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Nem todas as vivências de uma infância ficam gravadas na memória. O cantor André Prando, por exemplo, tem poucas lembranças dos seus 5 anos de idade. Mas há algo de que ele nunca se esqueceu.
“Me lembro perfeitamente de ouvir o vinil de Raul Seixas em casa com meu pai e irmão. Não entendia a profundidade de sua música, mas me pegava muito a forma lúdica das canções. ‘Mosca na Sopa’ me pegava muito, porque tinha o barulho da mosca”, recorda.
Naquela época, o capixaba nem poderia imaginar que 27 anos depois gravaria uma canção inédita do Maluco Beleza. Ele acaba de lançar “Vivian”, composição de 1981 que Raul fez ao lado da mulher Kika para sua filha caçula.
Apesar de nunca ter sido gravada pelo ídolo, a íntima canção se tornou embrião de “Segredo da Luz”, apresentada no álbum “Raul Seixas” (1983) com outra letra.
“Eu e Vivi começamos uma amizade em 2017, depois de ela ver um vídeo meu cantando ‘O Homem’, de Raul. Naquele mesmo ano, ela me mostrou essa música e me perguntou se eu poderia cantar para ela, pois não teve a oportunidade de ouvir o Raul cantando. Fiquei emocionadíssimo”, lembra.
Agora, “Vivian” sai gravada em estúdio com guitarra de Rick Ferreira e baixo de Paulo César Barros, ambos artistas que acompanharam o roqueiro durante sua carreira.
A música, que será apresentada ao vivo pela primeira vez na próxima quinta-feira (8), no Pub 426, na Praia do Canto, ainda ganhou clipe com fotos pessoais do acervo da filha de Raul.
Veja o clipe:
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SERVIÇO:
“André Prando Toca Raul”
Quando: Quinta-feira (8), às 21h.
Onde: Pub 426. R. João da Cruz, 370, Praia do Canto, Vitória.
Quanto: Entrada gratuita.
ENTREVISTA:
A TRIBUNA: Como foi receber o convite para gravar uma música inédita de Raul Seixas?
ANDRÉ PRANDO: A palavra que define
a sensação de ter recebido esse convite é emoção. O Raul é um
artista que é referência para mim desde quando eu era criança. Eu
ouvia Raul no vinil com meu pai e irmão desde criancinha e, quando
fui me tornando artista, o Raul era uma referência de artista que
refletia o seu tempo e que ao mesmo tempo era à frente do seu tempo,
ousado, autêntico e revolucionário.
Como surgiu essa oportunidade?
Um amigo músico do
Rio, Carlos Sales, que é dono do estúdio onde gravamos a faixa, é um amigo querido que me apresenta para pessoas
incríveis. Em 2017, ele mandou para a Vivi um vídeo meu
cantando uma música do Raul chamada “O Homem”. Tinha
gravado despretensiosamente e ela adorou, trocou contato comigo e
começamos uma amizade.
Naquele mesmo ano, ela me mostrou essa
música. Escreveu: “Prando, você conhece a música “Segredo
da Luz”, do meu pai? Eu conhecia, e ela disse que essa música
originalmente tinha outra letra, que o Raul e a Kika Seixas escreveram para
ela, quando nasceu, em 1981. E que não tinha sido gravada.
Ela me perguntou se eu poderia cantar pra ela, pois não teve a
oportunidade de ouvir o Raul cantando. Fiquei emocionadíssimo naquele momento, me senti honrado, por saber que ela se identificava
com meu trabalho e que achava de uma sensibilidade pertinente que eu
pudesse cantar. Naquele momento, gravei um vídeo simples
cantando, só para ela ouvir, ela adorou, postou nas redes, foi super
emocionante e fiquei super feliz com a oportunidade.
E aí ficamos numa promessa de que um dia a gente poderia gravar a música oficialmente em
estúdio. Em 2019, o Carlos Sales me apresentou
mais uma vez uma pessoa muito querida, o Rick Ferreira, que foi o guitarrista que gravou toda a discografia do Raul e que era considerado o braço direito do Raul musicalmente.
O Carlos sempre dizia que eu e o Rick precisávamos nos conectar e aí a gente marcou de se conhecer na casa do Carlos. Naquele dia, passamos o dia inteiro
conversando, tocando junto, ele me contou várias histórias de Raul
e outros artistas que ele gravou. Também nesse dia, contei para ele a história da música da “Vivian” e ele superanimou de gravar.
Rick assumiu a produção musical da música e convidou César Barros, o baixista original do Raul Seixas para participar. Por isso, tem uma
estética que lembra Raul. Eu, obviamente, não tive pretensão
nenhuma de querer cantar parecido ou imitar. Eu dei minha
interpretação. Mas a parte instrumental tem os músicos de Raul,
então isso é muito bonito.
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Houve uma
responsabilidade/cuidado ao gravar uma faixa que era tão íntima
para ele?
Desde o início que
a Vivi me apresentou essa música houve um imenso cuidado e
responsabilidade com esse material. Quando ela me mandou a música, gravei uma versão acústica e em momento algum quis me vangloriar da
situação. Eu enviei para ela e ela que postou. E assim foi em todo o
processo de produção da faixa em estúdio. A gente sempre esteve em
contato direto com a Vivi e a Kika, trocando mensagens, mostrando o
processo, trocando sugestões…
Cuidamos com carinho desde o início porque, para começo de conversa, é uma
música muito íntima, de pai para filha, então ela é
diferente das músicas famosas do
trabalho do Raul, que são muito filosóficas e existencialistas.
Essa música é uma música de carinho de pai pra filha, uma música
fofinha mesmo. Nunca tivemos a pretensão de que fosse uma música com
apelo comercial, mas sim um registro documental. É um presente para a Vivi, mas também para todos nós que trabalhamos na faixa e para
todos os fãs de Raul também.
O que Raul representa para
você? É um grande fã da sua obra?
A minha primeira memória musical. Sabe aquele momento da
infância que a gente não lembra de muitas coisas? Mas uma coisa que
me lembro perfeitamente é de ouvir o vinil de Raul em casa com meu
pai e irmão. Eu tinha 5 anos quando me lembro de ter ouvido o disco
dele. Eu não entendia a profundidade da música dele, mas me
pegava muito a forma lúdica. A música “Mosca na Sopa” me pegava muito, porque tinha barulho de mosca, e tinha
um arranjo de percussões em coro incrível, é muito envolvente, sabe? Existe uma profundidade intensa nas letras de Raul, mas a música dele é muito popular também. Pega diferentes públicos,
é muito radiofônica, são características do Raul que sempre me
pegaram muito. Além da ousadia. São músicas que estimulam o
pensamento crítico. E ele gravou de tudo um pouco: baião,
rock, blues, forró, xaxado, reggae… isso me inspirou muito.
Diante
dos bons resultados dessa gravação, existe a possibilidade de
gravar mais alguma canção inédita do Maluco Beleza?
As músicas de Raul
me cabem muito bem. Acho que seria maravilhoso um dia gravar uma
outra canção dele, não necessariamente com caráter inédito,
mas regravar alguma música já conhecida e que caiba dentro de algum
trabalho meu. Acho bem possível.
Quem for ao seu show no
Pub 426 vai poder ouvir quais outras músicas de Raul na sua voz?
Curiosamente, esse
show no pub 426 foi fechado antes da gente ter a data de lançamento
da música. Fiz outro show lá com a banda do Saulo Simonassi, um tributo a Beatles e foi uma noite linda. E naquela ocasião, já tínhamos conversado de fazer
um tributo a Raul. Obviamente, a música já estava sendo produzida,
mas quando a gente marcou a data do show, nem foi intencional que
fosse perto da data de lançamento.
A primeira
vez que vou apresentar “Vivian” ao vivo vai ser nesse show, mas é um show que
passeia por toda a discografia do Raul. Então, vamos tocar vários
sucessos, porque Raul é um cara de muitos sucesso. Mas, como grande
fã, e em respeito a outros grandes fãs, é um show que vai passear
pelo lado B também. Vai ser
demais!