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Lente de segurança filma última viagem de assistente social em Tamandaré

Imagem de câmera de estrada desmente depoimento de companheiro que negara convívio com a vítima e apressa transferência para cárcere em Palmares

Lente de segurança filma última viagem de assistente social em Tamandaré
- Investigação policial muda destino de homem que matou a esposa de forma brutal
Foto de perfil de Aline Moura

Aline Moura

Aline Moura é formada pela UFPE, trabalhou como repórter de Política, Editora Assistente de Produção de Política e repórter especial do Diario de Pernambuco, num período de 15 anos, onde atuou em todas as áreas, exceto esportes. Também teve experiência de quatro anos como gerente de comunicação da Secretaria do Trabalho, Emprego e Qualificação de Pernambuco e voltou ao jornalismo para integrar a equipe do Portal da Tribuna Online como repórter.

Última atualização

   Com colaboração de Simone Santos

O olho de vidro da câmera de segurança registrou o que inquietava o olhar da polícia de Tamandaré. Sobre o banco da motocicleta, dois corpos seguiam na mesma direção. No guidão, o homem; na garupa, a mulher. José Rosinaldo Martins da Silva, de 47 anos, conduzira o veículo. Silvanice Batista da Silva, também de 47 anos, assistente social, ocupara o espaço logo atrás, na garupa. O registro congelado na tela da delegacia fixou os últimos instantes de vida da passageira, que morreu no quintal de casa. Na noite da sexta-feira, 12 de junho de 2026, cinco dias após o achado do corpo, os policiais prenderam o piloto. O homem terminou recolhido ao cárcere na cidade de Palmares, após o cumprimento do mandado de prisão preventiva expedido pela Comarca local.

A cronologia do crime começou na manhã do dia 7 de junho, quando dois funcionários da casa caminhavam pelo Sítio Monte das Oliveiras, na área rural de Tamandaré. Entre a vegetação da propriedade, avistaram a cabeça de Silvanice, separada do tronco. A essa distância de cinco metros dali, o restante do corpo repousava sobre a terra. Silvanice morreu próximo a sua residência e a Polícia Militar não encontrou o marido por perto no momento da chegada. Ele ficou impune durante cinco dias.

Antes de abandonar a cena e parecer inocente, o agressor aplicou força mecânica contra o crânio da vítima, destruindo a face. No mesmo dia do achado, o homem compareceu à delegacia, sentou-se diante da autoridade policial, sustentou a versão de que não via a companheira e obteve a liberação. A investigação prosseguiu com o resgate das mídias da rodovia, que desmentiram a versão oral de José Rosinaldo e sustentaram o pedido de prisão.

Os artigos do código e a contabilidade da pena

A tipificação do crime sofreu mutação jurídica com o avanço das provas técnicas. O registro inicial de homicídio converteu-se no crime autônomo de feminicídio. Com as mudanças na legislação realizadas neste ano, a sanção para o delito parte do piso de 20 anos e pode atingir o teto de 40 anos de reclusão. O homem enfrenta a acusação com a incidência das qualificadoras do meio cruel — evidenciado pela decapitação e pelo esmagamento — e da utilização de recurso que impossibilitou a defesa da vítima, além do motivo torpe.

A dinâmica das qualificadoras altera diretamente o cálculo da punição no Tribunal do Júri. A presença da crueldade e a ausência de chance de defesa para a assistente social impedem a fixação da pena no patamar mínimo. A contabilidade jurídica indica que o réu enfrentará uma condenação que deve se aproximar do teto legal, uma vez que ele já está respondendo pelas acusações sem liberdade, fechado na prisão de Palmares.

A mecânica da força nos crimes de gênero

A estatística dos necrotérios brasileiros expõe uma constante física e social: os homens utilizam as mãos, as lâminas e o peso do próprio corpo para destruir as mulheres em ambientes domésticos. O homicídio entre indivíduos do sexo masculino em território nacional decorre, na maioria dos casos, de disputas territoriais, conflitos de facções ou desavenças externas, onde o disparo de armas de fogo opera o desfecho à distância.

O homem que mata, na maioria das vezes, o homem atira. O homem que mata a mulher, contudo, não tem medidas. Há uma busca pela aniquilação da identidade da vítima que transcende o ato de cessar a vida, como o caso de Tamandaré.

A agressão física direcionada ao rosto da assistente social busca apagar os traços que individualizam a mulher, transformando a companheira em matéria disforme. Mas a imagem de Silvanice permanece no coração dos familiares e amigos. A dele, não.

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