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Uvas de volta ao berço: Itamaracá aprova Título de Cidadão para biólogo pioneiro

Câmara de Itamaracá concede Título de Cidadão ao biólogo Alessandro Albertini, resgatando a tradição vinícola da ilha e sua identidade histórica.

Uvas de volta ao berço: Itamaracá aprova Título de Cidadão para biólogo pioneiro
- Onde o calor de Itamaracá contraria a lógica, Alessandro Albertini fez brotar o impossível
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Aline Moura

Aline Moura é formada pela UFPE, trabalhou como repórter de Política, Editora Assistente de Produção de Política e repórter especial do Diario de Pernambuco, num período de 15 anos, onde atuou em todas as áreas, exceto esportes. Também teve experiência de quatro anos como gerente de comunicação da Secretaria do Trabalho, Emprego e Qualificação de Pernambuco e voltou ao jornalismo para integrar a equipe do Portal da Tribuna Online como repórter.

Última atualização



A Câmara Municipal da Ilha de Itamaracá aprovou a concessão do Título de Cidadão ao biólogo Alessandro Albertini nesta terça-feira (17). Ele resgatou uma história esquecida de vinícolas da ilha, embora eternizada no brasão do município, que tem escudo de prata, adornado por cachos de uvas, folhas e duas asas. Uma imagem que remete a 1534, durante a colonização portuguesa.

Após a repercussão da coluna Pernambuco que encanta, que trouxe a jornada de Alessandro de forma exclusiva, o projeto, de autoria da vereadora Silvana Celestino Pereira, a Duzinha (Agir), de 39 anos, homenageou o responsável por restabelecer o plantio de videiras na Ilha. Alessandro recuperou a uva Bastardo, variedade extinta em solo brasileiro há cerca de 500 anos. A entrega oficial do título deve ocorrer no próximo semestre, em sessão solene. Eis o motivo de Alessandro, novamente, ser tema da coluna Pernambuco que encanta.

O resgate de uma identidade cravada no brasão de Itamaracá



A iniciativa da vereadora Duzinha traz à tona a memória histórica e afetiva da ilha, ligada ao continente pela ponte Presidente Getúlio Vargas, por onde passam as águas do canal Santa Cruz. A homenagem de Duzinha resgata a identidade da Ilha, estampada em uma bandeira que já celebrava os frutos da terra muito antes de Alessandro chegar. Em 2019, o biólogo trocou a estabilidade pelo desafio de plantar videiras sob o sol de Itamaracá. E seu solo já produz uvas e vinho.

O biólogo, que também é mestre em bioquímica, doutor em ciências biológicas e com dois pós-doutorado na bagagem insistiu em erguer uma vinícola onde os termômetros chegam a bater 38 graus. Decidiu contrariar qualquer previsão técnica. Esse Título de Cidadão, portanto, é um brinde ao resgate das uvas trazidas pelos portugueses a Pernambuco no século 16 e apreciadas pelos holandeses no século 17.

Na bandeira de Itamaracá, o escudo é sustentado por uvas e folhas, como se o próprio chão da ilha quisesse acolher o símbolo e, agora, abraçar Alessandro. A coroa do brasão lembra que Itamaracá tornou-se Capitania Hereditária. É filha de reis e também destino de náufragos. Mas alça voo com suas duas asas para novos horizontes, enquanto uma estrela solitária brilha como um farol para quem chega de fora e para quem é da casa e ainda não viu.



Veja, também, os detalhes de como essa jornada começou: Vinho e maresia: Alessandro Albertini resgata uva extinta há 500 anos em Itamaracá

Do pós-doutorado ao segredo da Vinícola Albertini sob a terra

A homenagem de Duzinha reconhece o esforço do biólogo, que deixou para trás dois pós-doutorados quando decidiu mudar de vida e levar seus afetos e sonhos para a Ilha. Ele largou a academia para morar em Itamaracá e erguer a Vinícola Albertini — a Videira que Dança. De forma pioneira, trouxe de volta ao Brasil uma uva que não era plantada por aqui há cerca de 500 anos.

Alessandro já produz outros vinhos. Porém, a maior expectativa é o que está sendo fermentado, feito com a uva Trousseau, também conhecida como Bastardo. Essa videira nasceu no frio das montanhas da França, perto da Suíça. Os portugueses a trouxeram para Pernambuco pela sua resistência, resultando em um vinho que volta a ser feito no estado de forma artesanal, sem agrotóxicos.

A safra da uva Bastardo já deixou o pé, enquanto novas uvas começaram a nascer. No entanto, este vinho de Alessandro Albertini permanece um segredo sob o chão da Ilha. 

Alessandro decidiu maturar a bebida em ânforas, num buraco de 2 metros de profundidade e ainda enterrá-las – uma técnica milenar que protege o líquido do calor e alimenta a curiosidade de especialistas e moradores. 

Alma goianense e o destino da vitivinicultura na Ilha

A história de Alessandro casa com o escudo da Ilha, no qual uma coroa se ergue, lembrando que Itamaracá nasceu em capitania, mas caminha livre desde sua emancipação, em 1º de janeiro de 1954. Com o Título de Cidadão, a Ilha reconhece no bilóglo o fôlego que precisava para estimular um reencontro com sua vocação econômica e histórica. E de forma sustentável.

É tanta coincidência nessa trajetória de Alessandro que, antes de falecer, o seu tio-avô, Luiz Gomes Corrêa de Arruda, fez diversos diplomas para pessoas que receberam o Título de Cidadão de Itamaracá. E agora, o sobrinho-neto – que guarda no nome e no afeto a memória do querido parente – é o próprio homenageado.

Alessandro Albertini nasceu no Recife, mas aprendeu a ler em Goiana, na Mata Norte do estado. Fez lá seus melhores amigos e nunca mais voltou a viver na capital ou pertencer a outras cidades onde morou, como Olinda. Depois de Goiana, seu coração e sonhos pousaram em Itamaracá, onde queria ver o mar do alto e plantar suas videiras, que ficam a 800 metros do Atlântico, a menor distância entre uma videira e o mar no Brasil.

“Eu fiquei emocionado ao saber do título, e feliz! Antes minha frase era: ‘coração recifense, alma goianense e apaixonado por Itamaracá’. Mas, desde 2019, eu sinto os três sentimentos no meu modo de vida de agricultor e produtor de vinho no berço da Vitivinicultura do Brasil: a Ilha de Itamaracá!”, afirmou. “Agora eu sou itamaracaense. Eu sou itamaracaense!”, continuou, com orgulho de pertencer aquela terra.

O biólogo, também considerado por esta coluna como um alquimista, disse que vai apresentar uma sugestão para estimular pessoas da Ilha a cultivarem ao menos uma videira em seus jardins. “Se eu morrer, o projeto morre junto”, disse, mas sem querer apostar na ideia. Ele pensa na continuidade, no amanhã.

Reconhecimento e o futuro do turismo em Itamaracá



Para Duzinha, que está no primeiro mandato, “conceder este título é reconhecer quem está resgatando uma tradição que faz parte da nossa história e pode transformar o nosso futuro. O cultivo de videiras não é apenas agricultura, é cultura, geração de renda, incentivo ao turismo e fortalecimento da identidade de Itamaracá”, declarou.

A história, afinal, é como o vinho de Alessandro: precisa de tempo, de barro e de chão para amadurecer. Ao aprovar este Título de Cidadão, Itamaracá abraça o homem que não teve medo do calor nem de enfrentar o esquecimento. Alessandro não resgatou apenas a uva Bastardo; ele devolveu o sentido às uvas purpúreas que sempre estiveram na bandeira do “Reino Encantado”. O que era símbolo estático, agora é vida brotando da terra, sob o olhar atento do Atlântico.

“Meu sangue está aqui”, diz biólogo

Saiba mais:

Vinho Bastardo de Itamaracá: a rara promessa já é aguardada por grandes críticos

Quer conhecer a Vinícola Albertini (a Videira que dança)?

Serviço:

Endereço: Avenida Assunção, 91, Forte de Orange (Ilha de Itamaracá)

O que é necessário: Hora marcada com antecedência

Valor: De 1 a 4 pessoas com direito a degustação (R$ 100 por cada)

Valor: Grupo de de 5 a 10 pessoas com direito a degustação (R$ 80 por cada)

Valor dos vinhos: Variam de R$ 150 a R$ 500

Contatos: 81-99727-4383(Alessandro Albertini)

81-98116-2362 (Guia turística Danny)

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