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Antonino: o rosto da Orquestra Criança Cidadã na nova edição do Concerto pela Paz

Descubra a história de Antonino, o rosto da Orquestra Criança Cidadã, e como a música promove a paz entre jovens de diferentes países.

Antonino: o rosto da Orquestra Criança Cidadã na nova edição do Concerto pela Paz
- Músico de Pernambuco une jovens do Recife com outros músicos de países feridos pela guerra
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Aline Moura

Aline Moura é formada pela UFPE, trabalhou como repórter de Política, Editora Assistente de Produção de Política e repórter especial do Diario de Pernambuco, num período de 15 anos, onde atuou em todas as áreas, exceto esportes. Também teve experiência de quatro anos como gerente de comunicação da Secretaria do Trabalho, Emprego e Qualificação de Pernambuco e voltou ao jornalismo para integrar a equipe do Portal da Tribuna Online como repórter.

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Na música, o contrabaixo é a base invisível. Não se impõe como o violino, mas sustenta todo o edifício sonoro. É chão, é âncora, é espinha dorsal. Foi nesse instrumento grave e imponente que Antonino Tertuliano, menino do Coque, encontrou a possibilidade de reinventar o próprio destino: hoje, ele é o rosto de Pernambuco que une jovens do Recife com outros músicos de países feridos pela guerra.

Aos 14 anos, quando entrou para a primeira turma da Orquestra Criança Cidadã, a música ainda era apenas curiosidade. Uma realidade que contrastava com a violência do Coque no então ano de 2006, onde o som de tiros era um dos mais ouvidos na localidade. Ali, na região central da capital pernambucana, também havia uma guerra. Os mais novos podem não saber.

O bairro onde Antonino cresceu gritava violência. Dentro da sala de ensaio, no entanto, ele descobriu outra linguagem — e com ela um outro mundo.

Hoje, aos 32 anos, Antonino é mais do que um músico de carreira internacional. Ele é o pilar da Orquestra Criança Cidadã na nova edição do Concerto pela Paz, projeto que reúne jovens do Recife e de países magoados pela guerra para tocar lado a lado. A turnê, apoiada pelo Ministério do Turismo, começou nesta terça-feira, 30 de setembro, em Seul, Coreia do Sul, que vive em conflito com a Coreia do Norte.

Em um tempo em que fronteiras e conflitos se multiplicam, ver jovens que se reúnem para tocar o coração das pessoas, invés de lutar e chorar, é uma lufada de esperança.

“O significado que o Criança Cidadã tem para mim é enorme. Eu tenho imensa gratidão”, disse recentemente.

A primeira nota

Em 2006, quando o juiz João José Rocha Targino idealizou a Orquestra Criança Cidadã, o Coque tinha o menor Índice de Desenvolvimento Humano do Recife. A escolha da comunidade foi proposital: “Nós escolhemos a comunidade do Coque porque tinha os piores índices de desenvolvimento humano e o maior índice de violência”, recorda Targino.

Foi nesse cenário que Antonino fez um teste de aptidão musical. Não sabia música, mas havia disciplina e brilho no olhar. O menino que descobriu o contrabaixo, responsável por ancorar o ritmo da orquestra, logo se destacou.

A orquestra oferecia muito mais do que aulas: alimentação, uniforme, atendimento médico, odontológico, apoio pedagógico e inclusão digital. Era a oportunidade de outro caminho. “O projeto remodelou o bairro e a comunidade. Esse projeto social apresentou não só uma profissão, mas outra perspectiva de futuro”, contou.

Do Coque ao mundo



A trajetória de Antonino ganhou corpo com passagens pela Universidade Federal de Pernambuco, Conservatório Pernambucano de Música e Orquestra Sinfônica de Goiânia.

Depois, o salto internacional: em Israel, conquistou bolsa integral na The Buchmann-Mehta School of Music. Em 2019, participou de um concerto histórico — a despedida do maestro Zubin Mehta, após meio século à frente da Filarmônica de Israel.

Como o contrabaixo, que é a voz grave e imponente da orquestra, ele manteve o tom profundo da sua vida. Em 2021, após seis audições, foi aprovado para integrar oficialmente a mesma Filarmônica. Do Coque, foi ser estrutura e estabilidade num dos palcos mais respeitados do planeta, atualmente no centro da crise mundial. Um símbolo de que a música pode, de fato, abrir portas antes inalcançáveis.

A guerra interrompeu, a música salvou



Em 2023, Antonino voltou a ser testado pelo destino. Ele vivia em Tel Aviv, em Israel, quando eclodiu o conflito entre o país onde passou a morar, na época, e o Hamas. Ele tinha ido a Salzburgo, na Áustria, para um processo seletivo de mestrado quando os ataques começaram.

“Eu estava em Salzburgo um dia antes do meu embarque para Israel. Só iria iniciar o mestrado em março”, lembra. A guerra antecipou sua despedida de Tel Aviv, quando decidiu permanecer na Áustria.

Foi aceito na Mozarteum University (uma das mais prestigiadas e renomadas universidades de arte e música da Áustria e da Europa) e passou a integrar a Niederbayrische Philharmonie Orchester (Orquestra Filarmônica da Baixa Baviera). Mais uma vez, a música foi escudo e refúgio.

Concertos pela Paz



Agora, Antonino retorna ao projeto que o revelou. Ao lado de mais 13 pernambucanos, está entre os brasileiros escolhidos para representar a Orquestra Criança Cidadã na nova turnê dos Concertos pela Paz.

A missão dele foi tão maior do que a música. Antonino desempenhou papel de ajudar no recrutamento de músicos convidados de países marcados por conflitos e tensões históricas: Irã, Israel, Ucrânia, Rússia, Coreias do Sul e do Norte. São jovens como ele, que encontram no ensaio uma forma de falar outra língua.

O grupo do estrangeiros que ajudou a recrutar é formado pelos iranianos Amirmahziar Ghazemi Alavijeh (violino) e Naeim Hatami (viola); os israelenses Ori Shauel Wissner Levy (violino) e Simon Lemberski (viola); os ucranianos Oleksandr Puzankov (violino) e Petro Kuzma (violoncelo); os russos Nikita Shkuratov e Zlata Synkova (violinos); as sul-coreanas Lee Young Kim (violino) e Youngseo Oh (contrabaixo); e as norte-coreanas Sooyoung Kim (violino) e Rina Choi (sohaegeum).

Já a Orquestra Criança Cidadã selecionou 11 jovens músicos recifenses, em audições às cegas, com idades entre 16 e 22 anos, para participar. Eles serão acompanhados por Antonino, pelo professor Davi, do núcleo de Igarassu, e se apresentam sob a regência do maestro José Renato Accioly.

Uma turnê pela paz

Depois de Seul, a jornada segue para o Japão: Hiroshima receberá dois concertos — um no Parque Memorial da Paz, às 11h, e outro no Teatro YMCA, às 19h30, ambos em 4 de outubro. No dia seguinte, 5 de outubro, será a vez de Osaka, no Pavilhão Brasil da Expo 2025.

O encerramento está marcado para 8 de outubro, na Praça São Pedro, no Vaticano, diante do Papa Leão XIV.

Mais do que um roteiro de apresentações, trata-se de um manifesto: jovens de nações que travam guerras ou guardam cicatrizes históricas se reúnem para tocar em uníssono.

“É possível conquistar o mundo”



Antonino não esquece de onde veio. Sempre que retorna ao Brasil, faz questão de visitar mestres e alunos. “Apresento aos jovens a minha realidade atual e digo que é possível conquistar o mundo”, afirma.

Ele sabe: cada nota sua é recado. Cada aparição nos palcos do mundo é mensagem de que o chão onde cresceu pode ser duro, mas não determina o limite do voo. O futuro não pode ser apenas determinado por índices de violência, mas por notas que ultrapassam fronteiras.

O contrabaixo, grave e imponente, segue sustentando. O violino, leve e agudo, segue encantando. E, no encontro desses dois, nasce uma música que é maior do que a soma de seus instrumentos: é a música da cidadania, da paz, da esperança.

A orquestra como destino coletivo



Neste ano de 2025, a Orquestra Criança Cidadã completa 19 anos de atividades. Já passaram por lá mais de 2 mil crianças e adolescentes, com 715 formados em música. Atualmente, o projeto tem 450 jovens de 7 a 21 anos do Coque, do distrito de Camela, de Ipojuca, e da zona rural de Igarassu. Desde 2013, há mais de 10 anos, o projeto realiza apresentações internacionais todos os anos.

Mais do que concertos, entrega cidadania. Para muitos, como Antonino, é a diferença entre repetir a violência ou reinventar a própria história. Com música.

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