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INOVAÇÃO

Pioneira: médica de Pernambuco revoluciona vidas com tatuagem ocular

Manuela é a primeira do Nordeste a realizar a cirurgia de ceratopigmentação, técnica que decidiu aprender para ajudar o porteiro do seu prédio

Pioneira: médica de Pernambuco revoluciona vidas com tatuagem ocular
- Seu João no antes e depois da cirurgia. A foto do lado direito foi tirada 10 dias depois do procedimento e a tendência é que o olho fique ainda com melhor aspecto
Foto de perfil de Aline Moura

Aline Moura

Aline Moura é formada pela UFPE, trabalhou como repórter de Política, Editora Assistente de Produção de Política e repórter especial do Diario de Pernambuco, num período de 15 anos, onde atuou em todas as áreas, exceto esportes. Também teve experiência de quatro anos como gerente de comunicação da Secretaria do Trabalho, Emprego e Qualificação de Pernambuco e voltou ao jornalismo para integrar a equipe do Portal da Tribuna Online como repórter.

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Seu João Alfredo, 66 anos, vestirá o uniforme e se olhará no espelho. Pela primeira vez em 15 anos, ele não esconderá o rosto atrás dos óculos para trabalhar. O reflexo que o encara agora tem dois olhos castanhos. Um deles, antes cego e esbranquiçado, ganhou cor novamente.

A transformação veio através de uma tatuagem ocular, um milagre da medicina e da coragem. Nesta quarta-feira (12), ele voltou ao trabalho no prédio onde é porteiro, nos Aflitos, Zona Norte do Recife. Mas agora, voltou diferente. Sente-se inteiro.

A transformação veio pelas mãos da oftalmologista Manuela Tenório. No Hospital Santa Luzia, no último dia 7, ela fez a tatuagem ocular que devolveu ao olho esquerdo e esbranquiçado de seu João a cor que um dia teve. Ele já não precisa mais se esconder.

“Eu já estou me sentindo outro João, com a autoestima lá em cima, graças a Deus”, ele diz, emocionado. “Foi uma bênção na minha vida”.

O encontro que mudou tudo



Seu João e a médica se conheceram no prédio onde a médica mora em 2024. Ela percebeu o desconforto de seu João, sempre por trás dos óculos escuros. Ele perdeu a visão do olho esquerdo em 2009, depois de uma conjuntivite severa e outras complicações. Desde então, o espelho se tornou inimigo. A insegurança virou companheira.

Ao notar sua angústia, Manuela decidiu agir. Inspirada por ele, buscou aperfeiçoar a técnica da ceratopigmentação com alguns dos melhores especialistas do Brasil. Aprendeu com Dr. Alexandre Costa, o Dr. Xis, e com Dr. Giovani Garotti no Sudeste. E agora, tornou-se pioneira no Nordeste.

A médica conseguiu articular para que a tatuagem ocular feita em seu João, que no Brasil custa entre R$ 10 mil a R$ 15 mil, fosse feita sem custos para o paciente. Uma forma de gratidão, que também voltou para ela da mesma forma.

A cirurgia foi feita de forma meticulosa. Primeiro, a oftamologista fez a preparação da superfície ocular com remoção de tecidos e cauterização de vasos. Depois, a pigmentação com uma caneta automatizada, que faz microperfurações. O resultado é um olho renovado, sem a brancura que tanto incomodava o paciente.

O dia em que o espelho sorriu



No dia da consulta de retorno, nesta última segunda-feira (11), seu João chorou. Faz mais de uma semana, aliás, que ele chora de alegria. “Eu perguntei se podia chorar. E chorei. Era uma vitória muito desejada”.

Diante do espelho, tocou o próprio rosto. Olhou-se com espanto e alegria. “Aquela baixa estima desapareceu. Graças a Deus”.

A mudança não passou despercebida. Vizinhos, amigos e familiares repararam. “Meu vizinho, Seu Geraldo, veio na minha casa com a esposa dele e disse: ‘Foi maravilhosa’. Até chorei”, conta.

A repercussão cresce. A cirurgia, antes pouco conhecida, está conquistando espaço entre os oftalmologistas brasileiros.

“Acredito que será um procedimento mais comum com o tempo”, avalia Dra. Manuela. Mas há desafios: “O maior risco é a perfuração ocular. O exame cuidadoso no pré-operatório é essencial”.

A confiança reencontrada



Seu João não voltou a enxergar pelo olho esquerdo. Mas voltou a se ver. “A cirurgia não melhora a acuidade visual, mas devolve a autoestima”, explica a médica.

Ela sabe o peso desse impacto. “Ouvi de um paciente que o olho branco não incomodava até os netos nascerem. ‘Eles têm medo de mim’, ele disse. Poder mudar isso não tem preço”.

No Brasil, a ceratopigmentação é permitida apenas para olhos sem prognóstico visual. Em países como Estados Unidos e Espanha, já é usada também para alteração estética em olhos saudáveis. “A indicação correta é fundamental. É preciso avaliar bem cada caso”, alerta a médica.

Ela quer levar a técnica a mais pacientes. “Quero fazer parte da transformação de muitas pessoas, se Deus permitir”.

Seu João também tem planos. “Deus no céu e ela aqui na Terra”. Sem os óculos escuros, ele caminha confiante. O espelho, agora, é aliado.

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