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EM PERNAMBUCO

Assassino de Julia envia mensagem a outra jovem após crime: “bom dia, amor”

Suspeito mandou mensagem carinhosa a outra jovem cerca de duas horas depois de cometer feminicídio com requintes de crueldade em motel

Conversa do whatsapp entre Djama e a moça com quem ele se relacionava
Foto de perfil de Aline Moura

Aline Moura

Aline Moura é formada pela UFPE, trabalhou como repórter de Política, Editora Assistente de Produção de Política e repórter especial do Diario de Pernambuco, num período de 15 anos, onde atuou em todas as áreas, exceto esportes. Também teve experiência de quatro anos como gerente de comunicação da Secretaria do Trabalho, Emprego e Qualificação de Pernambuco e voltou ao jornalismo para integrar a equipe do Portal da Tribuna Online como repórter.

Última atualização



Poucas horas depois de espancar, desfigurar e asfixiar a nail designer Julia Ramilly dos Santos Silva, 20 anos, dentro de um quarto de motel no bairro Nobre, em Paulista, o estudante de engenharia elétrica Djalma Diego Oliveira Deodato, 25, pegou o celular e escreveu: “Bom dia, amor”.

A mensagem foi para outra jovem, de 18 anos, com quem ele mantinha um relacionamento há cerca de um mês. Um gesto frio, como se nada tivesse acontecido entre a madrugada e a manhã do dia 23 de setembro.

A jovem que escapou



A garota, que pediu para não ser identificada, contou à TV Tribuna PE/Band que conheceu Djalma do mesmo jeito que Júlia: numa corrida de moto por aplicativo. Disse que poderia ter sido ela. Já esteve com o suspeito no mesmo motel onde Júlia foi assassinada. “Foi um livramento”, confessou.

Segundo a jovem, Djalma era sedutor, tinha lábia. Tratava com “carinho”, mas deixava escapar frases de posse: “Tu és minha. Não fica com mais ninguém, não”.

Os dois se conheceram numa corrida de MotoUber, após uma festa em Maria Farinha, também na cidade de Paulista, onde ele foi buscá-la identificando-se como “Matheus”. Na ocasião, o amigo dela pediu que “Matheus” o levasse em casa e também levasse a amiga, porque ninguém estava aceitando a corrida.

Os três foram na mesma moto, com a promessa de que seria pago o dobro do preço da corrida, algo irregular, mas que foi aceito pelo motorista que ignorou, também, o conceito de certo e errado no trânsito.

A vida que seguiu

O rapaz foi deixado no destino e ela seguiu com o assassino sozinha. Foi no mesmo dia que começaram a se relacionar. Chegou a ir para a casa de um amigo dele, lancharam, se divertiram. A vida seguiu.

A jovem disse que Djalma a deixou desconfortável num dos encontros sexuais, quando pediu que ela fizesse algo durante o sexo que ela não queria. Mas ela disse “não” e escapou.

Para ela, o tom usado no “não” pode ter sido o diferencial que a manteve viva. Ela acredita que a vítima pode ter sido mais incisiva ao se negar a fazer algo que ele pedia na cama. Mas é só uma dedução, ainda.

Segundo a polícia, foi solicitado exames periciais para saber se Djalma teve sexo com a vítima. Ele era reeducando, como se chama com pessoas que saem do presídio. Já havia sido preso por estelionato e tráfico de drogas pesadas, como crack.

Como antecipou a Tribuna, usou a tornozeleira eletrônica até janeiro, por apenas 120 dias, quando passou a não exibir, no corpo, sinais do seu passado de presidiário. Era somente um estudante aos olhos de muitos. Usou o nome de Davi no aplicativo onde foi chamado por Julia. Já não era mais “Matheus” e deixou o “taxímetro” ligado por quase três horas. O que mostra também a falha de segurança do aplicativo.

O corpo de Júlia



Júlia não teve a mesma sorte da jovem entrevistada pela repórter Luciana Queiroz nesta quinta-feira (25), um dia após o enterro da vítima. A perícia mostrou que Julia apresentava sinais de espancamento: rosto desfigurado, unhas em gel arrancadas, marcas de sangue por todo o lugar. “Ela lutou pela vida”, disse o delegado Douglas Camilo, que acompanhou o caso naquela manhã de terça-feira.

Mas não resistiu. Foi morta por esganadura. O assassino ainda introduziu um controle remoto em suas partes íntimas. Grau de maldade 10. Pagou o motel onde esteve com Julia com o dinheiro dela e, cinicamente, pediu que a acordassem às 9h, caso ele não voltasse. Não voltou, aliás. Foi para casa, tomou banho e seguiu para o estágio no bairro do Janga, numa empresa terceirizada da Compesa.

No início das investigações, importante lembrar, foi informado à imprensa que Julia tinha recebido um Pix de Djalma, o que levantou à deduções de que ela poderia estar fazendo programa.



O tribunal da internet tentou diminuí-la por isso, reduzir o impacto de sua morte, como se o sexo livre fosse permitido apenas para os homens, como sempre. Mas foi o inverso. Djalma que recebeu um pix dela de quase R$ 300, sabe-se lá em quais circunstâncias, porque ele pode tê-la forçado a isso antes de tirar sua vida.

E o ápice, após o feminicídio, foi dar bom dia a outra jovem às 8h58. Após receber resposta, às 11h51 da mesma manhã, antes de ser preso em flagrante, acrescentou: “bom dia amor” (sic).

O grito da mãe



Na delegacia, Djalma confessou. Mas disse que não se lembrava porque usara cocaína e rivotril antes do crime. Contrariou a versão do delegado, que não viu indícios de consumo de drogas ou álcool no motel onde Julia foi morta.

Sua defesa tentou alegar insanidade mental, quase risível. A juíza do caso, Simone Cristina Barros de Azevedo Silva, não aceitou e decretou sua prisão temporária por feminicídio. Após a audiência de custódia, Djalma ficou em silêncio diante da imprensa. Não respondeu.

A mãe, Pollyanna Barbosa, desabafou no enterro: “Ninguém aguenta mais tanto sangue feminino derramado”. Era mais do que dor pessoal. Era uma denúncia. Júlia se soma à lista de mulheres assassinadas em Pernambuco, um rastro de sangue que insiste em crescer.

Falsidade ideológica

Antes de sair do motel, Djalma ainda passou uma mensagem para o celular da amiga de Julia, usando uma linguagem que ela não adotava, o que acendeu o alerta amarelo, logo depois confirmado, para tristeza da família. “Estou chegando”, escreveu.

A mãe rebateu o argumento do advogado de defesa: “Que insanidade é essa? Ele pegou o celular da minha filha, fez Pix pra conta dele de R$ 295. Isso não é loucura, é crime”, disse, além de pedir o óbvio: “Que de fato seja feita a justiça, não essa justiça que a gente costuma ver diariamente nos noticiários, onde não existe”.

No velório, amigas vestiam camisas com o rosto dela. Cantaram, rezaram, aplaudiram. O enterro foi acompanhado por lágrimas e revolta.

No cemitério de Santo Amaro, a revolta era unânime. “Ele destruiu o rosto dela”, disse uma amiga, chorando. Outra resumiu: “Um monstro. Queremos justiça”.

Justiça e medo

O caso expõe uma rotina de horror que se repete. Mulheres mortas, famílias destruídas, desculpas frágeis. A moça envolvida com Djalma carrega o medo de ter sido o alvo. “Poderia ter sido eu”, disse. Poderia. Djalma está preso no Cotel, onde deve aguardar o julgamento por feminicídio. Pelo menos é isso que todos esperam.

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