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Onde o afeto deu lugar ao vazio: os órfãos do feminicídio neste Dia das Mães

Atrás de cada estatística de violência doméstica, há uma casa que silenciou. Em 2025, ao menos 1,6 mil crianças perderam o colo materno

Onde o afeto deu lugar ao vazio: os órfãos do feminicídio neste Dia das Mães
- Para especialistas em segurança pública, a morte dessas mulheres é o desfecho de agressões que poderiam ter sido interrompidas
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Aline Moura

Aline Moura é formada pela UFPE, trabalhou como repórter de Política, Editora Assistente de Produção de Política e repórter especial do Diario de Pernambuco, num período de 15 anos, onde atuou em todas as áreas, exceto esportes. Também teve experiência de quatro anos como gerente de comunicação da Secretaria do Trabalho, Emprego e Qualificação de Pernambuco e voltou ao jornalismo para integrar a equipe do Portal da Tribuna Online como repórter.

Última atualização


Neste domingo de Dia das Mães, o movimento nas casas é de flores e abraços. Mas em pelo menos 1.653 lares brasileiros, o despertar é o avesso da festa. Onde deveria haver o café na cama e o riso dos filhos, sobrou a poeira sobre os móveis e uma ausência que o tempo não cicatriza. Dados do Instituto Banco Vermelho revelam que, em 2025, o feminicídio não apenas interrompeu vidas femininas; ele redesenhou, à força, o destino de crianças e adolescentes que agora conhecem o mundo através da perda.

Em Pernambuco, a estatística ganha rostos e nomes. Só até março deste ano, 18 mulheres foram retiradas de cena. A maioria delas era o alicerce de suas casas. No ano passado, 88 foram mortas por ex ou companheiros. Algumas, na frente dos filhos.

O rastro da casa vazia

A cena da violência doméstica é quase sempre uma sucessão de objetos interrompidos. Um prato que ficou sobre a mesa, um brinquedo no canto da sala, um quarto que mantém o cheiro de um perfume que não será mais usado. Para os filhos que ficam, o feminicídio é o fim súbito da infância. É o momento em que a casa, lugar de proteção, torna-se o cenário do trauma.

Especialistas e o Instituto Banco Vermelho alertam: essas mortes são o ponto final de frases que começaram muito antes. São tragédias anunciadas em tons de controle, ameaças e portas fechadas. O impacto nos órfãos é uma herança de dor que exige do Estado um amparo que, muitas vezes, chega tarde demais.

A falha que rompeu o cadeado

Há casos em que a ausência tem um custo jurídico, mas nunca um preço que a compense. Em Serra Talhada, no Sertão, o destino de dois irmãos foi selado por uma falha de segurança. Em agosto de 2018, um homem fugiu da cadeia pública para executar a ex-companheira. Ele estava preso justamente por violência doméstica desde maio, mas a custódia do Estado falhou.

Oito anos depois, a Justiça de Pernambuco condenou o Estado a pagar R$ 300 mil aos filhos da vítima. A decisão, confirmada pela 1ª Câmara do TJPE, sublinha que quando o Estado permite a fuga de quem já era um risco, ele se torna cúmplice do vazio. O valor financeiro ajuda a garantir o pão e os livros, mas não devolve o direito de os filhos crescerem sob a sombra protetora da mãe.

O dossiê de Priscila: um grito no pen drive

Em Jaboatão dos Guararapes, a técnica de enfermagem Priscila Carla Pimentel, de 32 anos, tentou escrever um final diferente para sua história no ano passado. Ela não foi à polícia de mãos vazias; levava consigo um dossiê. Dentro de um pequeno pen drive, Priscila guardou as provas de 17 anos de medo: áudios de ameaças e o registro do terror que invadia sua casa em Cajueiro Seco.

O sonho de Priscila era o jaleco branco, o primeiro emprego na saúde que começaria em janeiro. No entanto, em dezembro passado, o ciclo de facadas interrompeu o projeto diante de dois de seus seis filhos. O agressor foi preso, mas o pen drive de Priscila permanece como um monumento ao socorro que não veio a tempo. Seus filhos agora crescem com o registro de uma mãe que lutou para ficar, mas foi vencida pela omissão.

O caminho da prevenção

O feminicídio é um crime com ensaios. O Instituto Banco Vermelho reforça que a prevenção é o único caminho para que o Dia das Mães não seja, para tantos, uma data de luto. A identificação de sinais de controle e o apoio de redes de proteção são as ferramentas para evitar que novas crianças percam sua referência de mundo.

Precisa de ajuda?

Ligue 180: Orientações e acolhimento 24h. WhatsApp: (61) 9610-0180.

Ligue 190: Para situações de perigo imediato.

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