Uma comitiva de lideranças da Aldeia Pankará Serrote dos Campos, localizada em Itacuruba, no Sertão de Pernambuco, formalizou um passo histórico na última quinta-feira (18) ao visitar a associação de pacientes Aliança Medicinal, em Olinda. O encontro marcou a consolidação da Acarapuá (Associação Indígena de Medicina Ancestral para Cannabis Medicinal e Cânhamo Industrial), considerada a primeira iniciativa de povos originários do país voltada para a produção de medicamentos à base de Cannabis sativa.
Conduzida pelo diretor-executivo da instituição, Ricardo Hazin Asfora, e pela presidente Hélida Lacerda, a agenda integra as ações de estruturação da nova entidade, que já possui estatuto e CNPJ definidos, e agora conta com assessoria jurídica para obter a autorização de plantio junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Apoio e capacitação
A iniciativa é fruto de um projeto do Centro de Prevenção às Dependências (CPD), viabilizado por meio de uma emenda parlamentar do deputado estadual João Paulo (PT-PE), presidente da Comissão da Cannabis Medicinal da Assembleia Legislativa de Pernambuco. Segundo a coordenadora do CPD, Ana Glória Melcop, a criação da associação atua também como uma forma de reparação histórica, dado o passado de perseguição aos povos indígenas e africanos que introduziram o uso medicinal da planta no Brasil. A parceria com a Aliança Medicinal visa capacitar o povo Pankará para que o cultivo atenda rigorosamente às exigências de qualidade e segurança da agência reguladora, unindo as técnicas contemporâneas ao vasto conhecimento ancestral da comunidade.
Como parte desse processo de formação, o grupo de líderes e agrônomos da aldeia cumpriu uma intensa agenda de capacitação na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no Recife. Sob a orientação da professora Larissa Rolim, do Departamento de Farmácia, os participantes tiveram contato com laboratórios, vidrarias e equipamentos avançados de pesquisa. As aulas abordaram desde a composição química e o potencial terapêutico da cannabis até boas práticas de fabricação para a extração de óleos medicinais.
Resgate histórico de tratamentos a base de plantas
O aprendizado técnico foi celebrado pelo pajé Geraldo Leal, que relatou o resgate histórico da prática, outrora abandonada na aldeia devido ao medo gerado pela proibição da planta, o que inviabilizou até mesmo o uso tradicional de suas raízes para o tratamento de dores.
O avanço do projeto abre caminho para novos desdobramentos de cooperação no estado. Durante a visita técnica, Ricardo Hazin Asfora, que desenvolveu o sistema de cultivo hidropônico climatizado da Aliança Medicinal, antecipou que o próximo passo da parceria com a Acarapuá será focado na capacitação de médicos prescritores.
O objetivo é formar profissionais de saúde para atender diretamente à população do território indígena no sertão pernambucano, garantindo acesso democratizado aos tratamentos. Ao fim do encontro, Hélida Lacerda exaltou a sabedoria dos antepassados Pankará, reforçando que a consolidação da nova associação representa um direito legítimo construído por meio da união entre a ciência moderna e os saberes tradicionais.