- Pernambuco, PE 30°C

Pernambuco 30°C

Publicidade: Combate os sintomas da gripe
PERNAMBUCO QUE ENCANTA

Maciel Melo, doutor do Sertão que a universidade aprendeu a escutar

UFPE concede Doutor Honoris Causa a Maciel Melo, reconhecendo o saber sertanejo, a força do forró e a poesia de quem nunca abriu mão do próprio verso

Maciel Melo, doutor do Sertão que a universidade aprendeu a escutar
- Com mais de quinhentas canções já gravadas por ele e por outros intérpretes, Maciel Melo nunca tratou a criação como inspiração rara
Foto de perfil de Aline Moura

Aline Moura

Aline Moura é formada pela UFPE, trabalhou como repórter de Política, Editora Assistente de Produção de Política e repórter especial do Diario de Pernambuco, num período de 15 anos, onde atuou em todas as áreas, exceto esportes. Também teve experiência de quatro anos como gerente de comunicação da Secretaria do Trabalho, Emprego e Qualificação de Pernambuco e voltou ao jornalismo para integrar a equipe do Portal da Tribuna Online como repórter.

Última atualização


Há títulos que não cabem em molduras. O de Doutor Honoris Causa, concedido pela Universidade Federal de Pernambuco a Maciel Melo nesta quinta-feira (18), é um deles. Não se trata apenas de um gesto institucional, nem de um diploma simbólico. É a universidade, espaço historicamente marcado pelo saber formal, abrindo alas para um conhecimento que nasceu fora dos muros, nos becos da memória, no chão do nosso Sertão, no canto onde canta o sabiá.

Maciel não chega à UFPE como quem pede licença. Chega como quem sempre esteve ali — ainda que por outras vias. O que a academia faz agora é reconhecer que há saber no verso, ciência na cantoria, filosofia na persistência de quem nunca aceitou que mudassem seu canto. Hoje, o palco da coluna Pernambuco que encanta é somente dele.

O caboclo sonhador não negocia o verso

“Não queira mudar meu verso / Se é assim não tem conversa.”

O recado, eternizado em Caboclo Sonhador, vale também para a trajetória de Maciel Melo. Natural de Iguaraci, no Sertão do Pajeú, ele construiu uma carreira inteira sem abrir mão da matriz sertaneja. Nunca diluiu o Nordeste para caber no mercado, nem traduziu o Sertão para torná-lo palatável. Preferiu ser fiel — e isso cobra um preço. Mas também constrói legado.

São mais de 20 álbuns lançados, dezenas de composições gravadas por nomes como Elba Ramalho, Dominguinhos, Flávio José, Xangai, Geraldo Azevedo, Fagner e Zé Ramalho. Canções que atravessaram gerações sem perder o cheiro da terra.

Em 1991, Maciel Melo alcançou reconhecimento internacional ao ficar em segundo lugar no Grammy, na categoria Traditional Folk. O feito se soma a uma trajetória marcada menos pela enumeração de prêmios e mais pela força contínua da obra. Canções que brotam da experiência sertaneja, sustentadas pelo tempo, pelo trabalho constante e pela permanência no imaginário popular.

Um saber que não cabe só na música

Com mais de quinhentas canções já gravadas por ele e por outros intérpretes, Maciel Melo nunca tratou a criação como inspiração rara. Para ele, compor é ofício que não conhece pausa. Enquanto muita gente celebra o que já foi feito, Maciel segue produzindo — escrevendo, musicando, lançando — como quem sabe que o verso, para continuar vivo, precisa andar.

Seria impreciso citar Maciel apenas como compositor. Ele também escreve. Crônicas, memórias, poesia. Transita pela televisão, pelo cinema, por projetos culturais que insistem em afirmar o Nordeste como centro, não como margem. Seu trabalho é atravessado por personagens e referências que se repetem como um rosário íntimo: Padre Cícero, Lampião, a família, o passado que não passa.

É um tipo de conhecimento que não se aprende em bibliografia obrigatória, mas na escuta. Um saber acumulado no tempo, transmitido pela oralidade, pela experiência e pela observação atenta do mundo. Ao conceder o título de Doutor Honoris Causa, a UFPE reconhece que esse repertório também produz pensamento — e produz identidade.

Abram alas para o novo… doutor

“Deixem meu verso passar na avenida.”

O verso passou. E chegou à universidade. O título que Maciel Melo recebe não o transforma em algo que ele não era. Apenas nomeia, com solenidade acadêmica, o que o povo já sabia: há mestres que nunca precisaram de cátedra.

Num tempo em que a cultura popular ainda precisa se justificar, o gesto da UFPE tem peso simbólico. Afirma que o Sertão pensa. Que o forró formula. Que a poesia nordestina também é produção de conhecimento. E que Maciel Melo, esse caboclo sonhador, sempre foi doutor — agora, com diploma.

Mais Lidas

Ver tudo ›