A Medicina avança a cada dia e os tratamentos de ponta disponíveis nos dias atuais certamente nem existirão ou estarão ultrapassados daqui a 10 anos.
Considerando a tecnologia já existente, é possível afirmar que os bebês que nasceram ou nascerão em 2019 chegarão aos 100 anos com maior facilidade do que os seus pais. Quem garante é o presidente do Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo, Celso Murad.
O médico falou sobre os principais marcos da medicina deste século, a importância da prevenção às doenças crônicas e o aprimoramento das técnicas existentes, além das discussões sobre os direitos do paciente.
Celso Murad
Pediatra, formou-se pela Ufes, em 1966.
É o atual presidente do CRM-ES, mas já presidiu a entidade entre 1988 e 1990; o Sindicato dos Médicos (1980-1981); a Associação Médica (1981-1985); e ainda a Sociedade Espiritossantense de Pediatria (1973-1976).
Foi vice-corregedor do CFM e atualmente é conselheiro federal de Medicina.
A TRIBUNA: Na sua opinião, qual é o marco mais significativo da medicina deste século?
CELSO MURAD: Temos duas formas de encarar os marcos. A primeira é a medicina como arte e a segunda como ciência. Como arte, é aquela medicina de cuidados da pessoa e como ciência é aplicada nas técnicas de tratamento e prevenção às enfermidades.
Na arte de cuidar, o grande mérito é o aprimoramento das discussões sobre os direitos do paciente. Como ciência, as novas corporações e arsenais terapêuticos garantem uma melhor qualidade no tratamento, com menor risco de complicações, melhor tolerância física aos procedimentos e rapidez na solução dos problemas.
A TRIBUNA: Antes o paciente não fazia ideia do tratamento que recebia, não era orientado. O que mudou?
CELSO MURAD: Ele agora tem o poder de decidir sobre aquilo que vai ser executado na saúde dele, ser esclarecido sobre os riscos e possibilidade de sucesso e insucesso do tratamento.
Ele tem as suas vontades respeitadas, principalmente no que a gente chama de decidir como ele quer que seja a passagem dele’ no caso do insucesso no tratamento.
Os pacientes já não são submetidos a tratamentos sacrificantes desnecessariamente e nem ao prorrogamento artificial das suas funções vitais.
Há um respeito a ele acima de tudo. Já existem programas de segurança do paciente para prevenir acidentes e latrogenias, evitar erros de medicação e conduta, e isso é um grande avanço.
“Crianças que nascem hoje chegarão aos 100 anos facilmente. Mas não
sei avaliar se isso é bom ou ruim”
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No futuro, esses materiais de grande resistência serão produzidos ainda menores que os atuais e com mais eficácia, por meio da inteligência artificial: impressoras 3D serão capazes de reproduzir órgãos utilizando tecidos humanos como matriz e, através dele, desenvolver órgãos que não serão rejeitados em um transplante.
A TRIBUNA: Será possível substituir genes doentes por saudáveis?
CELSO MURAD: Com certeza. Já existe uma tecnologia que faz a edição dos cromossomos para corrigir imperfeições, então o recém-nascido nasce sadio.
Também é possível fazer o enriquecimento genético nas pessoas e transplantar genes com características específicas de inteligência, de competitividade, tudo através de enriquecimento genético.
Mas isso vai gerar uma discussão ética enorme, porque esse tipo de procedimento não pode ter efeito estético.
“No futuro, impressoras 3D serão capazes de reproduzir órgãos utilizando tecidos humanos como matriz”
A TRIBUNA: A telemedicina levará saúde a todos?
CELSO MURAD: A telemedicina é uma ferramenta útil para dar assistência à distância, mas o paciente não pode ser tratado à distância e é isso que as pessoas não entendem.
Ela permite que os médicos que atendem os pacientes nos centros mais afastados se orientem com especialistas, que vão auxiliá-los na melhor forma de resolver aquele problema.
A TRIBUNA: A saúde de qualidade chegará, de fato, a todas camadas sociais?
CELSO MURAD: Precisamos de uma assistência inclusivista, ou seja, que todo esse progresso seja disponibilizado para todas as camadas sociais. Não podemos mais permitir que exista uma medicina de qualidade aplicada apenas a um grupo social, e a de baixa qualidade aos menos favorecidos.
É um vício que precisa ser corrigido. Em 30 anos de existência, o Sistema Único de Saúde (SUS) não conseguiu cumprir a sua filosofia, que é de atenção igualitária. Apesar de excelente, é um projeto que não deu certo pois não é um fator de inclusão social, infelizmente.
A TRIBUNA: O futuro é a prevenção?
CELSO MURAD: Teremos cada vez mais tecnologia para tratar, mas precisamos prevenir principalmente as doenças crônico-degenerativas.
O grande problema da falta de vagas nos hospitais é que as pessoas estão adoecendo cada vez mais cedo porque não há uma prevenção correta a doenças, como diabetes e hipertensão, por exemplo.
A TRIBUNA: Como será a medicina do futuro?
CELSO MURAD:Ninguém sabe. O estudante de Medicina de hoje terá que se atualizar o tempo inteiro, porque daqui a 20 anos a profissão de médico será outra, já que precisamos progredir junto com a tecnologia.
Antes o conhecimento durava mais tempo e isso acabou, a produção científica cresce rapidamente. Vai ser instigante acompanhar isso, porque a humanidade está em evolução rápida e vai acontecer muita coisa fenomenal.
As próprias crianças já estão sendo estudadas porque apresentam características físicas diferentes do que antigamente. As que nascem hoje, vivendo em um mundo melhor, chegarão aos 100 anos facilmente. Mas não sei avaliar se isso é bom ou ruim.
“Antes o conhecimento durava mais tempo e isso acabou, a produção científica cresce rapidamente”