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CARNAVAL 2026

“Minha realização”: pai e braço direito de Leopoldo Nóbrega visita o Galo de maca

Aos 74 anos e internado há um mês, braço direito e pai do artista Leopoldo Nóbrega emociona o Recife ao visitar a escultura em ambulância

“Minha realização”: pai e braço direito de Leopoldo Nóbrega visita o Galo de maca
- Momento em que a família se reuniu dentro da ambulância, já perto da saída de seu Jurandir
Foto de perfil de Aline Moura

Aline Moura

Aline Moura é formada pela UFPE, trabalhou como repórter de Política, Editora Assistente de Produção de Política e repórter especial do Diario de Pernambuco, num período de 15 anos, onde atuou em todas as áreas, exceto esportes. Também teve experiência de quatro anos como gerente de comunicação da Secretaria do Trabalho, Emprego e Qualificação de Pernambuco e voltou ao jornalismo para integrar a equipe do Portal da Tribuna Online como repórter.

Última atualização


Com informações de Simone Santos



O som da sirene que cortou o mormaço da Ponte Duarte Coelho nesta quinta-feira (12) não anunciava uma emergência clínica, mas o cumprimento de uma promessa de vida. Entre o vaivém de foliões que já ensaiavam os primeiros passos de frevo e o brilho das penas sintéticas do gigante de 32 metros, uma ambulância vermelha e branca estacionou. Dentro dela, sobre uma maca, estava Jurandir Nóbrega. O homem que, desde 2019, é o braço direito, o suporte técnico e a marreta silenciosa por trás das mãos do filho, o multiartista Leopoldo Nóbrega.

Jurandir está internado há exatos trinta dias. O corpo pedia repouso, mas o espírito exigia o asfalto. Ele “aperreou” o hospital, como descreveu a filha e produtora executiva Germana Xavier, até que a equipe médica cedesse. O desejo era um só: ver o Galo de pé. O hospital esperou o momento exato de estabilidade clínica para permitir que o patriarca dos Nóbrega testemunhasse o triunfo do filho e de tantas mãos anônimas. Foi uma operação de guerra movida pelo afeto.

A logística da emoção na Duarte Coelho



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A cena na ponte foi um balé de cuidado e urgência. A repórter Simone Santos e o repórter cinematográfico Marcondes Aguiar acompanharam o momento exato em que as portas traseiras do veículo foram abertas. O ar do Recife, carregado de expectativa, invadiu a unidade móvel. Quando a maca deslizou pelos trilhos metálicos, a emoção se impôs entre os familiares presentes. O burburinho da largada do Carnaval pareceu baixar o volume por alguns instantes.

A segurança era rigorosa. Máscaras no rosto, luvas e a orientação estrita de não tocar no paciente para evitar riscos virais ou bacterianos. Mas o olhar de Seu Jurandir estava livre de qualquer barreira. Ele tentou levantar o tronco, buscando o horizonte. Lá, imponente contra o céu azul (já escuro) do Recife, estava a escultura gigante que ele ajudou a planejar e executar. O Galo Folião Fraterno, que este ano traz uma mensagem de paz e harmonia, parecia curvar-se para saudar o seu mais antigo e leal colaborador.

“A minha realização foi essa”, disse Jurandir, com a voz embargada pelo esforço e pela alegria profunda. “É muito emocionante. Ver isso aqui é tudo o que eu queria. É uma realização de vida”. A frase, curta, carregava o peso de cinco anos de dedicação direta à imagem que define o Carnaval do Recife para o mundo.

Cordão de isolamento e afeto



Ao redor da ambulância e da maca, a família Nóbrega formava um cordão de isolamento feito de puro afeto. Rodrigo Xavier, um dos filhos, falava sobre o esforço hercúleo de manter a tradição viva enquanto o pai lutava pela saúde em um leito de hospital. Foram semanas de revezamento entre o canteiro de obras na ponte e as visitas rápidas na unidade de saúde para dar um “cheiro” no patriarca e contar como ia a evolução da obra.



Germana Xavier, reconhecida por sua parceria executiva com o irmão Leopoldo, observava a cena com a clareza de quem sabe o peso que Jurandir tem naquela engenharia de sonhos. Ele não é apenas um pai que visita o trabalho do filho; ele é a engrenagem técnica que faz o processo artesanal girar. A parceria com Leopoldo — renomado designer, cenógrafo e criativista — é de alma e de ofício. Juntos, eles transformaram o Galo em uma obra de arte sustentável e social.



Dona Maria do Carmo, artista plástica, professora aposentada e esposa de Jurandir, também estava lá. Com a sensibilidade de quem dedicou a vida à arte, ela descreveu o ritual da família: as noites em claro, a dedicação total e o pensamento constante em cada detalhe da escultura. Para ela, ver o marido realizar esse desejo era ver a própria arte da sobrevivência se manifestar em meio ao caos festivo do Recife. Ela lembrou que, em outros anos, a dedicação era tamanha que eles “viravam noites” no local.

O encontro entre o criador e seu suporte



Leopoldo Nóbrega chegou ao local sob forte carga emocional. O artista, que revolucionou o visual do Galo ao trazer conceitos de “upcycling” e artesania comunitária, transformou-se em filho diante da maca. O encontro entre os dois, sob a sombra da crista do gigante, parou o tempo na Duarte Coelho. Era o criador buscando a benção de quem sempre lhe deu o suporte estrutural.

“Papai faz parte desse projeto, ele é nossa inspiração”, afirmou Leopoldo à nossa reportagem. “Todos os anos ele está aqui no Galo construindo, trabalhando artesanalmente. É uma pessoa que tem muito mais energia do que eu. Nesse momento ele está aqui olhando da distância, mas a gente está emanando essa energia para ele”. Leopoldo revelou que, como reconhecimento, o pai receberia um certificado de homenagem. Mesmo sem poder subir na estrutura este ano, a presença de Jurandir estava impregnada em cada centímetro da escultura gigante.

A proteção necessária e a despedida



A estadia na ponte foi breve, cronometrada pelos profissionais de saúde que vigiavam cada sinal vital no monitor da ambulância. O ambiente de aglomeração trazia riscos inerentes. Quando foliões desavisados começaram a lançar jatos de espuma de Carnaval nas proximidades, a equipe médica agiu com presteza. Era preciso recolher Seu Jurandir para o ambiente controlado da unidade móvel.


Mas, antes que as portas se fechassem, houve tempo para os acenos finais, para ver a visível emoção da netinha única e para a troca de olhares que selava o compromisso de estarem juntos novamente no próximo ano, sem macas, fios ou sirenes.


O Galo da Madrugada, o maior bloco do mundo, é feito de números superlativos e gigantismo, mas sua sustentação real vem desses pequenos átomos de humanidade. Na tarde desta quinta-feira, a Ponte Duarte Coelho não foi apenas o palco de uma escultura de 32 metros. Foi o cenário de um abraço invisível entre um pai que se realizava na obra do filho e um filho que se sustentava na resiliência do pai.


A mensagem de esperança do Galo de 2026 saiu da teoria e ganhou o asfalto. Jurandir Nóbrega voltou para o hospital, mas deixou na ponte a prova de que a folia, antes de ser festa, é um ato de amor e resistência familiar. O coração de Jurandir, que os filhos disseram estar “palpitando forte”, agora bate no mesmo ritmo do frevo da capital pernambucana. A missão estava cumprida. E até breve!

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