Em tempos de isolamento, expor os sentimentos pode ser visto como algo negativo. Porém, aprender a lidar com as emoções e identificá-las, segundo a psicóloga Pamela Seligmann, pode ajudar a atravessar o momento de pandemia e melhorar as relações pessoais.
“Acontece que, muitas vezes, reprimimos nossos sentimentos porque somos analfabetos emocionais. Não conseguimos nomear o que estamos sentindo. Não fomos ensinados a expor nossos sentimentos”, completou.
Pamela também ressaltou que durante o isolamento é importante as pessoas saberem identificar as suas necessidades.
A TRIBUNA – Como manter a saúde emocional diante do momento pelo qual estamos passando?
Pamela Seligmann – Nossas emoções não estão desconectadas do pensamento, das crenças ou da percepção do ambiente. Temos um ambiente onde acontecem os fenômenos e temos uma elaboração desses fenômenos, de acordo com nosso repertório interno. As emoções trazem respostas rápidas a esse entorno. E conforme processamos essas emoções, estaremos em um estágio de mais ou menos saúde.
Há várias maneiras de construirmos uma boa saúde emocional. Pode-se fazer um trabalho terapêutico, de autoconhecimento. Precisamos nos conhecer, porque cada um de nós tem disparadores que podem nos levar a ter maior ou menor equilíbrio.
Como avalia as emoções das pessoas nesse período?
Nesse estado de quarentena, tenho atendido pessoas que estão tendo ansiedade e pânico, e outras com muito medo do futuro.
Com isso, vemos que as pessoas que têm pouco trabalho de autoconhecimento são as primeiras que podem ter um desequilíbrio maior, porque depositam muita expectativa no externo. O que tenho frisado muito é que a gente precisa focar naquilo que podemos controlar.
Não podemos controlar quanto tempo durará a pandemia, a quarentena, por onde anda o vírus ou as medidas que o governo toma. Mas podemos controlar as medidas de higiene, a nossa exposição externa, aquilo que está ao nosso alcance.
Com o isolamento tem sido mais difícil expor nossos sentimentos?
Acredito que nossos sentimentos estão mais desafiados. É como se mexêssemos nele com vara curta. Estamos com muitas necessidades não atendidas, como autonomia, liberdade, segurança e confiança no futuro, por exemplo. Não sabemos o que vai acontecer.
Quando temos necessidades não atendidas, nossas emoções ficam à flor da pele. Tem gente que está tendo de fazer seu trabalho dentro de casa, cuidar dos pais, das aulas dos filhos e ainda há as tarefas da casa. E com isso, essa pessoa tem necessidade de descanso.
Se formos somar, veremos que o coronavírus causou uma revolução na vida das pessoas, e com isso estamos menos pacientes um com o outro. Estamos mais irritados.
Como podemos lidar melhor com as emoções?
Se eu tenho uma irritação nesse momento eu preciso olhar para mim e ver qual a necessidade que preciso atender. De repente precisava apenas descansar, mas tive de parar minhas atividades para ajudar meu filho com a lição, ou tive de atender meu chefe em um momento não planejado.
Se me dou conta disso, provavelmente, em algum momento vou satisfazer essa necessidade de descanso, e minha irritação vai passar. Como a maioria não consegue fazer esse exercício de necessidade, no fim do dia teremos uma soma de descontentamento.
Como dizer para as pessoas o que sentimos de forma não violenta?
A melhor dica é poder dizer para as pessoas as necessidades que temos. “Não posso fazer isso agora, filho, porque a mamãe vai descansar”. A questão é que da mesma maneira que somos analfabetos emocionais, também somos analfabetos para podermos identificar as necessidades que temos e que devemos atender.
Podemos associar à metáfora do avião: não sou louco de colocar a máscara de oxigênio em você, e estar disponível para você, sem antes colocar a máscara em mim.
Isso não é egoísmo, mas sim, eu estar disponível, desde que não esteja em déficit da minha necessidade.
As necessidades são universais. As estratégias para supri-las são pessoais. Como, por exemplo, a necessidade de alimento é universal, o que cada um vai comer é estratégia pessoal.
De que maneira poderemos sair desse momento com menos danos?
Uma pergunta que deixo para os pais é a seguinte: “Daqui um ano, o que vocês gostariam que seus filhos falassem deste período de quarentena?”.
Gosto de deixar como reflexão uma frase do Humberto Maturana, um biólogo chileno, que diz que na biologia tudo se organiza ao redor do que queremos conservar.
E eu perguntaria para as famílias: “O que elas querem conservar nesse momento? O que é importante nesse período?”.
Fico me perguntando se o importante é a lição ou se é o vínculo, porque, quando tudo isso passar, a professora, provavelmente, fará melhor que nós a lição que deixou de ser feita.
Mas ela não vai conseguir restaurar o vínculo que ficou lesionado pelo mau relacionamento.
Perfil
Pamela Seligmann
- É argentina, mas vive no Brasil há 32 anos.
- Tem 52 anos e é formada em Pedagogia e Psicologia.
- Há 18 anos trabalha com pessoas, e há 13 anos com a comunicação não violenta.
- Atua como palestrante e professora convidada na área de Psicologia Humanista.