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Cidades

Arte e cultura com a tradição das rendeiras

Herança da cultura portuguesa, a renda de bilro se consolidou em diferentes pontos do Espírito Santo, como Barra do Jucu e Meaípe

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Pedro Henrique Oliveira

Pedro Henrique Oliveira é jornalista formado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (UNIFACHA), no Rio de Janeiro, e pós-graduando em Comunicação Corporativa. Com experiência em cobertura local, acompanha o cotidiano de Guarapari, Anchieta e Piúma, produzindo matérias sobre política, economia, turismo e cultura.

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Na calçada de uma loja de artesanato próxima à praia de Meaípe, em Guarapari, um grupo se reúne todas as terças e quintas-feiras para manter viva uma tradição da comunidade: a renda de bilro.

Herança da cultura portuguesa, a arte se consolidou em diferentes pontos do Espírito Santo, especialmente na Barra do Jucu, em Vila Velha, e em Meaípe, na região sul de Guarapari.

No balneário, duas mestras ainda se dedicam a preservar a tradição: as aposentadas Idralmira Bourguignon, conhecida como Gralma, de 78 anos, e Dilma Sant’Ana, de 77.

O movimento ganhou força com a ajuda da artesã Cristina Andrade, de 62 anos, dona da loja de artesanato que disponibiliza o espaço para o curso gratuito.

Natural de São Paulo, ela se mudou para Guarapari com o marido, Luiz Carlos Papassoni, após a aposentadoria e, até então, nunca havia tido contato com a renda de bilro.

Ao conhecer o trabalho das rendeiras, Cristina se encantou e decidiu ajudar na divulgação e na venda das peças produzidas pelas mestras.

Juntas, conseguiram financiamento por meio de um edital de cultura para a compra de materiais. Como contrapartida, passaram a visitar escolas para apresentar aos estudantes o trabalho e a tradição das rendeiras.

Além das atividades com os estudantes e da participação em feiras de artesanato, a iniciativa também deu origem a um projeto de lei, aprovado este ano, que estabeleceu 20 de fevereiro como o Dia Municipal das Rendeiras de Bilro de Meaípe.

“O próximo passo é fazer com que a renda seja considerada patrimônio imaterial da cidade. Hoje, identificamos outras 12 rendeiras na região para que ajudem a preservar essa tradição”, afirmou Cristina.

A renda de bilro é produzida por meio do cruzamento sucessivo de fios sobre uma almofada especialmente preparada para o trabalho. A técnica permite a criação de diferentes tipos de peças, que vão de roupas e acessórios a artigos para cama e mesa.

Segundo as mestras rendeiras, a atividade faz parte de uma tradição que, no passado, estava presente em praticamente todas as casas do município, onde havia pelo menos uma mulher dedicada à produção. O trabalho também servia como alternativa de geração de renda nos períodos em que os maridos, muitos deles pescadores, saíam para o mar.

Herança que vem de família

Cada uma das mestras rendeiras de Meaípe tem uma história diferente com a renda. Dona Dilma Sant’Ana contou que, ainda criança, mexia escondida na almofada que a mãe usava para trabalhar.

“Toda vez que ela sentava para fazer renda, eu observava e ia aprendendo. Quando ela saía, eu mexia e acabava bagunçando tudo. Aos poucos, aprendi como se fazia”, relembrou.

O contato com a arte, no entanto, ficou interrompido durante alguns anos. Foi apenas por volta dos 30 anos que ela retomou o aprendizado e não parou mais.

“É uma tradição que vem da família. Minha mãe e minha irmã eram rendeiras, depois as sobrinhas, e o meu pai era pescador”.

Já dona Idralmira Bourguignon foi levada pela curiosidade. Aos 9 anos, em uma época em que as possibilidades de aprendizado eram mais restritas à escola, encontrou na renda uma nova atividade.

“Tínhamos que aprender o que era comum aqui. Havia outras meninas que se juntavam para aprender também e, desde então, nunca mais larguei a minha almofada, mesmo quando trabalhei fora”.

Durante anos, a renda ficou como um hobby e também como uma forma de produzir peças para presentear amigos e familiares.

“Eu gosto de fazer renda, enfeitava as roupas da minha filha e presenteava também. É uma coisa que eu gosto de fazer desde os meus 9 anos”, disse.

Novas mãos para os bilros

Embora a tradição tenha atravessado décadas, encontrar novas pessoas interessadas em aprender a técnica ainda é um desafio.

A gaúcha Tuléia Lajús, de 75 anos, e o estudante Pedro Vaz Tonon, de 17, estão entre os alunos que ajudam a renovar essa história.

Eles frequentam duas vezes por semana as aulas gratuitas oferecidas pelas mestras, aprendendo os movimentos, desenhos e segredos de uma arte que exige paciência e precisão.

“Eu sempre gostei de aprender coisas novas, de ter uma ocupação. Como sou aposentada, aproveito o tempo para aprender renda, crochê, entre outras coisas. Sou aluna fixa e já até consegui vender uma peça aqui. Faço bastante coisa e guardo para dar de presente”, afirmou Tuléia.

Bisneto do fundador de uma banda de Congo da região, o jovem Pedro Tonon descobriu as aulas de renda há pouco mais de um mês, depois de visitar a loja de artesanato durante um ensaio da banda São Sebastião, que também é realizado no local.

“O aprendizado tem sido um desafio, mas gosto de ficar aqui, conversar e conhecer histórias da região. Além disso, também gosto muito de trabalhos manuais e de aprender coisas novas. Inclusive, faço macramê”, contou.

Curiosidades

Renda de bilro surgiu na Europa

A renda de bilro surgiu na Europa e chegou ao Brasil trazida pelos portugueses, espalhando-se principalmente por comunidades litorâneas.

Embora tradicionalmente associada às mulheres, a produção de renda de bilro também foi realizada por homens em diferentes regiões do País.

Há registros da prática em municípios como Conceição da Barra, São Mateus, Colatina e Guarapari.

Na Barra do Jucu, em Vila Velha, o ofício é registrado desde o início do século 20. Algumas das rendeiras que mantiveram essa tradição ao longo da vida ainda estão vivas.

Mulheres e filhas de pescadores produziam as rendas enquanto os homens estavam no mar. A atividade ajudava a complementar a renda de famílias numerosas.

Apesar da perda de espaço para produtos industrializados, a técnica continua sendo transmitida entre gerações por meio de mestras que ensinam novos aprendizes.



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