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ALERTA NO MAR

Dois tubarões, duas espécies e a mesma consequência: amputações no Grande Recife

Especialistas apontam espécies distintas nos dois ataques registrados em apenas 26 horas; vítimas perderam as pernas após as mordidas

Dois tubarões, duas espécies e a mesma consequência: amputações no Grande Recife
- Considerado um dos maiores predadores dos oceanos, o tubarão-tigre possui dentes largos, serrilhados e adaptados para cortar grandes porções de carne
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Aline Moura

Aline Moura é formada pela UFPE, trabalhou como repórter de Política, Editora Assistente de Produção de Política e repórter especial do Diario de Pernambuco, num período de 15 anos, onde atuou em todas as áreas, exceto esportes. Também teve experiência de quatro anos como gerente de comunicação da Secretaria do Trabalho, Emprego e Qualificação de Pernambuco e voltou ao jornalismo para integrar a equipe do Portal da Tribuna Online como repórter.

Última atualização



Um tubarão-tigre de aproximadamente três metros, equipado com dentes serrilhados capazes de cortar como lâminas, e um tubarão-cabeça-chata, conhecido pela mordida de enorme pressão e pela capacidade de arrancar tecidos ao sacudir a presa. Foram essas duas espécies, segundo as avaliações técnicas realizadas pelo até agora, que deixaram duas vítimas mutiladas em pouco mais de 24 horas no Grande Recife.

A estudante de Direito Marcela Vitória de Lima Santos, de 19 anos, perdeu a perna direita após ser atacada em Boa Viagem. Um dia antes, um menino de 11 anos teve a perna esquerda amputada após ser mordido em Piedade.

A sequência dos casos derruba uma hipótese que circulou nas redes sociais e entre banhistas desde o primeiro incidente: a de que um único tubarão estaria rondando a costa. As evidências apontam para dois animais distintos e de espécies diferentes, ampliando o alerta para quem insiste em entrar no mar em áreas consideradas de risco.

Roleta russa nas praias

O fato de espécies diferentes estarem envolvidas indica que o risco faz parte de uma dinâmica ecológica mais ampla da costa, e não da presença ocasional de um único indivíduo. São 33 quilômetros de litoral onde os banhistas da Praia do Paiva, no Cabo, até a Praia do Farol, em Olinda, entram no mar numa roleta russa.

Tanto o tubarão-tigre quanto o tubarão-cabeça-chata podem chegar muito perto da faixa de areia, mesmo com frequências diferentes. A estudante de direito, por exemplo, estava com água na cintura quando foi atingida por uma mordida.

Tigre e cabeça-chata: espécies diferentes, hábitos diferentes



O ataque à jovem em Boa Viagem foi atribuído a um tubarão-tigre (Galeocerdo cuvier), espécie que pode ultrapassar cinco metros de comprimento, embora o exemplar envolvido no incidente tenha cerca de três metros, segundo estimativas.

Considerado um dos maiores predadores dos oceanos, o tubarão-tigre possui dentes largos, serrilhados e adaptados para cortar grandes porções de carne. É um animal oportunista, que se alimenta de peixes, tartarugas, arraias e praticamente qualquer presa que encontre.

Em entrevista à TV Tribuna PE, Danise Alves, secretária executiva do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes, o tigre tem dentes mais cortantes do que o cabeça-chata.



Já o menino de 11 anos foi atacado por um tubarão-cabeça-chata (Carcharhinus leucas), espécie menor, normalmente encontrada entre dois e três metros de comprimento. Apesar do porte inferior, é considerado por pesquisadores um dos tubarões mais perigosos do mundo por sua proximidade com áreas costeiras e estuários. A espécie que mordeu o garoto tinha 2,5 metros.

Diferentemente do tigre, o cabeça-chata costuma frequentar águas rasas, desembocaduras de rios, canais e regiões próximas à praia. Sua estratégia de ataque não se baseia apenas no corte. Ele morde a presa e a segura com os dentes serrilhados.Em seguida, movimenta a cabeça de um lado para o outro com muita força. É justamente esse movimento que aumenta o rasgo dos tecidos.

O que os dois ataques revelam

A ocorrência de dois ataques graves em sequência chama a atenção por um motivo específico: os animais envolvidos ocupam nichos ecológicos diferentes.

O cabeça-chata é frequentemente associado às áreas costeiras da Região Metropolitana do Recife. Já o tubarão-tigre costuma circular por áreas mais amplas do litoral, embora também possa se aproximar da faixa de praia, como aconteceu.

Na prática, isso significa que o risco não estaria relacionado à presença isolada de um único animal, mas à circulação simultânea de espécies distintas em um trecho historicamente monitorado pelos pesquisadores.

De acordo com Segundo Danise Alves, o período chuvoso também costuma aumentar a preocupação. A água mais turva reduz a visibilidade, dificulta a percepção dos animais e altera o comportamento de diversas espécies marinhas. Além disso, o aumento do fluxo de matéria orgânica para o mar pode atrair cardumes e, consequentemente, predadores.



Ataque em Boa Viagem deixou jovem em estado grave

Marcela Vitória de Lima Santos, estudante de Direito e moradora de São Lourenço da Mata, foi atacada na tarde de segunda-feira (1º), na altura do quiosque 19 da praia de Boa Viagem.

Segundo testemunhas, a jovem foi retirada da água pelo primo, Jonas Andrée ajudada por outros banhistas. Ela sofreu intensa perda de sangue e recebeu os primeiros socorros ainda na areia. Um médico mineiro que estava na praia ajudou a realizar um torniquete até a chegada do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).

A vítima foi levada inicialmente para o Hospital Alfa e posteriormente transferida para o Hospital da Restauração.

De acordo com o diretor-geral da unidade, Petrus Andrade Lima, ela chegou em choque hemorrágico e foi encaminhada diretamente para cirurgia de emergência. Após o procedimento, foi internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

Menino teve perna amputada após ataque em Piedade

O caso do menino de 11 anos ocorreu um dia antes, na praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes.

Ele também sofreu ferimentos gravíssimos e teve uma das pernas amputada em consequência da mordida. O Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit) informou que as análises apontaram o tubarão-cabeça-chata como responsável pelo ataque.

Pernambuco soma 84 registros desde 1992

Dados do Cemit mostram que Pernambuco contabiliza agora 84 incidentes envolvendo tubarões desde o início da série histórica, em 1992.

Boa Viagem lidera o número de ocorrências, seguida por outras áreas da Região Metropolitana. Recife e Jaboatão dos Guararapes concentram a maior parte dos registros.

A sucessão de ataques em pouco mais de um dia envolvendo duas espécies diferentes e resultando em amputações, reforça o alerta que pesquisadores repetem há décadas: as áreas sinalizadas devem ser respeitadas e a entrada no mar em locais de risco continua representando uma ameaça real.

(Matéria em atualização)

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