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Cidades

Esforço mundial para criar estratégias que tirem adolescentes do isolamento

Governos, escolas e especialistas de todo o mundo têm buscado medidas para estimular a convivência presencial entre os mais jovens

Foto de perfil de Beatriz Brandão

Beatriz Brandão

Beatriz Brandão é estudante de jornalismo na Universidade Federal do Espírito Santo e é repórter multimídia no jornal A Tribuna. Tem experiência em assessoria de imprensa, rádio e jornalismo digital.

Última atualização

Diante do avanço da solidão entre crianças e adolescentes, governos, escolas e especialistas de todo o mundo têm buscado medidas para estimular a convivência presencial e reduzir o isolamento entre os mais jovens.

O relatório da Comissão de Conexão Social da Organização Mundial de Saúde (OMS), de 2025, revelou que 20,9% dos adolescentes de 13 a 17 anos relatam solidão, o equivalente a cerca de um em cada cinco jovens dessa faixa etária.

A psicóloga Kamila Vilela explica que, na adolescência, a vulnerabilidade à solidão aumenta porque há uma necessidade maior de pertencimento.

“Na infância, a família supre quase toda a vida social da criança. Mas com o passar dos anos, ela começa a buscar conexão em outros adolescentes”.



Porém, nos tempos atuais, essa busca acontece em meio a uma rotina muito mediada por telas, o que dificulta a construção de vínculos presenciais.

“É uma geração hiperconectada, mas sem conexão real. Os adolescentes estão sempre nas telas, mas têm dificuldade para conversar olhando nos olhos. Por isso é importante estimular atividades em conjunto, como os jogos de tabuleiro ou outros esportes”, diz Kamila.

Diante disso, há um esforço mundial para reverter essa realidade. O Japão, por exemplo, aprovou uma lei inédita em 2024 para enfrentar a solidão e o isolamento, com ações articuladas entre governo, municípios e organizações sociais.

A legislação prevê a criação de estruturas locais de apoio, além de medidas para identificar pessoas em situação de vulnerabilidade e ampliar as oportunidades de conexão.

Já na Inglaterra, o sistema público de saúde utiliza a chamada “prescrição social”, em que pessoas em situação de solidão podem ser encaminhadas para atividades como caminhadas e até voluntariado.

Essas ações também são importantes porque parte da identidade dos adolescentes é construída pela socialização, segundo a psicóloga e mestre em Psicologia Clarisse Timbó.

“Uma boa parte da crença que temos sobre nós mesmos está relacionada às relações que temos, aos grupos de que fazemos parte e aos ambientes aos quais pertencemos”.

E é importante que os responsáveis mantenham a atenção para sinais de alerta do isolamento, de acordo com a psicóloga Silvia Missi.

“Quando o adolescente evita uma festa porque acha que não vai saber o que falar, ele sente um alívio. Mas esse alívio reforça para o cérebro a ideia de que é melhor não ir, e a próxima situação ser ainda mais difícil”.

Interesse facilita aproximação

Mais do que incentivar o hábito da leitura, o clube “Leitoras de Coragem”, que promove encontros presenciais, se tornou um espaço de troca e amizades também entre jovens.



As estudantes e amigas Bruna Tavares, 17 anos, Mariana Dell’Antonio, 17, e Sofia Esperanza, 18, contam que a experiência ajuda a conhecer novas pessoas e a se sentir mais à vontade para conversar.

“Desde que comecei a frequentar, me sinto mais confortável para entrar em debates”, conta Bruna.

Mariana diz que o interesse em comum facilita a aproximação. “A literatura é uma espécie de porta de entrada para as conversas”.

Para Sofia, o que mais fica são as experiências vividas presencialmente. “Acho que algo que acontece pelo celular não tende a marcar tanto”.

Ações em outros países 

Japão

Em abril de 2024, entrou em vigor a primeira lei abrangente do mundo para tratar especificamente sobre o tema, a Lei de Promoção de Medidas contra a Solidão e o Isolamento.

O governo prevê a criação de conselhos regionais para rastrear e localizar jovens isolados, agindo de forma preventiva em vez de esperar que eles peçam ajuda médica.

Inglaterra 

O sistema público de saúde inglês, o National Health Service (NHS), utiliza a chamada “prescrição social”, estratégia que conecta pacientes a atividades, grupos e serviços.

Pessoas que enfrentam solidão ou isolamento podem ser encaminhadas a profissionais especializados, que indicam iniciativas como grupos de caminhada, atividades artísticas, esportes, jardinagem e voluntariado, de acordo com suas necessidades.

China

Em julho de 2026, entraram em vigor novas regras para serviços de Inteligência Artificial (IA) que simulam interações humanas e afetivas.

A norma proíbe que menores de idade tenham acesso a serviços de “companheiros virtuais” e outras relações íntimas simuladas por IA.

As empresas também devem adotar mecanismos para evitar dependência emocional e impedir que esses serviços prejudiquem as relações interpessoais no mundo real.

Alemanha

O governo mantém uma estratégia nacional de combate à solidão, com ações para ampliar espaços de encontro e participação social.

Entre as iniciativas está o apoio a projetos em clubes esportivos, utilizando a prática coletiva como forma de aproximar pessoas e reduzir o isolamento.

Dinamarca

Bibliotecas públicas de Aarhus, Albertslund e Roskilde passaram a oferecer acesso gratuito à Human Library, projeto criado em Copenhague que permite “pegar emprestada” uma pessoa para uma conversa ao vivo.

Os voluntários compartilham experiências sobre temas como identidade, deficiência, religião e saúde mental, com o objetivo de estimular diálogo, empatia e contato entre pessoas de diferentes realidades.



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