O tempo, para Michelly Demézio, 24 anos, não é contado pelas horas do relógio, mas pela cadência da agulha que perfura o tecido. Foram 20 dias de um trabalho quase ritualístico, em um diálogo silencioso entre a mão e a matéria. Quarenta e cinco estrelas aplicadas uma a uma, com a precisão de quem sabe que cada ponto é um rito de passagem.
O resultado, que desfilou sob os refletores do Brasil Fashion Designers (BFD) 2026, em Caruaru – inserido na programação da AGRESTE TEX – não era apenas um vestido de festa. Era um mapa astral de resistência que lhe rendeu o 1º lugar do evento, inspirado no tema “O Choro da Bossa Nova embala a MPB”.
Cada estrela costurada por Michelly representava um ano do nascimento de Elis Regina, a “Pimentinha” que lançou o álbum “Falso brilhante” em 1976, numa alusão a um país sob censura e ditatura militar – o mais vendido de sua carreira.
Cinquenta anos depois, a estudante de Nazaré da Mata, município localizado a 54 quilômetros do Recife, na Zona da Mata Norte, respondeu com a indumentária “Brilho Natural”, uma releitura do modelo usado pela cantora nos anos 1970. Segundo Michelly, a nova peça “reflete o momento feminino que a mulher precisa brilhar mesmo sem alguém permitir”.
“A vida que aprenda a lidar comigo”
O look de estrelas, que fechou o desfile de sua coleção “Corpo, ritmo e liberdade”, deu um trabalho enorme à estudante de designer de moda da Faculdade Senac Recife. “São 45 estrelas no vestido que representam o ano de nascimento de Elis Regina (1945). Esse foi o meu preferido. Meu coração inteiro estava nele porque queria, de verdade, que ele brilhasse muito e que a modelo se destacasse muito”, revela Michelly.
A vitória no BFD, superando cerca de 100 inscritos, foi o reconhecimento de que o design, quando atravessado pela verdade da origem, rompe a barreira do figurino para se tornar manifesto.
“É a minha forma de dizer: ‘A vida que aprenda a lidar comigo’”, afirma, sorrindo, a estudante, que já é empreendedora e faz peças sob encomenda. Ela fala com a segurança de quem já operou caixas de supermercado para conquistar os próprios sonhos. Primeiro, pagar a faculdade de Administração para, só então, ingressar no caminho das passarelas.
O mapa da resistência em Nazaré da Mata
A beleza por trás da beleza de Michelly começa muito antes da passarela, por isso a importância de contar sua história na coluna Pernambuco que encanta. Começa no chão de Nazaré da Mata, a “Terra do Maracatu”, onde o barro e o brilho das lantejoulas dos caboclos de lança se misturam ao cheiro da cana-de-açúcar.
Crescer nesse epicentro de cultura popular moldou o olhar da jovem nascida em 13 de agosto de 2001. Para ela, a cor e o movimento nunca foram conceitos abstratos de livros de moda, mas o cenário da janela de casa.
A mãe Dona Nem, sua primeira inspiração
Nessa geografia de afetos e suor, a figura central é Maria das Dôres, a Dona Nem. Aposentada que dedicou anos como merendeira de escola pública municipal, ela nunca deixou de ser costureira. Foi no barulho da máquina de costura da mãe que Michelly entendeu a moda como linguagem de cuidado e, principalmente, de sobrevivência.
O corpo como território sensível
Essa sobrevivência materna é a espinha dorsal da coleção vencedora, “Corpo, Ritmo e Liberdade”. Michelly não cria apenas para a vitrine; cria para a história. Ela investiga o corpo feminino como um território sensível, compreendendo a roupa como extensão da música e da presença histórica.Com técnicas manuais e de alfaiataria, o seu desfile foi uma trilogia de significados:
O Look 1, inspirado no Chorinho brasileiro, trouxe a estética da ausência. Era a representação visual de um tempo onde as mulheres eram proibidas de participar das rodas de música.
O Look 2, sob a influência da Bossa Nova, carregou a adaptação para a sobrevivência em tempos de crescimento industrial. Nele, a frase “PERMANECEREI VIVA” funcionou como um amuleto, um grito silencioso costurado no tecido branco em homenagem à mãe.
Já o Look 3, o preferido da autora, foi a celebração do “brilho natural” de Elis e das mulheres, aquele que nasce de dentro, que ninguém pode apagar. “Não se trata mais de algo imposto, mas do momento feminino que precisamos reforçar, o de brilhar mesmo sem alguém permitir que aconteça”, explica.
Da ladeira de Nazaré ao Baile da Vogue
Embora ainda seja estudante — formando-se agora em julho pelo Senac Recife —, Michelly já empreende com o rigor de quem entende o peso do mercado. No início de 2026, seu talento manual cruzou as divisas de Pernambuco e chegou ao Baile da Vogue, em São Paulo.
Ela foi a artesã responsável pela execução quase 100% manual do look usado pela influenciadora Robertita, eleita a influenciadora de moda do ano pelo FFW. Ver sua técnica, forjada no interior, ser premiada indiretamente na capital paulista foi a prova de que a competência não depende de distância.
Michelly forja um caminho pavimentado com disciplina férrea, música, cores e ideias. Agora,caminha até o reconhecimento internacional — embarcando para o Peru em novembro. “Acho que dificuldades foram muitas. É até difícil dizer qual foi a pior pois sempre tive que me virar com tudo, no instinto de sobrevivência. Até hoje, nada é fácil. E como trabalho sozinha, tudo envolve às vezes não dormir para entregar o trabalho feito no outro dia. Estudar e trabalhar também não é fácil”, desabafa, mas com orgulho.
Enquanto pagava os estudos de Administração operando o caixa de um supermercado, Michelly não apenas sonhava; ela planejava. O pragmatismo da administração se fundiu à poesia da moda. Hoje, ela já desenha o próximo passo: o concurso nacional “Sou de Algodão”, em São Paulo, com a coleção “Armadura de Tubarão”, que não terá spoiler.
A seleção será no dia 23 de maio. É um projeto complexo, repleto de drapeados, feito sob pressão. Ainda nesta última quarta-feira (6), ela enviou uma peça para avaliação. Passou dias se aperfeiçoando em acabamentos. “E também fui finalizando enquanto o carro andava em uma ladeira”, descreve, com a metáfora perfeita de quem nunca teve o luxo da estagnação.
O legado do servir
A vitória no BFD, superando candidatas talentosas como Ana Carina Brito e Clara Albuquerque, é apenas o primeiro degrau de um projeto maior. Michelly quer ser pesquisadora, quer ser professora, quer formar novos olhares. Como professores que abriram seus caminhos, a exemplo de Lúcia Halline (professora de literatura), Nádia Isabel (professora de história), Eliane Rodrigues (principal referência feminista) e a sua própria mãe, repetindo a frase: “reconheço todos os períodos de luta que ela passou em sua vida e, mesmo assim, permaneceu viva”.
Para Michelly, que faz roupas sob encomenda e feminina, a moda é uma ferramenta social. “Desde mais nova, carrego uma frase que me guia muito: ‘Só servindo, as pessoas servem’. Então, pra mim, crescer na moda também envolve isso; criar, mas também abrir espaço, apoiar outras pessoas e vestir mulheres em suas batalhas diárias. Sou grata às minhas professoras da graduação de moda na Faculdade Senac pois lapidaram muitas das minhas habilidades profissionais”.
Ao final da narrativa, o que resta não é apenas o troféu de primeiro lugar ou a viagem para Lima, no Peru. É a imagem da jovem de Nazaré da Mata que, entre o bar do seu pai, seu Mário, e as linhas de Dona Nem, bordou estrelas para iluminar o próprio caminho. Se a vida tentou impor mais ladeiras do que retas, Michelly respondeu com o ritmo do seu próprio destino. E Pernambuco, que se encanta com sua força, agora assiste ao mundo aprender a lidar com esse brilho que é, por essência, natural.
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