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Legado da Tambaú: Hugo Gonçalves narra trajetória do pai que vendia pirulitos

Descubra a inspiradora trajetória de Gerson Gonçalves e a evolução da Tambaú Alimentos, uma história de resiliência e sucesso no Sertão.

Legado da Tambaú: Hugo Gonçalves narra trajetória do pai que vendia pirulitos
- Hugo Gonçalves, filho do fundador da Tambaú e atuao CEO
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Aline Moura

Aline Moura é formada pela UFPE, trabalhou como repórter de Política, Editora Assistente de Produção de Política e repórter especial do Diario de Pernambuco, num período de 15 anos, onde atuou em todas as áreas, exceto esportes. Também teve experiência de quatro anos como gerente de comunicação da Secretaria do Trabalho, Emprego e Qualificação de Pernambuco e voltou ao jornalismo para integrar a equipe do Portal da Tribuna Online como repórter.

Última atualização



O destino de um homem, por vezes, é traçado pela clareza de sua visão e pela persistência de seus passos. Desde criança, na pequena cidade do Prata, interior da Paraíba, o menino Gerson Gonçalves de Lima fitava o horizonte e não via apenas a poeira baixa do Sertão ou a vegetação retorcida pela sede; ele enxergava o contorno nítido de grandes feitos que viria a realizar.


Gerson nasceu em uma família humilde e, desde cedo, alimentava o fascínio pelas chaminés das fábricas, aquelas torres que sopravam nuvens de fumaça e que, na sua imaginação infantil, eram os monumentos de quem vencia a vida.

Antes de se tornar o alicerce da Tambaú Alimentos, esse desejo de ser industrial precisou de açúcar, fogo e o caminhar incansável pelas ruas de Sertânia, cidade que acolheu sua família.


Aos 14 anos, Gerson não vendia apenas doces; vendia pirulitos e a própria obstinação. Hugo Gonçalves, atual presidente da empresa e terceiro filho do fundador, recorda com precisão a história do pai naquele início.


“Ele não queria perder tempo. Com a ajuda do meu avô, começou a fazer pirulitos em casa para vender nas ruas de Sertânia, cidade que acolheu a família em meados da década de 1940”, relata Hugo.


Ali, entre o tacho de cobre fervente e o tabuleiro de madeira, nascia uma disciplina férrea. Gerson era talentoso com os números e extremamente regrado: quase tudo o que ganhava nas vendas era imediatamente reinvestido na compra de mais matéria-prima. O lucro não era para o gasto efêmero, mas o combustível para o próximo lote.


A doçura da terra sertaneja

A história da Tambaú brota das margens dos rios Moxotó e Pajeú, onde a natureza, apesar das secas, oferecia a doçura da goiaba, da banana e do caju. Foi o pai de Gerson quem deu a ideia: por que não transformar as frutas tropicais em doces de corte? Assim nasceu, em Sertânia, a Goiabada Telma, o embrião de um império.


Conhecido pela sua inquietação e capacidade de inovar, Gerson não se limitou a um único produto. Assim, foi criando variações da goiabada e aumentando o portfólio da sua pequena fábrica.


Poucos anos depois, o negócio foi levado para Custódia, distante 43 km de Sertânia. A decisão foi pensada. Na época, estava sendo construída uma BR (rodovia federal), que passava por este município, também no Sertão do Moxotó, representando um motor de desenvolvimento para a cidade


Em 1962, a marca ganhou o nome definitivo, já em Custódia, a quase 380 quilômetros do Recife. “Meu pai queria honrar suas origens paraibanas. Entre Borborema, Cariri e Tambaú, ele optou pelo último, em homenagem a uma das praias mais famosas de sua terra natal”, conta o presidente.

A inundação

Contudo, a consolidação da Tambaú foi testada pela força bruta da natureza. Em 1967, apenas cinco anos após a fundação oficial em Custódia, uma enchente devastadora varreu a cidade e destruiu a fábrica.


Máquinas, estoques e sonhos foram submersos pela água. A cena que Hugo narra à coluna Pernambuco que encanta sobre esse dia é uma inspiração: em vez de desespero ou lamento, Gerson, casado com Dona Terezinha, foi para casa, reuniu os filhos e colocou uma música para tocar no rádio.


Diante do olhar confuso da família, ele proferiu uma frase que se tornaria a pedra angular da empresa: “o que Deus tira, ele dá em abundância”. Com essa fé inquestionável, ele limpou a lama e “recomeçou do zero”. A resiliência não era uma palavra da moda, era a pele de Gerson.

O nome Tambaú foi o aceno de gratidão à terra natal, mas cada tijolo, cada e cada tonelada produzida carregam o DNA do Sertão pernambucano.


A sucessão: o Direito que encontrou o chão de fábrica


Com o passar das décadas, a Tambaú deixou as fronteiras de Custódia para conquistar o interior do Piauí, Maranhão, Paraíba e Bahia. Em 1987, ao celebrar o jubileu de prata (25 anos), a empresa deu o passo que mudaria sua história para sempre: a entrada no segmento de atomatados.


O lançamento do extrato, dos molhos e do catchup — produto que viria a ser o carro-chefe da marca — exigiu tecnologia e uma nova mentalidade. Foi nesse cenário de expansão que Hugo Gonçalves de Souza se preparou para o leme.


Criado entre o rigor do Colégio Salesiano no Recife e os corredores da Faculdade de Direito da UFPE, Hugo trazia o verniz acadêmico, mas o seu destino estava traçado no cheiro de goiabada e tomate da fábrica.


Hugo concluiu a graduação em 1985 e, logo após, mergulhou no cotidiano da unidade em Custódia ao lado do pai. “Aprendi muito ao lado dele”, afirma Hugo, que hoje acumula MBAs e cursos de gestão, mas não esquece as lições do “seu” Gerson.


Em 2000, com o falecimento do fundador aos 67 anos, Hugo foi escolhido por unanimidade pela família para ser o CEO. Ele assumiu o compromisso de modernizar a indústria sem desidratar os valores do pai.


Hoje, Hugo divide-se entre a base administrativa no Recife e a operação no Sertão, além de ocupar cargos de liderança na FIEPE e no SEBRAE-PE, projetando a força de Pernambuco para o cenário nacional através do networking com grupos como Lide e Experience Club.


A métrica do sucesso: toneladas de compromisso



Os números de 2025 da fábrica revelam que a estratégia de Hugo e seus irmãos foi cirúrgica. A Tambaú registrou um crescimento expressivo de 18% na receita anual. O avanço não foi apenas financeiro, mas de volume bruto produzido.


“Crescemos 13% em tonelagem faturada, saindo de 60.878 toneladas em 2024 para 68.800 em 2025. Isso demonstra não apenas faturamento, mas ganho real de participação de mercado”, detalha o presidente. O catchup da marca, por exemplo, é o mais consumido em todo o Nordeste pelo 10º ano consecutivo, uma marca histórica para uma indústria que nasceu no semiárido.


A inovação é o motor que mantém a Tambaú jovem mesmo prestes a completar 64 anos, em 1º de setembro. Em 2025, o lançamento da Bananinha Cremosa marcou a entrada da empresa no segmento de snacks, focando na praticidade do consumo individual.


Além disso, a marca expandiu para o setor de food service com o Leite de Coco de 1 litro em embalagem PET e o molho de hot dog de 1,7kg.


Tais novidades tiveram um impacto relevante. Juntas, representaram um faturamento de quase R$ 20 milhões no último ano, confirmando as decisões estratégicas. O portfólio atual tem 113 itens, abrangendo desde condimentos e temperos até conservas de azeitonas e derivados de coco.


A filosofia do respeito e o coração de Custódia



Crescer no Sertão exige uma simbiose entre empresa e comunidade que poucas indústrias conseguem manter. Para a Tambaú, a cidade de Custódia não é apenas o local da fábrica, é a sua identidade.


Hugo reflete que a empresa acredita que resultados sólidos são construídos com ética e respeito às pessoas. 







Segundo ele, a indústria funciona como o coração econômico da região, garantindo o sustento e a dignidade de centenas de famílias que passam o conhecimento de geração em geração dentro da própria fábrica.


A filosofia da marca é guiada por cinco pilares: compromisso, honestidade, respeito, resiliência e responsabilidade socioambiental. Hugo Gonçalves sabe que o mercado de 2026 exigirá ainda mais agilidade, mas ele encara o futuro com a mesma serenidade com que o pai encarou as águas da enchente de 67.


Novos produtos já estão na esteira de lançamento, e a meta é continuar proporcionando “memórias afetivas por meio de alimentos saborosos”. 


A trajetória da Tambaú é a prova de que o sonho do menino, que equilibrava o tabuleiro de pirulitos nas mãos miúdas pelas ruas do Sertão, não apenas ganhou o mundo, como se tornou o próprio chão de centenas de famílias. 

Mais do que uma potência industrial, a marca prova, enfim, que quando o sucesso é cozido no fogo lento, ele não apenas alimenta o presente; ele guarda, para as próximas gerações, um sabor de futuro que não conhece prazo de validade.


Nota: Hugo Gonçalves lidera a fábrica ao lado dos irmãos, mantendo a Tambaú como uma gestão familiar. O vigor da marca agora alcança a terceira geração: netos de “seu” Gerson já integram os quadros da companhia, assegurando a preservação dos valores que nasceram no tabuleiro de pirulitos.

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