placa soldada, adequada em uma caixa com vedação dos fios – e um sensor”.

Segundo o professor, essa massa de dados gerada é importante para a realização de previsões futuras, aplicando algoritmos de aprendizagem de máquina e Inteligência Artificial.

Para sair do campo experimental, no entanto, o professor afirma que é preciso dialogar com prefeituras interessadas no projeto.

A professora do Departamento de Oceanografia e Ecologia e do Programa de Pós-Graduação em Oceanografia Ambiental da Ufes Kyssyanne Oliveira destacou que as mudanças climáticas já provocam alterações em várias partes do planeta.

Segundo ela, o aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera, principalmente dióxido de carbono e metano, tem elevado a temperatura e contribuído para a intensificação de eventos extremos.

Entre os impactos já observados, cita a perda de biodiversidade, aumento de perdas humanas relacionadas a eventos climáticos e alterações nos oceanos.

Ela ressalta a importância de pesquisas voltadas a identificar os mecanismos de influência das mudanças climáticas.

Aquecimento global

O professor do Ifes Cariacica Felipe Zamborlini Saiter participa de dois projetos de monitoramento de efeitos do aquecimento global.

Um deles é o PPBio Restinga, financiado pelo CNPq, que reúne instituições de diferentes Estados. No Espírito Santo, são monitoradas áreas no Parque Paulo César Vinha e na Reserva Biológica de Comboios. “Queremos compreender, dentre outras coisas, efeitos do aquecimento sobre a biodiversidade da restinga”.

O segundo, desenvolvido em parceria com o Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA) e financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes), cria uma rede de monitoramento florestal na região Centro-Serrana do Estado.

“O que já observamos em uma parcela – monitorada há 30 anos – é que, nesse período, tivemos um decréscimo de 2% no número de espécies de árvores”, destacou.



Estudo monitora oceano durante 10 anos



O mar do Espírito Santo está mais quente, e o aquecimento já começa a deixar marcas na biodiversidade marinha, que inclui peixes, recifes, algas e microrganismos.

A constatação faz parte dos primeiros resultados de um estudo realizado por cientistas da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), que monitora há uma década mudanças climáticas e os impactos no oceano.

O trabalho é feito em uma área de monitoramento permanente na região de Santa Cruz, em Aracruz, dentro da área de proteção ambiental Costa das Algas. Ele integra o Programa de Pesquisa Ecológica de Longa Duração, iniciativa do CNPq que conta, no Estado, com apoio da Fapes.

Coordenado pelo professor Angelo Bernardino, do Departamento de Oceanografia da Ufes, o projeto acompanha mensalmente a biodiversidade e as condições ambientais da região.

Segundo o professor, são coletadas amostras de organismos e de imagens dos recifes para acompanhar mudanças na composição de comunidades marinhas. “Uma questão importante para estudar mudança climática é ter sítios de longo prazo. Porque temos oscilações naturais do ambiente, mas precisamos perceber tendências de aquecimento que a gente quer entender”.

E os primeiros resultados já mostram sinais de alerta. Na análise dos dados coletados entre 2017 e 2022, foram identificadas 22 ondas de calor marinhas – quando a temperatura da água fica acima da média histórica.

Um terço desses eventos durou mais de 15 dias, e alguns com temperaturas mais de 4 graus acima da média.

“É como se fosse um estado febril. Assim como o corpo humano sofre com temperatura elevada, organismos marinhos também enfrentam dificuldades. Durante as ondas de calor, um terço das espécies da região desaparece, principalmente macroalgas. Algumas não conseguem se recuperar depois”.

Além disso, oceano mais quente retém menos oxigênio e a água fica mais acidificada. “Isso dificulta a formação de conchas e estruturas de carbonato por organismos como corais e espécies de plâncton”.

As mudanças também podem contribuir para o aumento do nível do mar e afetar ecossistemas fundamentais para a vida marinha. “Recifes e manguezais, por exemplo, servem de abrigo, alimentação e reprodução para espécies de interesse comercial. A degradação desses ambientes pode atingir atividades econômicas e comunidades que dependem do mar”.

Proteção de manguezais



O projeto Vozes dos Manguezais, desenvolvido pelo Laboratório de Oceanografia e Clima do Ifes Piúma com apoio da Fapes, tem buscado entender e proteger áreas de manguezal em Guarapari. A iniciativa surgiu a partir de demanda da comunidade e reúne pesquisadores, estudantes e moradores em ações de diagnóstico, educação, restauração e ampliação das áreas. A equipe monitora manguezais da foz dos rios Una e Perocão e da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Concha D’Ostra, com coleta e análise de amostras de água, solo e plantas.

Segundo o professor do Ifes Marlon França, além de serem importantes para reprodução e alimentação de espécies, manguezais têm papel no combate às mudanças no clima. “É capaz de armazenar grande quantidade de carbono no solo. Com a destruição dessas áreas, o carbono pode voltar para a atmosfera, contribuindo para o aquecimento”.

Relação entre o clima e a transmissão da dengue



Uma pesquisa de iniciação científica da Multivix Vila Velha vai investigar como fatores ambientais e sociais podem estar relacionados à ocorrência de dengue no município. O estudo pretende cruzar dados de testes rápidos da doença com informações sobre temperatura, chuvas, bairro, idade e sexo dos pacientes, além de indicadores de saneamento.

A professora do curso de Biomedicina Ariely Lírio de Sousa Lacerda, orientadora do projeto, revelou que a proposta é avaliar testes entre novembro e fevereiro, quando há maior circulação da dengue, e verificar se alterações no regime de chuvas e temperatura favorecem a proliferação do Aedes aegypti. “Os resultados podem ajudar a identificar regiões e grupos vulneráveis e direcionar ações de prevenção”.

O estudo, coorientado por Livia Pálmer Marine, tem entre as participantes Marya Luiza Borcate, Thallyta Dias da Silva e Ketlyn Araújo de Oliveira.

O que está acontecendo com o mundo?

1. Calor mais intenso

  • O aumento da temperatura média do planeta favorece ondas de calor mais frequentes, longas e intensas.
  • O calor extremo afeta principalmente idosos, crianças e pessoas que trabalham ao ar livre e pode aumentar casos de desidratação, problemas cardiovasculares e respiratórios.

Daqui para frente

  • Períodos de calor extremo podem se tornar mais frequentes, exigindo mudanças nas cidades, nos horários de trabalho e na forma de proteger a população.

2. Eventos extremos

  • O aquecimento do planeta também interfere no ciclo da água.
  • Em determinadas regiões, isso pode favorecer chuvas mais intensas em períodos curtos, aumentando o risco de alagamentos, enxurradas e deslizamentos.

Daqui para frente

  • Eventos de chuva extrema podem exigir sistemas de alerta mais eficientes e cidades preparadas para absorver volumes maiores de água.

3. Nível do oceano em alta

  • Os oceanos absorvem grande parte do calor adicional provocado pelo aquecimento global.
  • O aumento da temperatura altera ecossistemas marinhos, enquanto a elevação do nível do mar – causada pelo derretimento de geleiras e pela expansão térmica – aumenta a vulnerabilidade das áreas costeiras.

Daqui para frente

  • Cidades litorâneas poderão enfrentar mais erosão, inundações costeiras e impactos sobre pesca e turismo.

4. Comida e agricultura

  • Secas, calor excessivo, chuvas intensas e alterações no regime de chuvas podem prejudicar plantações e aumentar a dificuldade de produzir determinados alimentos.
  • Mudanças no clima também podem favorecer algumas pragas e doenças agrícolas.

Daqui para frente

  • Produtores deverão buscar variedades mais resistentes, novas técnicas de cultivo e formas mais eficientes de usar água.

5. Preço no supermercado

  • Os efeitos sobre a produção agrícola podem chegar diretamente ao bolso.
  • Quando uma seca, enchente ou onda de calor reduz uma safra, a menor oferta pode pressionar os preços dos alimentos.

Daqui para frente

  • Eventos extremos mais frequentes podem aumentar a instabilidade na produção e nos preços de determinados produtos.

6. Saúde afetada

  • O calor extremo pode agravar doenças cardiovasculares e respiratórias e aumentar o risco de desidratação.
  • Mudanças de temperatura e de chuva também podem alterar a distribuição de vetores e favorecer determinadas doenças infecciosas.

Daqui para frente

  • Sistemas de saúde precisarão se preparar para períodos de calor mais intenso e para possíveis mudanças no comportamento de doenças relacionadas ao clima.

7. Cidades mais vulneráveis

  • As áreas urbanas concentram população, concreto e asfalto, que retêm calor.
  • Quando somados a chuvas intensas, ocupação de áreas de risco e problemas de drenagem, os efeitos do clima extremo podem ser ainda maiores.

Daqui para frente

  • Cidades deverão investir em áreas verdes, drenagem, recuperação de florestas, áreas de restinga, rios e manguezais, planejamento urbano e outras formas de adaptação.

8. Infraestrutura ameaçada

  • O calor extremo aumenta a necessidade de refrigeração e pode elevar o consumo de eletricidade.
  • Tempestades, enchentes e deslizamentos também podem danificar estradas, pontes, redes elétricas e outros serviços.

Daqui para frente

  • Infraestrutura terá de ser projetada considerando um clima mais quente e eventos extremos mais severos.

9. Pesca ameaçada

  • O aquecimento dos oceanos pode alterar a distribuição e a abundância de espécies marinhas, afetando ecossistemas e comunidades que dependem da pesca.
  • Ondas de calor marinhas também podem provocar mudanças importantes na biodiversidade.

Daqui para frente

  • Pescadores e pesquisadores poderão precisar acompanhar cada vez mais as alterações no comportamento e na distribuição das espécies.

10. Turismo e litoral

  • Praias, manguezais, áreas naturais e outros ambientes costeiros são diretamente afetados pelas mudanças no oceano e por eventos extremos.
  • Além do impacto ambiental, isso pode atingir atividades econômicas ligadas ao turismo.

Daqui para frente

  • Destinos turísticos costeiros terão de se adaptar à erosão, ao calor, às alterações dos ecossistemas e a eventos extremos.

“A ciência pode nos preparar para o futuro”, diz Fábio Eon

Se os eventos climáticos extremos já fazem parte do presente, compreender o que está acontecendo é fundamental para evitar impactos ainda maiores no futuro. E essa resposta passa pela ciência.



Para o coordenador do Setor de Ciências da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) no Brasil, Fábio Eon, não existe uma resposta única para os impactos decorrentes das mudanças climáticas. É preciso unir pesquisa, educação e tecnologia, além de considerar as características de cada território. “A ciência é o que pode nos preparar melhor para o futuro”.

A Tribuna:  A Unesco trabalha com questões globais relacionadas às mudanças climáticas. Qual é a importância de desenvolver pesquisas também em nível local?

Fábio Eon:  É importante porque as mudanças climáticas são um fenômeno global, que afeta toda a humanidade.

Inclusive, nosso próprio futuro está em jogo em função do aceleramento dessas mudanças. Mas o impacto é diferenciado em cada localidade.

A Tribuna: É o que estamos vendo no Brasil?

Fábio Eon: Exatamente. Temos enfrentado eventos extremos muito discrepantes. Temos visto as chuvas no Rio Grande do Sul, enquanto que na Amazônia temos enfrentado seca.

Apesar de tudo estar interligado, precisamos de abordagens focadas no território, entendendo o impacto nas comunidades.

Temos que usar a ciência para combater o negacionismo e também para trazer soluções focadas nos problemas locais.

A Tribuna: Qual é o papel das instituições de ensino nesse processo?

Fábio Eon: Elas têm um papel fundamental. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) recomenda que 3% do PIB seja destinado à ciência, pesquisa e desenvolvimento. Infelizmente, isso está muito aquém da realidade.

Os países têm inúmeras prioridades ligadas à segurança pública, educação, questões fiscais, econômicas, e muito pouco hoje a gente investe em ciência e tecnologia.

Mas, ainda assim, as universidade ainda são as principais referências para desenvolver pesquisa, para combater as mudanças climáticas. E a gente torce para que o poder público tenha um olhar especial para esses equipamentos, que são detentores e propulsores de um conhecimento que pode nos ajudar a enfrentar essas mudanças climáticas.

A Tribuna: Quais os principais desafios para que essas pesquisas se tornem soluções práticas?

Fábio Eon: O grande desafio é investimento, em primeiro lugar, porque elas ainda recebem muito pouco. Outro problema é “casar” esse ciclo de pesquisa com o ciclo das mudanças climáticas. As mudanças são um fenômeno de longo prazo, que às vezes se manifestam ao longo de décadas.

Por isso a gente precisa ter continuidade de investimento e pesquisa nessa área também a longo prazo. Do contrário, é um esforço jogado fora.

A Tribuna: As mudanças climáticas estão no radar da Unesco?

Fábio Eon: Com certeza. Temos colegas na nossa sede, que fica em Paris, que trabalham exclusivamente esse tema. E a gente tem trabalhado essa questão de maneira transversal, como tem que ser. Porque não é uma abordagem única, não é uma resposta única para essa questão. É uma questão global, mas que afeta o território de maneira diferenciada.

E aí a gente tem que usar um arsenal de possibilidades que envolvem a ciência, a educação e a tecnologia.

A Tribuna: Um dos desafios apontados pelo senhor é o negacionismo. Como a ciência pode ajudar nesse enfrentamento?

Fábio Eon: O negacionismo científico ainda é frequente, infelizmente, apesar de a gente ter provas cabais de que realmente isso está acontecendo no dia a dia, com o aumento da temperatura e com o que está acontecendo aqui no Brasil.

Então, para combater o negacionismo, a gente tem que enfrentar com dados e evidências. Não tem como a gente trabalhar com “achismos”.

E por isso a ciência é tão importante: para mostrar, com dados e evidências empíricas, que isso está acontecendo, para ter esse poder de convencimento.

Bolsas garantem novas pesquisas

Por trás de cada pesquisa científica, há também pesquisadores que precisam de condições para estudar, desenvolver projetos e produzir conhecimento.

No Espírito Santo, a Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes) mantém atualmente 2.053 bolsas de pesquisa, extensão e inovação.



Segundo o diretor-geral da Fapes, Rodrigo Varejão Andreão, nos últimos quatro anos, foram contratadas mais de 9,6 mil bolsas e apoiados mais de 4,8 mil projetos, com impacto direto em 11,9 mil pesquisadores. “O investimento total no período soma R$ 448 milhões, entre recursos de capital, custeio e bolsas”.

Para ele, manter esse investimento de forma contínua é fundamental para garantir ao Estado competitividade científica e tecnológica, atrair novos talentos e assegurar que o conhecimento produzido se converta em soluções concretas.

“Cada projeto financiado forma pesquisadores, gera conhecimento aplicável e fortalece a capacidade científica do Estado a médio e longo prazo. Investir em pesquisa, portanto, não é custo, mas construção de capacidade”.

No caso do enfrentamento às mudanças climáticas, ele avalia que o papel da ciência é importante para compreender melhor os fenômenos climáticos, seus impactos sobre o território e, principalmente, para apontar soluções capazes de proteger a população e reduzir seus efeitos econômicos e sociais.

“Buscamos priorizar pesquisas que dialoguem com desafios concretos do Estado e que possam gerar conhecimento e soluções para questões que efetivamente impactam a vida dos capixabas, como os eventos climáticos extremos, a disponibilidade de água, a agricultura e a ocupação do território”.


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