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Pernambuco bate recorde histórico de doadores de órgãos e celebra a vitória do sim

Pernambuco registra recorde histórico com 27 doadores de órgãos em um único mês. Com a menor taxa de negativa familiar da história, o Estado celebra ...

Pernambuco bate recorde histórico de doadores de órgãos e celebra a vitória do sim
- "Fui salvo pelo amor", resume José, que ganhou uma nova chance
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Aline Moura

Aline Moura é formada pela UFPE, trabalhou como repórter de Política, Editora Assistente de Produção de Política e repórter especial do Diario de Pernambuco, num período de 15 anos, onde atuou em todas as áreas, exceto esportes. Também teve experiência de quatro anos como gerente de comunicação da Secretaria do Trabalho, Emprego e Qualificação de Pernambuco e voltou ao jornalismo para integrar a equipe do Portal da Tribuna Online como repórter.

Última atualização



O relógio de uma Unidade de Terapia Intensiva não marca apenas horas; ele cronometra a tensão entre a despedida e o recomeço. Em Pernambuco, o mês de abril não trouxe apenas as chuvas sazonais, mas uma torrente de generosidade que redesenhou o mapa da vida no Estado. Pela primeira vez na história da Central de Transplantes (CT-PE), a morte não teve a última palavra em 27 ocasiões — o maior número de doadores de órgãos já registrado em um único mês.

Para José Gomes de Moura Filho, de 55 anos, essa estatística tem rosto e pulsação. Diagnosticado com cirrose hepática em 2023, ele viu o horizonte estreitar-se até que o “sim” de uma família desconhecida abrisse uma clareira na mata fechada da doença.

“Graças à vontade de uma família de abraçar essa causa, estou vivo. Eu fui salvo pelo amor”, resume José, hoje um homem que caminha pelas ruas com o fígado de outrem batendo no ritmo de sua própria esperança. Ele é a prova de que o corpo humano, em sua finitude, pode ser solo fértil para o amanhã de quem fica.

A queda histórica da negativa familiar em Pernambuco



O dado mais contundente deste balanço reside naquilo que às vezes fica invisível. A taxa de negativa familiar — aquele instante doloroso em que o luto se fecha em si mesmo — caiu para 35%, o menor índice desde o início dos registros. É um movimento tectônico na cultura do nosso: a compreensão de que a dor da perda pode ser transmutada em alento para desconhecidos.

Essa mudança de comportamento reflete um Estado que aprendeu a confiar nas suas instituições de saúde. Cada doador pode salvar mais de uma pessoa. E aconteceu.

Em abril, essa confiança atravessou a ponte dos 69 procedimentos realizados: foram 23 rins que voltaram a filtrar sonhos, 24 fígados que restauraram metabolismos e 22 córneas que devolveram a luz a olhos cansados de esperar na penumbra das filas. Pernambuco alcançou a marca de 33,8 doações por milhão de população (PMP), um patamar que nos coloca em uma vitrine de eficiência e humanidade.

O papel estratégico de servidores públicos no recorde 

Se os números impressionam, o cenário onde eles ganham corpo é o Hospital da Restauração (HR). A unidade, muitas vezes palco das batalhas mais rudes contra a finitude, tornou-se o principal celeiro de renascimentos em abril. Das doações registradas, 22 partiram dali, fruto de um trabalho minucioso das equipes de Doação e Transplante (eDOT) e da Organização de Procura de Órgãos (OPO).

André Bezerra, coordenador da Central de Transplantes, aponta que a reforma da emergência e o treinamento humanizado das equipes não são apenas melhorias burocráticas, mas ferramentas de acolhimento.

Quando uma família é recebida com dignidade no momento da tragédia, o “sim” floresce com mais facilidade. O investimento em pessoal transformou o HR em um porto seguro onde a morte encefálica é tratada com o rigor da ciência e a delicadeza necessária para abordar quem acaba de perder um mundo.

Como funciona a rede de procura de órgãos no estado



O sistema opera como uma orquestra invisível. Enquanto as OPOs coordenam o suporte regional, as eDOTs agem no cotidiano das unidades hospitalares, identificando potenciais doadores e conduzindo a entrevista familiar. É um trabalho de ourivesaria emocional. O treinamento intensificado no início deste ano afinou esses instrumentos, otimizando a comunicação entre quem identifica o doador e quem realiza a cirurgia.

Lucas Stterphann, coordenador da Rede de Procura de Órgãos, observa que o destaque nacional de Pernambuco, especialmente nos transplantes renais, é consequência direta dessa agilidade. Cada minuto ganho na notificação de uma morte encefálica é uma vida salva na outra ponta da fila. O recorde de abril não é apenas um número em um gráfico de Excel; é o som de dezenas de corações que continuam a bater porque famílias de Pernambuco decidiram que, por aqui, a solidariedade é uma lei não escrita.

Neste “Pernambuco que Encanta”, a maior riqueza não está apenas no que construímos em pedra e cal, mas no que somos capazes de doar de nós mesmos. O recorde é um marco, mas o “obrigado” de José Gomes é o que realmente dá sentido à jornada.

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