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IGARASSU

Criminosos deixam carta a Raquel Lyra e prometem banho de sangue em presídio

Os autores do incêndio se dizem indignados com suposta cobrança de propina na unidade de Igarassu e até com o preço da maconha

Criminosos deixam carta a Raquel Lyra e prometem banho de sangue em presídio
- Ônibus queimado em Cajueiro Seco
Foto de perfil de Aline Moura

Aline Moura

Aline Moura é formada pela UFPE, trabalhou como repórter de Política, Editora Assistente de Produção de Política e repórter especial do Diario de Pernambuco, num período de 15 anos, onde atuou em todas as áreas, exceto esportes. Também teve experiência de quatro anos como gerente de comunicação da Secretaria do Trabalho, Emprego e Qualificação de Pernambuco e voltou ao jornalismo para integrar a equipe do Portal da Tribuna Online como repórter.

Última atualização


Com informações de Rafaella Pimentel



Presos em liberdade provisória ou amigos de presidiários deixaram uma carta endereçada à governadora Raquel Lyra após incendiar um ônibus no Terminal de Cajueiro Seco, em Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana do Recife. O crime aconteceu no fim da tarde desta terça-feira (8) e expôs — com uma mistura de denúncia e cinismo — o submundo que liga as ruas aos pavilhões do Presídio de Igarassu.

O coletivo da empresa Caxangá havia acabado de encerrar a viagem quando um homem subiu no veículo, espalhou gasolina nos assentos e ateou fogo. Fugiu em seguida na garupa de uma moto, sem ser identificado. O motorista do coletivo conseguiu registrar boletim de ocorrência e entregou aos investigadores a carta deixada pelos criminosos — uma folha de caderno escrita à mão, dirigida à governadora, repleta de erros, de pedido de socorro e absurdos, como reclamação do preço da maconha vendida lá dentro.

“Corrupção voltou ao presídio”

No texto, o autor reclama de suposta corrupção dentro da unidade prisional. Diz que presos estariam sendo obrigados a pagar R$ 10 “de taxa” para ter direito à faxina, e acusa “chaveiros” — detentos com poder sobre os demais — de negociar vantagens com a conivência do chefe de segurança.

A carta também cita a venda de maconha dentro do presídio, ao preço de R$ 50, e termina com uma ameaça velada para reforçar as denúncias: “Se isso não for resolvido, vai acontecer um banho de sangue.” O tom é de denúncia, mas o conteúdo revela a naturalização do crime — o preso indignado com a corrupção e com o alto preço da droga que ele próprio compra. Mas a ameaça continua sendo crime.

A carta foi encaminhada pelo Tribuna Online à Secretaria de Defesa Social (SDS), mas, até o fechamento desta matéria, não houve resposta.

Reação imediata dos rodoviários



Logo após o incêndio, o Sindicato dos Rodoviários de Pernambuco decidiu recolher os veículos que circulam em Cajueiro e em outras três linhas próximas — Sítio Novo/Rio Doce, Chão de Estrelas e Campina do Barreto. Treze ônibus deixaram de rodar até o fim da noite, e a operação só foi normalizada na manhã desta quarta-feira (9).

“A gente foi solicitado e tivemos a iniciativa de ir para o terminal de imediato, dar apoio não só ao motorista, como a toda a categoria. Por segurança dos rodoviários e até mesmo dos passageiros, decidimos recolher as linhas”, afirmou Carlos Medeiros, secretário-geral do Sindicato dos Rodoviários. Uma decisão segura, mas que prejudicou os os passageiros que só tinham o cartão Vem como garantia de voltar para casa, dependendo destes ônibus.

“Não é o primeiro atentado. Já teve outros ônibus incendiados, como no Ibura, que também deixaram carta falando sobre o presídio. Cabe à segurança pública tomar providência, mas quem acaba pagando o preço é o rodoviário e o usuário.”

Um recado do submundo



Segundo o apresentador da TV Tribuna PE, Marwyn Barbosa, que exibiu a carta durante o programa, o texto denuncia um esquema de cobrança de propinas e tráfico de drogas nos pavilhões J e B do Presídio de Igarassu. Também cita agentes de saúde supostamente envolvidos na entrada de drogas.

A carta menciona nomes e repete práticas já investigadas pela Polícia Federal na Operação La Catedral, deflagrada anos atrás, quando agentes e um ex-diretor da unidade foram presos por facilitar a entrada de ilícitos.

O apresentador resumiu que os suspeitos do ataque ao ônibus não roubaram nada, não queriam dinheiro nem celulares. Chegaram de moto, tocaram fogo e deixaram a carta — uma espécie de manifesto do crime.

A polícia investiga

O ônibus incendiado foi levado para o Departamento de Repressão aos Crimes Patrimoniais (Depatri), em Afogados, onde passará por perícia. A Polícia Civil informou, em nota, que instaurou inquérito para apurar o caso.

A Polícia Militar reforçou as rondas na área de Cajueiro e nos terminais próximos. Já a Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização (Seres), procurada pela reportagem, não se pronunciou sobre as denúncias.

Entre a denúncia e o delírio





O episódio mistura absurdo e tragédia, um retrato do Recife profundo — onde até o crime escreve cartas. O tom quase teatral dos incendiários é surreal: o criminoso que se considera vítima, o preso que pede justiça e o desconto no preço da maconha.

Enquanto o ônibus queimava no terminal, um mundo subterrâneo escrevia, com letras tortas e ameaças mal disfarçadas, o roteiro da sua própria decadência.

Veja matéria de Rafaella Pimentel no JT1, da TV Tribuna PE/Band



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