Morreu nesta terça-feira (22), aos 95 anos, Zuenir Ventura, um dos maiores jornalistas do Brasil, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras. O autor de “1968 – O Ano que não Terminou” (Companhia das Letras) estava em sua casa, no Rio de Janeiro. A informação foi confirmada pela ABL.
Zuenir foi uma voz importante na defesa dos direitos humanos, transmitindo numa escrita límpida os resultados de seus esforços de repórter em temas prementes da sociedade brasileira ao longo dos anos.
Além do retrato da juventude dos anos 1960, momento de ebulição em todo o planeta e de combate à ditadura no Brasil, ele ajudou ainda a ampliar a compreensão sobre a exploração da Amazônia, com sua cobertura do caso Chico Mendes, nos anos 1980, e sobre as consequências do combate às drogas pela violência, com o livro “Cidade Partida” (Companhia das Letras), escrito após acompanhar a vida em Vigário Geral nos meses que se seguiram à chacina dos anos 1990 na comunidade carioca.
Zuenir Carlos Ventura nasceu em 1º de junho de 1931 em Além Paraíba, no sul de Minas Gerais, mas passou a infância na também mineira Ponte Nova, onde estudou num colégio religioso do qual sua mãe esperava que saísse padre.
Porém, tal qual Bentinho, personagem de Machado de Assis, a vocação, como dizia Zuenir, era da mãe e não dele. “Não tenho religião, nem digo que sou católico”, disse a esta repórter em entrevista quando de seus 90 anos, após tecer elogios ao papa Francisco.
Aos onze anos, mudou-se com a família para Nova Friburgo, onde passou a acompanhar o pai no ofício de pintor de paredes, foi contínuo em diferentes comércios, e jogou basquetebol. Bolsista numa escola particular, passou a dar aulas para os mais novos e então descobriu sua vocação de professor.
Mudou-se depois para o Rio de Janeiro em busca de um diploma do magistério e cursou letras neolatinas na atual UFRJ, curso que tinha entre seus professores Manuel Bandeira e Alceu Amoroso Lima.
Mestre Zu, como ficou conhecido entre seus ex-alunos e entre repórteres, acabou por formar uma legião de jornalistas, seja na universidade, seja nos diversos veículos de mídia em que atuou.
Começou no Tribuna da Imprensa, jornal de Carlos Lacerda, como arquivista, enquanto ainda cursava a faculdade. Passou por uma formação em jornalismo em Paris no começo dos anos 1960. Atuou, entre outros, no Correio da Manhã, n’O Cruzeiro, na Fatos e Fotos, na Visão, Veja, Isto É e no Jornal do Brasil. “Nunca tive medo de deixar um jornal e ficar desempregado. Quando ficava meio chateado, ia pra outro”, disse ele em sua contribuição à série “Depoimentos para Posteridade”, do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro.
Zuenir recebeu o reconhecimento por seu trabalho nas principais premiações do jornalismo. Ganhou os prêmios Esso e Vladimir Herzog em 1989 pela série de reportagens “O Acre de Chico Mendes”, publicada no Jornal do Brasil, e pegou o segundo lugar na categoria reportagem do Jabuti de 1995 com “Cidade Partida”. Em 2008, dividiu com Caco Barcellos, Henfil, José Hamilton Ribeiro e Ricardo Kotscho o Troféu Especial de Imprensa ONU, entregue àqueles que se destacaram na defesa dos direitos humanos na mídia.
Em 2005, ele lança “Minhas Histórias dos Outros” (Objetiva), mais tarde ampliado, no qual escreve sobre personalidades com as quais conviveu, como Glauber Rocha, Betinho e Carlos Drummond de Andrade, e narra sua relação com Genésio Ferreira da Silva, a testemunha do assassinato de Chico Mendes que ele conheceu no Acre e que acolheu em sua casa, no Rio, dos 13 aos 21 anos.
Ele também enveredou pela ficção, em “Sagrada Família” (Companhia das Letras), em 2012, no qual romanceia suas memórias de infância e adolescência com ares de Nelson Rodrigues.
Em 2015, tornou-se imortal, sendo recebido na Academia Brasileira de Letras na cadeira que havia sido de Ariano Suassuna.
“De fora há essa imagem de que é uma chatice, são 40 velhinhos que se reúnem toda semana para tomar chá, mas é muito divertido”, disse ele aos 90 anos, confinado em seu apartamento por causa da pandemia de Covid-19, sobre as reuniões da ABL, das quais dizia sentir falta. “É agradável e tem muito humor. Nós velhinhos temos muito humor”, completou.
Em 1962, quando estava na Tribuna, Zuenir conheceu a também jornalista Mary Akiersztein, com quem se casou e, a partir dali, viveu toda a vida. Em 1968, os dois foram presos e enviados ao Dops do Rio. Ali, ela ficou presa por um mês e ele, por três, em parte com os escritores Ziraldo e Hélio Pellegrino.
“Eu e o Hélio jogávamos basquete na prisão durante os 15 minutos de banho de sol. Numa confusão do Hélio com o time de basquete dos militares, acabamos transferidos e isolados por desacato à autoridade”, contou Zuenir sobre esse período na cadeia no testemunho dado ao MIS, em 2011. À ocasião, ele também disse: “Tenho qualidades e defeitos, e uma coisa que hoje está fora de moda chamada otimismo. Espero que quando eu morrer o otimismo esteja na moda”.
Onze anos depois, em maio de 2022, a tendência ainda não voltara à voga e, em entrevista ao jornal O Globo, onde havia sido colunista, ele contou que fazia uma pausa na escrita: “Seja no Brasil, seja lá fora, só tem notícia ruim. Não dá para escrever sem vontade”.
O otimista Zuenir deixa a mulher, Mary, dois filhos, Elisa e Mauro, e dois netos, Alice e Eric.