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Vinho Bastardo de Itamaracá: a rara promessa já é aguardada por grandes críticos

Descubra a vinícola de Alessandro Albertini em Itamaracá, que resgata a uva Bastardo e encanta com vinhos artesanais livres de agrotóxicos.

Vinho Bastardo de Itamaracá: a rara promessa já é aguardada por grandes críticos
- Alessandro Albertini tem sempre um sorriso largo. Mas, agora, eles surgem com mais frequência, na esperança pela estreia do vinho Bastardo, feito de uma uva que estava extinta no Brasil há cerca de 500 anos
Foto de perfil de Aline Moura

Aline Moura

Aline Moura é formada pela UFPE, trabalhou como repórter de Política, Editora Assistente de Produção de Política e repórter especial do Diario de Pernambuco, num período de 15 anos, onde atuou em todas as áreas, exceto esportes. Também teve experiência de quatro anos como gerente de comunicação da Secretaria do Trabalho, Emprego e Qualificação de Pernambuco e voltou ao jornalismo para integrar a equipe do Portal da Tribuna Online como repórter.

Última atualização

A escolha do biólogo Alessandro Albertini para criar uma vinícola na Ilha de Itamaracá, no Litoral Norte de Pernambuco, une história e afeto. No século 17, o humanista Gaspar Barléu, contratado por Maurício de Nassau, descreveu a ilha como um paraíso para o cultivo de uvas. A prática ficou esquecida por séculos até Alessandro assumir as terras das quais é, em suas palavras, “peão e dono”.

Mesmo após a extinção da uva Bastardo no Brasil, ainda na época do domínio português, o biólogo conta que os holandeses também se encantaram com as uvas que nasceram na Ilha de Itamaracá.

“Gaspar considerava que Itamaracá tinha as uvas mais gostosas do Brasil. Existia uma outra ilha, chamada Ilha de Itaparica, na Bahia, onde também se cultivavam uvas, mas aqui eram mais saborosas”, explica, trazendo mais uma magia ao seu trabalho.

Alessandro é biólogo, com curso técnico em agropecuária e duas pós-graduações. É mestre em bioquímica e doutor em ciências biológicas. Também concluiu dois pós-doutorados antes de largar tudo para se dedicar ao sonho de ter uma vinícola no Reino Encantado do cantor e compositor Reginaldo Rossi. Um projeto que começou em 2019.

A aposta na rara uva Bastardo no Brasil

Nesse cenário de resgate da Vinícola Albertini – também conhecida como Videira que dança – nasce a expectativa pelo lançamento do vinho da uva Bastardo, cerca de 500 anos após sua extinção no país. A data oficial ainda não foi anunciada. Mas alessandro já encomendou outras 50 mudas para sua plantação. 

O biólogo cultiva as videiras com uma paciência de um escultor, que enxerga a obra dentro da pedra e retira milímetro por milímetro até ela aparecer. Ele prepara o solo, protege as folhas do sol inclemente com rega constante e trava uma guerra contra as formigas — tudo sem uma gota de agrotóxico. Quando as formigas, que ele chama de “ingratas”, fazem um “motim”, ele usa vísceras de peixes em valas pequeninas ao lado de um fosso que já existe cercando as videiras.



Videira que Dança: alquimia e vinhos naturais

Turistas e moradores que visitam a casa de Alessandro em Itamaracá já saboreiam o vinho “Videira que Dança” e o “Vinho de Itamaracá”. O nome da vinícola reflete o próprio dono. Quem acompanha sua jornada pelo Instagram constata uma alegria contagiante e uma capacidade rara de se moldar a todo trabalho, do plantio ao engarrafamento.

Descendente de italianos e nordestino da gema, Alessandro produz ainda cachaça e cerveja de uva. Seus vinhos têm valor agregado (um pouco mais caros) por serem totalmente livres de agrotóxicos. A vinícola é ornamental.

“Meu vinho é inspirado nas garrafadas medicinais das feiras livres da Nação Nordestina”, diz, enquanto mexe em folhas da uva Bastardo mergulhadas em vinho — uma alquimia técnica e poética.



O veredito de quem entende: do “fresco” ao “belíssimo”

Os vinhos artesanais de Itamaracá já começaram a se tornar conhecidos no Brasil, o que trouxe Alessandro pela terceira vez à coluna Pernambuco que encanta. O “Videira que Dança”, feito com a uva Magna (tinto seco, 12,8% de álcool), conquistou Didú Russo, um dos jornalistas mais influentes no Brasil quando o assunto é “vinho”.
Ele descreve a bebida como equilibrada e fresca, com “gosto de romã e amora verde”, ideal para acompanhar um lagarto de panela.



Já o renomado sommelier Rogério Dardeau também analisou o tinto seco. Notou cor rubi e aromas de café, amora macerada e chocolate. “Bom paladar, baixa acidez e pouco tanino”, pontuou o especialista.

Análise dos vinhos licorosos: o ponto mais alto

Rogério Dardeau, um dos maiores pesquisadores da vitivinicultura no país, dedicou atenção especial aos vinhos licorosos da Ilha de Itamaracá. Sobre o rótulo feito com o corte das uvas Syrah e Sauvignon Blanc (teor alcoólico de 18%), o veredito foi entusiasta. Dardeau destacou a cor rubi leve e os aromas de frutas vermelhas maduras. “No paladar, boa acidez, açúcar bem baixo, ótimo volume, final longo. Está vivo e redondo. Um licoroso perfeito para aperitivo. A garrafa ficou limpa!”, pontuou o sommelier.

Ao analisar o segundo licoroso da Vinícola Albertini, desta vez elaborado com a uva Magna, o especialista descreveu um produto tinto e encorpado. “Apresentou turbidez, na cor rubi, aromas doces, frutas vermelhas maceradas e nota de fósforo”, detalhou. Para Dardeau, o equilíbrio é o ponto alto: “No paladar, ótima acidez, muito bom volume, um licoroso fino, sem exagero no dulçor. Um belíssimo vinho de sobremesa, redondo, que acompanha especialmente aquelas feitas com chocolate”.

Um brinde ao legado de Carlos Cabral

O reconhecimento técnico de Dardeau transbordou para a emoção ao recordar o legado de Carlos Cabral, falecido no final de 2025. Cabral foi o maior democratizador do vinho no Brasil, atuando por décadas como consultor do Grupo Pão de Açúcar para tornar a bebida acessível e sem frescuras.

Reconhecido mundialmente como autoridade em Vinho do Porto, Cabral chegou a apreciar as criações de Alessandro Albertini. Ele inclusive citou o cacho de uva presente no escudo do príncipe Maurício de Nassau, do período da invasão holandesa em Pernambuco, no livro “Presença do Vinho no Brasil”.

Dardeau encerrou sua análise com uma saudação que une o passado e o futuro da ilha:



A voz do tempo em Itamaracá

Novo cidadão honorário de Itamaracá, a partir de um projeto da vereadora Silvana Celestino (Agir), Alessandro Albertini passou a moldar as próprias jarras de barro para o envelhecimento do vinho e já quer começar a usá-las na próxima semana.

Ele prepara um evento especial, com direito a rifa popular, para marcar a abertura da primeira “fornada” que sairá do esconderijo, um espaço com dois metros de profundidade.

Entre o sol do Litoral Norte e os sonhos que crescem bem no seu quintal, Alessandro, segue paciente, esperando pelos frutos de uma videira que resgatou quase 500 anos depois de extinta. Enquanto o vinho Bastardo não sai das jarras, ele segue sua jornada com suor e riso na Ilha que Gaspar Barléu amou. No seu próprio ritmo. Dançando, como suas videiras ao vento, na vinícola mais próxima do mar no Brasil.

Conheça o início de toda esta história, contada em primeira mão na coluna Pernambuco que encanta:

Vinho e maresia: Alessandro Albertini resgata uva extinta há 500 anos em Itamaracá

Uvas de volta ao berço: Itamaracá aprova Título de Cidadão para biólogo pioneiro

Quer conhecer a Vinícola Albertini (a Videira que dança)?

Serviço:

Endereço: Avenida Assunção, 91, Forte de Orange (Ilha de Itamaracá)

O que é necessário: Hora marcada com antecedência

Valor: De 1 a 4 pessoas com direito a degustação (R$ 100 por cada)

Valor: Grupo de de 5 a 10 pessoas com direito a degustação (R$ 80 por cada)

Valor dos vinhos: R$ 150 a R$ 500

Contatos: 81-99727-4383(Alessandro Albertini)

81-98116-2362 (Guia turística Danny)

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