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O que sustenta uma vida? A trajetória de Débora mostra que o Estado pode ser mais

Entre rachaduras, escoras e reconstruções, a trajetória de Débora expõe o poder — e a responsabilidade — do Estado na vida das mulheres

O que sustenta uma vida? A trajetória de Débora mostra que o Estado pode ser mais
- Da infância em ruínas à defesa das mulheres, a história de Débora revela o impacto de políticas públicas quando elas chegam antes do desabamento
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Aline Moura

Aline Moura é formada pela UFPE, trabalhou como repórter de Política, Editora Assistente de Produção de Política e repórter especial do Diario de Pernambuco, num período de 15 anos, onde atuou em todas as áreas, exceto esportes. Também teve experiência de quatro anos como gerente de comunicação da Secretaria do Trabalho, Emprego e Qualificação de Pernambuco e voltou ao jornalismo para integrar a equipe do Portal da Tribuna Online como repórter.

Última atualização

Dias depois de protestos que pararam o país em defesa da vida das mulheres, não há como começar esta coluna Pernambuco que encanta por outro lugar. A paisagem política ainda está marcada pelos cartazes, pelos tambores e pelas vozes que pedem que nenhuma mulher seja tratada como peça descartável.

Nesse cenário, falar de Débora Andrade não é escolha; é urgência. Ela coordena o Núcleo Especializado de Defesa da Mulher Vítima de Violência Doméstica e Familiar, no Recife, e sua trajetória funciona como lembrete de que o Estado pode deixar de ser apenas repartição cinzenta e se tornar andaime firme, escora colocada no momento certo, cimento que impede que vidas inteiras rachem de vez.

A planta baixa do recomeço

Débora nasceu em Aracaju, no estado de Sergipe, em uma casa que nunca passou por reforço estrutural. A separação dos pais, quando tinha por volta dos 10 anos, não foi só um drama doméstico; foi o primeiro abalo que correu pelos alicerces, abrindo fendas nas paredes emocionais daquela infância.

A pobreza avançou como infiltração, silenciosa, mas constante, tentando corroer o pouco que havia. Mesmo assim, havia ali um elemento de resistência: a mãe, que assumiu o papel de alicerce invisível.

Enquanto fazia faxinas e limpava corredores de escola onde ela estudava, depositava, sem discursos grandiosos, uma argamassa diária de possibilidade.

Cada turno de trabalho era como aplicar mais uma camada de concreto para que a filha não desabasse junto com o entorno.

Sustentação de emergência

Nesse período, o Estado não entrou em cena como solução mágica, mas como sustentação de emergência. Um projeto social chamado Criança Cidadã abriu espaço para que Débora não desmoronasse junto com a vulnerabilidade que via nos colegas do programa: crianças que dormiam em invasões, que vendiam nos sinais, que já conheciam o peso da rua antes mesmo de conhecer a adolescência.

Mais adiante, um curso técnico, num instituto federal, funcionou como laje intermediária. Professores serviram como arquitetos, orientando escolhas, empurrando horizontes. E, quando a bolsa integral do Prouni chegou, foi como erguer um andar inteiro numa construção que, à primeira vista, não tinha nem fundação suficiente.

A partir dessas vigas — algumas públicas, outras familiares — Débora projetou algo que parecia inalcançável para quem nasceu em território tão frágil: uma profissão que lida justamente com o desabamento alheio, uma função pública que exige firmeza, e uma responsabilidade que agora se estende sobre outras mulheres que, como ela um dia, tentam impedir que a vida despenque.

A arquitetura da Justiça

E foi desse edifício erguido a muitas mãos — mãe, Estado, escola, acaso e teimosia — que Débora saltou para a vida adulta. Ao assumir o cargo público, não levou apenas o conhecimento técnico conquistado nos livros, mas toda a memória do terreno instável de onde veio.

É por isso que, quando chega ao Núcleo Especializado de Defesa da Mulher, ela não enxerga apenas processos, despachos e estatísticas. Vê estruturas humanas prestes a ceder. E entende que seu trabalho, agora, é oferecer às outras o que um dia segurou os próprios pilares: escora, abrigo e chance de reconstrução.

A Defensoria, instituição destinada a quem possui renda de até quatro salários mínimos ou não consegue arcar com custos jurídicos, tornou-se para ela mais do que local de trabalho; tornou-se o canteiro onde tenta subverter a lógica segundo a qual apenas quem tem dinheiro pode proteger a própria dignidade.

Não há romantização nisso. Há método, estratégia e compromisso com uma engenharia social que, quando funciona, previne tragédias.

No Recife, Débora coordena, desde 2023, o núcleo responsável por acolher mulheres que chegam em ruínas emocionais, afetivas e financeiras.

Ela acompanha de perto uma rotina que tem parece uma roda viva. A violência doméstica atingiu mais de 38.625 pessoas em Pernambuco até o final de novembro, bem como o feminicídio, que fez quase 80 vítimas. Mas é nesse cenário que o núcleo age como força-tarefa para estabilizar o terreno e permitir que essas mulheres levantem novas paredes para si mesmas.

O canteiro de recomeços

Em 2025, mais de doze mil mulheres passaram pelas salas do núcleo. Muitas chegam após longos ciclos de violência, carregando nos ombros o peso de decisões atrasadas pela dependência financeira, pelas pressões familiares ou pelo medo de desmoronar de vez. A equipe faz o que é possível para que nenhuma delas enfrente sozinha a reconstrução.

Uma das iniciativas do núcleo, o Grupo Reflexivo de Mulheres, levou vítimas de violência a museus e espaços culturais. Pode parecer detalhe, mas é gesto arquitetônico: quando alguém passa anos dentro de um ambiente emocional estreito, incapaz de ver outras janelas possíveis, o contato com a arte abre vãos, reposiciona vigas internas, amplia o horizonte.

A cidade que queremos

A história de Débora é sobre a ascensão possível em terreno adverso. Não porque ela seja exceção heroica, mas porque aponta para o que acontece quando sociedade e Estado se comportam como arquitetos responsáveis.

Toda mulher que chega ao Núcleo, fragilizada e desconfiada, carrega consigo a esperança de que ainda exista solo firme em algum lugar. E quando encontra acolhimento, proteção e orientação jurídica, descobre que reconstruir não é tarefa solitária.

Permitir que essas mulheres sustentem suas próprias estruturas é mais do que política pública; é projeto civilizatório. Em um país que discutiu nas ruas, recentemente, a urgência de proteger as vidas de suas cidadãs, histórias como a de Débora lembram que a defesa da mulher não é uma obra pronta. É uma construção permanente.

E o encanto de Pernambuco, nesta semana, não está apenas em paisagens ou manifestações culturais. Está também em quem, todos os dias, impede que vidas inteiras desabem.


Klester Cavalcanti – “Matou uma matou todas”

O jornalista pernambucano Klester Cavalcanti poderia ter escolhido o silêncio confortável, mas preferiu o risco. Em Matou uma, matou todas, ele não reivindica “local de fala”; reivindica responsabilidade.

Num país onde o feminicídio destrói famílias inteiras e deixa crianças sem mãe e sem pai, o jornalista entende que a conversa não pode ser monopólio das mulheres — os homens precisam entrar nela, e não como opinião gratuita, mas como compromisso ético.

O resultado é um livro sensível, atento às ausências e às cicatrizes, que ilumina o que já deveria ser evidente: combater a violência contra mulheres não é uma pauta feminina; é uma tarefa coletiva. Klester faz isso com precisão, humanidade e coragem. E, neste momento em que o país ainda escuta o eco dos protestos que uniram vozes em defesa das mulheres, seu trabalho chega como gesto necessário — e urgente. Veja entrevista completa dele


Quando o palco é coletivo, o som fica maior

O novo documentário de Larissa Lisboa faz mais do que registrar uma turnê: ele escora, com inteligência e afeto, um capítulo urgente da música feita por mulheres negras e majoritariamente LGBTQIAPN+ em Pernambuco. Ao revelar bastidores e quem carrega o peso real das produções, o filme desarma a ideia de que o palco é o único lugar onde a arte acontece. A inquietude aqui não é pose estética: é método, coletivo e político. E, num cenário que ainda insiste em apagar essas vozes, ver tantas mulheres abrindo caminho juntas é mais que cinema — é reparação em movimento.


O gesto de assumir parte da reparação

Hoje, circulei por temas em que a sociedade falhou: violência contra a mulher, desigualdade racial, precariedade, ausência do Estado. Mas a coluna mostra; em cada caso que alguém decide agir — seja com arte, com jornalismo ou com coragem pessoal, uma vida pode se transformar.

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