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PETROLINA

O rastro de sangue no Quati: o feminicídio que a vizinhança viu nascer

O machismo faz mais uma vítima: o companheiro mata Maria do Socorro dentro de casa; especialista aponta falência do sistema preventivo

O rastro de sangue no Quati: o feminicídio que a vizinhança viu nascer
- Maria do Socorro Cleonice de Oliveira, de 46 anos, morta nesta última quinta-feira
Foto de perfil de Aline Moura

Aline Moura

Aline Moura é formada pela UFPE, trabalhou como repórter de Política, Editora Assistente de Produção de Política e repórter especial do Diario de Pernambuco, num período de 15 anos, onde atuou em todas as áreas, exceto esportes. Também teve experiência de quatro anos como gerente de comunicação da Secretaria do Trabalho, Emprego e Qualificação de Pernambuco e voltou ao jornalismo para integrar a equipe do Portal da Tribuna Online como repórter.

Última atualização


O silêncio na Rua 4 do bairro Quati, em Petrolina, foi rompido não apenas pelos gritos, mas pelo peso seco de um pedaço de madeira contra a vida. Dentro de um quarto fechado, onde o afeto deveria ser morada, Raimundo Júnior, de 35 anos, empunhou um pau para encerrar os dias de Maria do Socorro Cleonice de Oliveira, de 46 anos.

O homem, que dividia o teto com a vítima há apenas quatro meses, confessou o crime à Polícia Militar na noite desta quinta-feira (7). Ele não apenas a matou; ele destruiu o rosto e a dignidade de quem, segundo a irmã, Maria do Carmo, já vivia sob o jugo de um comportamento violento. 

O cenário encontrado pelos policiais era a fotografia de uma tragédia anunciada. Vizinhos relatam que, nos parcos 120 dias de convivência sob o mesmo teto, o relacionamento abusivo era matéria exposta. Maria do Socorro era prisioneira de uma rotina de ciúmes e controle, um roteiro que se repete nas estatísticas policiais de Pernambuco com a precisão de um relógio quebrado. Ele já tinha antecedentes criminais na Lei Maria da Penha. E alegou, em depoimento, que ela o havia traído (versão dele sem confirmação).

A posse como combustível da morte

O caso de Petrolina expõe as vísceras do machismo estrutural. Segundo estudos do Dr. Sandro Sayão – professor da UFPE e pesquisador sobre violência, o feminicídio não nasce no golpe – mas na ideia de propriedade. Para o doutorado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e pós-doutorado pela Université de Paris, o agressor não enxerga a mulher como um sujeito, mas como um objeto de sua posse. O ciúme, nesse contexto, não é um excesso de amor, mas a manifestação de um poder que, quando desafiado, recorre à eliminação física do outro.

A curta duração do convívio na mesma casa — apenas quatro meses — reforça o que mestres em sociologia da região apontam como o “ciclo de isolamento”. O agressor ocupa o espaço da vítima, afasta os conselhos familiares, como os que Maria do Carmo tentou dar à irmã, e estabelece uma ditadura doméstica. Em Pernambuco, o feminicídio ainda é uma chaga aberta que desafia as políticas públicas de acolhimento.

A justiça diante da confissão

Raimundo Júnior não negou o ato. Diante da autoridade policial, admitiu o feminicídio. A Polícia Civil de Pernambuco, por meio da 25ª Delegacia de Homicídios de Petrolina, formalizou a prisão em flagrante. “O suspeito foi capturado e conduzido à delegacia para os procedimentos legais, ficando à disposição da Justiça”, informou o órgão em nota oficial. Enquanto o processo segue, a Rua 4 tenta digerir o horror de ter tido, entre seus muros, o palco de um crime que a sociedade ainda não aprendeu a evitar.

Saiba onde buscar ajuda e como denunciar a violência contra a mulher em Pernambuco

Romper o ciclo da violência exige apoio e informação segura. Em Pernambuco, existem canais específicos que funcionam 24 horas para acolher, orientar e proteger mulheres em situação de risco.

Canais de Emergência e Denúncia

190 (Polícia Militar): Para situações de emergência imediata. Se a agressão está acontecendo ou acabou de ocorrer, ligue imediatamente.

180 (Central de Atendimento à Mulher): Canal nacional gratuito e anônimo. Oferece orientação sobre direitos e serviços públicos, além de registrar denúncias que são encaminhadas aos órgãos competentes.

0800 281 8187 (Ouvidoria da Mulher de PE): Canal estadual específico para orientação e acolhimento. A ligação é gratuita.

Onde registrar a ocorrência

Em Pernambuco, a mulher pode procurar qualquer delegacia, mas o atendimento especializado ocorre nas Delegacias da Mulher (DEAM). No Recife e em algumas cidades do interior, unidades como a de Santo Amaro funcionam em regime de 24 horas.

Recife: Rua do Pombal, Santo Amaro (Plantão 24h).

Petrolina: Rua Castro Alves, 57, Centro.

Caruaru: Avenida Portugal, s/n, Universitário.

Jaboatão dos Guararapes: Estrada da Batalha, s/n, Prazeres.

Delegacia pela Internet

Caso não haja violência física imediata e a mulher precise registrar ameaça ou injúria, é possível utilizar a Delegacia pela Internet da Secretaria de Defesa Social de Pernambuco (www.sds.pe.gov.br).

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