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Jéssica Zarina: a pernambucana que faz espelho de um povo na costura

Descubra a história de Jéssica Zarina, estilista pernambucana que transforma a moda afro em um manifesto de identidade e pertencimento.

Jéssica Zarina: a pernambucana que faz espelho de um povo na costura
- Jéssica nasceu em Olinda, e foi na comunidade Xambá que sua arte também nasceu, entre rezas, tambores e linhas
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Aline Moura

Aline Moura é formada pela UFPE, trabalhou como repórter de Política, Editora Assistente de Produção de Política e repórter especial do Diario de Pernambuco, num período de 15 anos, onde atuou em todas as áreas, exceto esportes. Também teve experiência de quatro anos como gerente de comunicação da Secretaria do Trabalho, Emprego e Qualificação de Pernambuco e voltou ao jornalismo para integrar a equipe do Portal da Tribuna Online como repórter.

Última atualização


Jéssica Maria da Silva Santos, 31 anos, carrega nas vestes a memória das matriarcas e nos olhos o brilho de quem transforma ausência em presença. No Recife, seu nome virou sinônimo de moda afro autoral, mas a história por trás do pseudônimo Jéssica Zarina é também a de uma mulher negra, comunicadora, bailarina afro e estilista que tece narrativas de pertencimento a partir das tramas do tecido e da vida.

Aos 10 anos de estrada com a marca Zarina Moda Afro, celebrados na última sexta-feira (25 de julho), Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, Jéssica olha para o caminho percorrido com gratidão e firmeza.

Jéssica nasceu em Olinda, e foi na comunidade Xambá que sua arte também nasceu, entre rezas, tambores e linhas. Cresceu entre as ladeiras do Morro da Conceição, no Recife, e as vielas de Arthur Lundgren II, em Paulista — territórios também que moldaram sua força e sua estética. “Sou das águas de mamãe Oxum, aquela que se cobre de ouro”, diz. E é esse ouro ancestral, tecido com fé e memória, que hoje reluz em passarelas do Brasil e do mundo.

Costura que ergue: da periferia ao mundo

Filha de Tereza Cristina e Rinaldo, Jéssica encontrou nos pais os primeiros incentivadores. Foram eles que, com o pouco que tinham, ajudaram financeiramente o sonho a tomar forma. Mas foi da urgência de se ver representada que nasceu a Zarina: uma marca que veste corpos pretos com dignidade, beleza e afirmação. “As lojas de departamento não estavam atentas aos nossos corpos”, lembra.

Mais que uma marca, Zarina é projeto de vida. Uma forma de transformar desigualdade em estética, invisibilidade em arte. Em suas peças, tecidos africanos como as capulanas são ponto de partida para contar histórias que atravessam o Atlântico e reconectam com as origens.

Só para dar um exemplo, Capulana é um tecido tradicional africano, especialmente popular em Moçambique, mas também presente em outros países da África Austral, como Malawi, Tanzânia e Zimbábue.

Trata-se de um pano de algodão estampado, geralmente em cores vibrantes e com padrões geométricos ou simbólicos que expressam cultura, espiritualidade, status social ou identidade étnica. A capulana pode carregar significados simbólicos — por exemplo, algumas estampas estão ligadas à fertilidade, proteção ou prosperidade.

O impacto é tamanho que suas criações já chegaram a outros estados e países, formando uma rede que ultrapassa fronteiras. “Tenho clientes dentro e fora do Brasil”, celebra.

Encontro com o continente-mãe

A virada na carreira veio em novembro de 2022, quando Jéssica foi convidada a integrar uma caravana de 10 artistas pernambucanos em viagem à África do Sul e Moçambique.

Ela se refere à viagem na qual teve a oportunidade de conhecer o bairro da Mafalala, em Maputo, Moçambique — um território marcado pelo multiculturalismo, onde diferentes etnias, religiões e tradições convivem em harmonia.

Ali, mergulhou nas raízes do “Tufo da Mafalala”, grupo formado por mulheres que, por meio da dança, das vestes, das pinturas e da música, expressam a força do feminino africano, a beleza ancestral e o orgulho de ser mulher preta. Nesse quilombo vivo, todas são rainhas, mas o reinado tem à frente Mama Saquia — sorridente, potente e visionária, ela guia o grupo com resistência e arte. Como ela mesma afirma: “África sempre avança.  Chegar no continente-mãe foi surreal. Conhecer as rainhas do Mafalala, em Moçambique, me inspirou ainda mais”, relembra.

Transformando saberes em futuro

Essas vivências impulsionaram o projeto “Moda Preta Autoral em Conexão Ancestral”, que já formou dezenas de jovens da periferia com oficinas, desfiles e vivências no Recife, Salvador, Fortaleza e São Paulo. Em 2023, o projeto ocupou a Caixa Cultural dessas três capitais. É o saber ancestral que agora se transmuta em futuro.

Jéssica também foi reconhecida como Memória Viva da Cultura Popular e Tradicional de Olinda e chegou à final do Prêmio Semente Itaú Mulher Empreendedora + Diversa.

“Um dos meus maiores prazeres é contar histórias por meio do tecido, da cor, do gesto e da presença. O meu trabalho costura narrativas de pertencimento, memória e futuro para mulheres negras, LGBTQIA+ e todes que se parecem comigo, com aquilo que acredito”, afirma.

Mais reconhecimento

Recentemente, Jéssica participou da mesa “Ancestralidade, Moda, Representatividade e Identidade” no Centro de Design do Ceará, dentro do projeto KUYA. Ali, vestiu um look pensado com afeto e confeccionado por fazedores da moda preta ancestral de Pernambuco.

A experiência, segundo ela, foi “pura potência, MONEGRIN!”. A presença dela no evento é símbolo da potência de um segmento que ainda enfrenta resistências, mas segue abrindo caminhos com afeto e identidade.

Uma nova geração que também borda o mundo


O mais recente fruto dessa costura coletiva é a coleção “Raízes do Futuro”, feita por sete criadores da periferia recifense. Jardel Felipe Francisco, Emerson Rodrigues, Vânia Lins, Leyde Fernandes, Maria Julieta, Mayara Correia e Jhon Nascimento foram selecionados por edital da Penab para viver três meses de imersão no ateliê.

Pela primeira vez, a Zarina abre sua criação para uma costura coletiva. “Cada um trouxe um olhar, uma história. É mais que moda: é comunidade”, afirma Jéssica. As peças são atemporais, criadas com técnicas ancestrais como barafunda e crochê. “Fazemos questão de manter esse legado vivo”.

Mais do que um desfile, a coleção é um manifesto coletivo. A Zarina se tornou também espaço de formação e experimentação para que jovens da periferia possam sonhar, empreender e ocupar novos espaços no mercado da moda.

Cada tecido, uma narrativa

Vestir uma peça da Zarina é também vestir uma posição. É carregar consigo memória, identidade e propósito. Para Jéssica, moda é linguagem e ferramenta de emancipação. “Mais do que vestir corpos, a Zarina veste narrativas, reconecta raízes e afirma presenças”, diz.

Seu ateliê hoje funciona na Av. Manoel Borba, 339, Boa Vista, Recife, e segue com vendas pelo Instagram @zarinamodaafro. Ali, cada linha costurada é uma forma de resistir. Cada modelo, uma maneira de existir. Em tempos em que tantas histórias são silenciadas, Jéssica Zarina segue bordando futuros. Com a sabedoria de Oxum e a força de uma geração que não aceita mais passar em branco.

Jéssica dribla estatísticas

Segundo os últimos dados da PNADc-IBGE, analisados pelo Sebrae-PE, Jéssica é um exemplo de quem conseguiu furar a bolha do empreendedorismo negro feminino em Pernambuco.

Entre 2012 e 2023, a participação de mulheres negras como donas de negócio no estado se manteve praticamente estável, oscilando em torno de 30% ao longo da década. No último trimestre de 2023, elas representavam 30,6% dos empreendedores negros — um índice ligeiramente abaixo do pico de 33,6% registrado em 2019.

A beleza que precisa se desafiar

Apesar de pequenas variações ano a ano, não houve crescimento consistente ou significativo da presença feminina nesse setor ao longo do período. A maioria dos negócios liderados por pessoas negras continua sob comando masculino — 69,4% em 2023.

Esse dado escancara um desafio persistente para o fortalecimento do empreendedorismo entre mulheres negras, que enfrentam barreiras adicionais de gênero e raça para abrir e manter seus negócios. Ainda assim, mulheres como Jéssica Zarina provam que é possível romper as estatísticas: com seu projeto de moda autoral e ancestral, ela inspira outras mulheres negras a empreenderem com identidade, memória e potência.

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