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Do Capibaribe à Itália: os refúgios da Toscana que habitam a Zona Norte do Recife

Descubra a Toscana no Recife: cinco restaurantes que oferecem uma experiência gastronômica única, onde a massa é o fio condutor de uma viagem ...

Do Capibaribe à Itália: os refúgios da Toscana que habitam a Zona Norte do Recife
- Filletino Ivanio, do Buca Trattoria, e Tagliolini al pesto i gamberi, do Furetti
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Aline Moura

Aline Moura é formada pela UFPE, trabalhou como repórter de Política, Editora Assistente de Produção de Política e repórter especial do Diario de Pernambuco, num período de 15 anos, onde atuou em todas as áreas, exceto esportes. Também teve experiência de quatro anos como gerente de comunicação da Secretaria do Trabalho, Emprego e Qualificação de Pernambuco e voltou ao jornalismo para integrar a equipe do Portal da Tribuna Online como repórter.

Última atualização


Há uma geografia invisível que liga o Recife à região central da Itália. Não é a Itália das passarelas de Milão, nem a dos mercados barulhentos da Sicília. É a Toscana. Uma terra onde o luxo não grita; ele sussurra através de paredes de pedra, jardins que avançam sobre as calçadas e um tempo que, teimosamente, insiste em não correr.

Na Zona Norte recifense, sob a influência das águas do Capibaribe, que desenha os contornos da região, esses refúgios encontraram o lugar ideal para florescer. Ali, onde o rio serpenteia entre as sombras de oitizeiros, mangueiras seculares e paus-brasil, esse espírito italiano encontrou solo fértil.

Entre os casarões que resistem ao avanço do concreto, o ritmo da cidade muda. Escolher a Toscana para pautar este roteiro da Coluna Pernambuco que Encanta não é casual. Enquanto o Norte italiano é a pressa da manteiga e do risoto executivo, a Toscana é o domínio do azeite, da massa artesanal e da conversa esticada. É o “ritmo de árvore” — aquele onde as coisas levam décadas para crescer e horas para serem saboreadas.

Abaixo, a coluna escolheu cinco endereços onde a massa é o fio condutor de uma viagem que começa no prato e termina na alma.

Buca Trattoria: a intimidade do queijo e do vinho

A mais longeva deste roteiro, a Buca Trattoria foi inaugurada em 2007 e preserva a atmosfera de “segredo bem guardado” do Espinheiro. Logo na entrada, o visitante encontra uma fachada de tijolos escuros e aparentes sob um pequeno toldo com as cores da Itália. O espaço é sofisticado, com meia luz e quadros que compõem a cena.

Se a Toscana valoriza o que é autêntico e rústico, o prato Filettino Ivanio é um dos seus embaixadores. Trata-se de um medalhão de filé suculento, envolvido pelo sabor marcante do funghi secchi e a intensidade do vinho do Porto Ruby, acompanhado de massa caseira.

Mas é na imagem da Massa Gratinada, com o queijo esticando em um fio interminável, que a Buca captura o olhar. Lá também tem a cozinha da “sustança”, feita para quem entende que o vinho encorpado e o queijo derretido são os melhores remédios contra a pressa do mundo.

Modigliani Bistrô: o luxo da memória entre quadros e lustres

Entrar no Modigliani Bistrô, fundado em 2015 em um antigo sobrado do século 19, é como visitar a sala de um colecionador de memórias no coração do Poço da Panela. Ali, a luz âmbar de lustres belíssimos abraça as paredes de tijolo aparente e o teto de madeira, criando uma moldura para os quadros que dão vontade de levar para casa. É um espaço de quietude, onde o verde das plantas e o ambiente acolhedor convidam ao romance ou a um brinde entre amigos.

A beleza do bairro histórico embala a refeição. No olhar da colunista, o Filé Van Gogh é mais que um prato; é uma homenagem à herança europeia, unindo a suculência da carne ao acolhimento de um nhoque ao molho de queijos. É o lugar onde o “charme de herança” se manifesta em cada garfada, lembrando que a beleza, assim como a boa massa, é eterna. É uma experiência para encher os olhos e o paladar. Separe um tempo (e o investimento) para experimentar desde a entrada à sobremesa neste refúgio de sofisticação.

Furetti Cucina: a poesia da Vespa e do tempo

No Furetti, a atmosfera, mesmo mais moderna, evoca uma nostalgia imediata. Com sua fachada em tons de terracota e luminárias que banham a calçada com uma luz âmbar, o restaurante transporta o olhar para um tempo onde a elegância não tinha pressa. Instalado na Zona Norte desde 2019, a casa combina uma cozinha de execução precisa a um visual que impressiona em cada detalhe.

O ritual pode começar com o Varal de Prosciutto, onde as fatias de presunto suspensas convidam os dedos a colherem o sabor da paciência. O conforto real, contudo, reside no Gnocchi Fortunati: uma massa artesanal que, sob uma crosta de queijo gratinado, chega à mesa ainda borbulhando.

Para quem busca o clássico, o chef Roccini Furreti recomenda o Amatriciana. É um prato famoso por combinar ingredientes simples e potentes: guanciale (bochecha de porco curada), molho de tomate, queijo pecorino romano e pimenta.

Fabbrique Pastifício: o coração artesanal

O Fabbrique, que também abriu suas portas em 2015, ocupa um espaço onde arquitetura e gastronomia se fundem. Localizado na Estrada Real do Poço, ele funciona como um refúgio intimista e refinado.

O Rotoloni é uma das joias da casa: cilindros de massa fresca que guardam em suas dobras o segredo de receitas que não aceitam atalhos. Comer ali, de dia, e poder observar o verde do lado de fora é entender que a Zona Norte pode ser, sim, o nosso próprio vale toscano. À noite, o espaço também é um convite a um bom vinho, com um cardápio variado, que precisa ser comido sem pressa.

Il Padrino: o almoço no quintal da memória

Inspirado na estética cinematográfica, o Il Padrino nasceu com a vocação do quintal, mas com tradição. Situado em um casarão nas Graças, ele representa o lado mais solar e fresco desta rota.

Se a Toscana tem seus almoços sob as parreiras, o Recife tem a Insalata Gamberi saboreada em mesas rústicas e com chão de pedrinhas. O ritual da gremolata sendo vertida sobre os camarões e o penne é um espetáculo de frescor. É o destino de quem não tem pressa de voltar para o trânsito e prefere esticar o café até que a tarde caia.

Onde a alma descansa

Percorrer esses endereços não é apenas sobre saciar a fome, mas sobre encontrar fôlego e beleza. Em uma cidade que muitas vezes corre rápido demais, esses pequenos “pedaços de Itália” encravados no nosso Recife funcionam como portais em linha reta. São lugares onde o molho apurado e o pão rasgado com a mão nos lembram que a felicidade mora nos detalhes lentos.

A gente descobre que não precisa atravessar o oceano para ser transportado: basta uma mesa, um bom vinho e a disposição de deixar o mundo lá fora esperar um pouco mais. Afinal, a beleza, assim como o Rio Capibaribe que nos corta, sempre dá um jeito de nos encontrar — às vezes, ela está logo ali, na próxima esquina, esperando para ser saboreada sob a sombra de uma mangueira ou dentro de um casarão histórico.

Serviço: Roteiro Toscana na Zona Norte 

(veja horários e dias de funcionamento nas redes sociais dos restaurantes)

Furetti Cucina Italiana: R. Albino Meira, 58 – Tamarineira.Instagram – @furetti.cucina

Fabbrique Pastifício: Estrada Real do Poço, s/n – Poço da Panela. Instagram –  @fabbrique

Modigliani Bistrô: Rua dos Arcos, 31 – Poço da Panela. Instagram –  @modiglianibistro

Il Padrino: Av. Santos Dumont, 99 – Graças _ Instagram: @ilpadrino.recife

Buca Trattoria: R. Santo Elias, 350 – Espinheiro. Instagram: @bucatrattoria

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