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Nota mil que não apaga: Wellington e o Nordeste que escreve o Brasil

Quando o barulho passa, ficam as histórias

Nota mil que não apaga: Wellington e o Nordeste que escreve o Brasil
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Foto de perfil de Aline Moura

Aline Moura

Aline Moura é formada pela UFPE, trabalhou como repórter de Política, Editora Assistente de Produção de Política e repórter especial do Diario de Pernambuco, num período de 15 anos, onde atuou em todas as áreas, exceto esportes. Também teve experiência de quatro anos como gerente de comunicação da Secretaria do Trabalho, Emprego e Qualificação de Pernambuco e voltou ao jornalismo para integrar a equipe do Portal da Tribuna Online como repórter.

Última atualização



Quando a semana do Enem passa, ficam os números. Mas é depois do barulho que algumas histórias pedem para ser contadas com mais cuidado. Não por atraso — por maturação. É nesse tempo mais calmo que a trajetória de Wellington Antonio Cabral Ribeiro Neto, 19 anos, encontra lugar na Coluna Pernambuco que encanta.


Dos sete estudantes que alcançaram a nota 1.000 no Brasil, seis são do Nordeste; Pernambuco teve dois nomes na lista: Wellington é um deles e caminha pelo Recife. Ele está exatamente aqui: não fora do seu tempo, mas à altura dele.


A nota 1.000 impressiona, mas não se explica sozinha. O dado aponta um movimento histórico da região, que substitui décadas de exclusão social e o estigma da seca por desenvolvimento econômico, cultura e autoestima.

O topo continua exigente e o contexto ajuda a explicar o novo cenário, mas o fato é que Wellington não é apenas exceção estatística —  é o rosto de uma conquista extraordinária que confirma a força do novo Nordeste.


Nascido em Barreiros, na Zona da Mata Su do Estado, Wellington veio para o Recife em 2012, após o pai conseguir uma oportunidade de trabalho. Deu tempo de aproveitar a infância na rua com brincadeiras de bola de gude, bicicleta, esconde-esconde. E de dividir seu tempo com a internet, já na adolescência.



Alto, 1,85m, anda rápido, fala muito quando está entre amigos, mede palavras em público. “Sou um pouco dos dois, depende muito com quem estou falando”, resume. Há nele um cuidado que não é timidez — é escuta.


Ponto fora da curva


A presença massiva de nordestinos no topo da lista deste ano — 85,7% do total — interrompe a narrativa das “estatísticas da desgraça” que por décadas definiu a região em livros de sociologia. Pernambuco e Bahia lideram o grupo com dois estudantes cada; Ceará e Alagoas completam a lista regional. Fora do Nordeste, apenas o Rio de Janeiro registrou uma nota máxima.


O método do isolamento


Aos seis anos, Wellington trocou o interior pela capital quando o pai, o jornalista Wellington Cabral, agora com 39 anos, conseguiu uma oportunidade de trabalho. O caminho até a nota máxima não foi um acidente, mas um cálculo rigoroso de renúncia.


Estudante do Colégio GGE, Wellington sabia que faria uma boa prova. Mas não imaginava o topo. “Imaginava que a nota seria muito alta, por causa do meu esforço, mas 1000 era uma coisa muito distante”, contou. Quando viu o resultado, veio a confirmação: “Logo quando vi a nota, senti que todo o meu esforço foi recompensado”.


O caminho até ali foi de abdicações. Isolamento, menos convivência com amigos e família, rotina dura na reta final. Sem glamour.


“Eu abdiquei de saídas com os amigos e família e, na reta final, da prática de atividades físicas. Acho essencial o estudante fazer redações e simulados semanais (tanto para analisar seus erros quanto para treinar o tempo de prova).


Mas lembro: para os jovens que farão o ENEM neste ano, confiem no processo. Para que pessoas como eu estejam felizes hoje, houve muitos dias tristes. Vocês vão conseguir”.


O estudante agora mira as cadeiras da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) para cursar Direito. O objetivo é claro: quer ser professor universitário, devolvendo ao sistema o rigor que o levou ao topo.


A escrita como resolução


O tema da redação — “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira” — exigiu dele uma visão sobre uma população que ele define como “muitas vezes esquecida”.

Para Wellington, o processo de escrita serve para além da prova: “Promove a melhoria de áreas como gramática, argumentação e resolução de problemas cotidianos”.


A vitória, compartilhada também com a mãe, a funcionária pública Alessandra Ferreira, é vista por ele como um marco político para a região. Quando questionado sobre a mudança de imagem do Nordeste, que virou lugar de inteligência aplicada, ele é direto: “O Nordeste, em um espaço de protagonismo, revela que essa região é muito mais que os estereótipos historicamente empregados a ela”.


O xeque-mate: a escala do tempo


A coluna Pernambuco que Encanta desta semana escolhe Wellington não apenas pelo barulho da nota, mas pela consistência do que ela representa. Enquanto o mercado da notícia corre atrás do próximo fato, o jovem nascido em Barreiros permanece como o símbolo de uma mudança de relevo no mapa brasileiro.


Quando resume tudo que viveu em uma única palavra — determinação — Wellington não fala apenas do Enem. Fala de um modo de estar no mundo. De quem não espera atalhos. De quem escreve o próprio lugar, linha por linha.


O elefante e a vida


Existe um registro de sua infância onde o pequeno “Netinho”, como é chamado pelos mais próximos, aparece montado em um elefante de pedra. Na imagem, ele está no dorso do animal, o olhar fixo e uma postura de quem já tentava dominar uma força muito maior que seu próprio tamanho.


Hoje, com quase dois metros de altura e o peso de uma conquista nacional nos ombros, a estátua de pedra finalmente ficou pequena. Wellington descobriu que, para mover o peso de séculos de preconceito contra o seu chão, não é preciso força bruta. Basta o rastro de tinta de uma caneta preta. O Nordeste não está mais esperando o futuro; o futuro é que está acompanhando o passo de Wellington.

A nota mil não o define.

Mas deixa claro: Ele já sabe onde pisa — e para onde quer ir.

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