Armas que viram cabides e outros simbolismos, muita música e o recurso da comédia dão o clima leve, divertido e lúdico para a densa história de Malala Yousafzai, 21, na peça infantojuvenil “Malala, a menina que queria ir para escola”.
Baseado no livro da paulista Adriana Carranca, o espetáculo chega a Vitória com atores dando vida a crianças que brincam de ser os personagens envolvidos no tenso enredo da jovem.
A paquistanesa Malala foi baleada por membros do Talibã em 2012, em retaliação à sua luta pelo direito feminino à educação. Aos 17, recebeu Nobel da Paz, sendo a mais jovem premiada com o título.
“Usamos objetos de forma extremamente lúdica e simbólica. O tratamento é muito poético e tivemos uma professora e uma pedagoga que acompanharam todo o processo. É um espetáculo sobre amor. A intenção é comover e não assustar”, conta a carioca Tatiana Quadros, atriz e idealizadora do espetáculo.
“Luta da Malala é contra radicalismos” – Tatiana Quadros atriz e idealizadora da peça
AT2: Por que levar Malala para os palcos?
Tatiana Quadros: Eu já era fã do trabalho da Adriana Carranca como jornalista e escritora. Em 2015, quando ela lançou o livro “Malala, a menina que queria ir para escola”, fui ao lançamento. Na mesma noite, li. Estava curiosa para ver como ela trataria essa história densa. Me encantei, e fui imaginando em cena. Renato Carrera (diretor) se encantou também.

AT2: Como vê a história dela?
Tatiana Quadros: Ela é muito inspiradora. É a realidade de uma menina muito pobre, que, através da educação, tenta transformar o mundo. Malala é um ponto fora da curva.
Ela nasceu no interior do Paquistão, criada por um pai intelectual que nunca lhe negou o direito à educação e à liberdade.
O que aconteceu com Malala foi que o grupo radical Talibã invadiu o vale onde ela morava e proibiu as meninas de irem à escola. Mas Malala continuou indo, escondida. Quando eclodiu a guerra entre o Talibã e o exército do Paquistão, ela começou a escrever um blog com o pseudônimo Gul Makai.
Quando os talibãs foram expulsos do vale, ela assumiu que era autora do blog. Mas o grupo radical invadiu o vale novamente e ela sofreu o atentado.
AT2: Vê semelhança com a realidade do Brasil?
Tatiana Quadros: Sim, apesar de ela ser de uma cultura extremamente diferente. Quantas crianças no Brasil são impedidas de ir para a escola por conta da violência?
Uma coisa muito bacana que a Adriana coloca no livro e que a gente fez questão de destacar na peça é o que torna uma pessoa um talibã.
Os talibãs foram meninos muito pobres, retirados de suas famílias e levados para campos de concentração onde aprenderam a pegar em armas e tiveram uma leitura bastante deturpada do Alcorão.
Eles cresceram de forma muito violenta e não tiveram acesso à educação formal, à cultura. Então, viraram homens muito radicais.
A luta da Malala é contra o radicalismo, o extremismo, a ignorância. Ela disse que perdoou os talibãs e seu maior desejo é ver os filhos dos talibãs tendo acesso à educação para que essa ignorância não se perpetue.
AT2: O público se identifica?
Tatiana Quadros: Crianças de escola pública falam coisas como: “A gente também não pode ir à escola porque tem o traficante e o policial. Tem guerra”.
O público sai extremamente tocado, porque a Malala, além de levantar a bandeira da educação, levanta a bandeira do feminismo, dos direitos iguais. As meninas saem enlouquecidas, se sentindo poderosas! Ela é uma heroína real.
AT2: A peça é fiel ao livro?
Tatiana Quadros: Sim. Mas a gente conseguiu ser fiel de forma interessante, poética.
AT2: Que artifícios usaram para deixar a história mais leve?
Tatiana Quadros: O Renato Carrera foi muito feliz ao buscar a teatralidade de maneira poética e simbólica. O momento do tiro, um dos mais elogiados, foi um desafio. A gente não queria perder o impacto do tiro, mas não queria tiro com arma, algo extremamente violento. Usamos cabides.
A narrativa é cuidadosa, poética, divertida, mas sem perder a seriedade. Os talibãs contam sua própria história, o que gera empatia na plateia. Porque não é “o bom e o mau”, é o que leva essa pessoa a se tornar má, um assassino. E eles são divertidos, o chefe dos talibãs é quase um Capitão Gancho!
AT2: Qual a principal mensagem do espetáculo?
Tatiana Quadros: O amor. Cada um de nós pode ser uma Malala. Eu a vi de perto no Brasil, e Malala não é uma Nobel da Paz à toa. A presença dela traz uma sensação de amor, um desejo forte de transformar o mundo.
SERVIÇO:
“Malala, a menina que queria ir para escola”
O quê: Peça infantojuvenil baseada no livro de mesmo nome, escrito por Adriana Carranca
Quando: Sábado e domingo, às 16h
Onde: Teatro da Ufes. Av. Fernando Ferrari, 514, Goiabeiras
Ing.: R$ 10 (meia)
Venda: tudus.com.br e na bilheteria, sexta, das 15h às 20h, e nos dias do espetáculo, das 15h até a hora das sessões
Clas.: Livre
Inf.: 3376-0933