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O número de assassinos e traficantes de drogas que deram entrada nas cadeias capixabas até junho deste ano é alto e assusta: são mais de 9 mil presos que cumprem pena por esses crimes.
Dos 21.811 homens que cumprem pena nas unidades prisionais estaduais, ao menos 4.033 respondem pelo crime de homicídio. Já outros 5.808 estão trancafiados por cometerem tráfico de drogas.
Os dados divulgados pela Secretaria de Estado da Justiça (Sejus) revelam que, por dia, pelo menos 22 acusados de matar alguém vão parar atrás das grades. No mesmo período, outros 32 dão entrada por praticar o tráfico de drogas.
A quantidade de pessoas presas por tráfico de drogas acende um alerta na segurança pública do Espírito Santo, uma vez que a maioria dos homicídios registrados tem relação com a disputa por pontos de vendas de drogas.
“A motivação para grande parte deles é a guerra para controlar o tráfico, sem dúvidas. E ela pode ser um bairro atacando o outro, uma facção atacando a outra… e no tráfico, existe o tribunal criado por eles, onde julgam, condenam, cometendo os homicídios”, explica o delegado titular da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Vitória, Marcelo Cavalcanti.
Para Allex Willian Bello Lino, advogado criminalista, os números mostram que a grande quantidade de prisões não diminui a traficância, já que o plano para combate não consiste apenas na repressão.
“A atividade estatal nas regiões periféricas com atividades educacionais, profissionalizantes, saneamento básico, cultura e assistência social, parece ser a saída a longo prazo para a diminuição dessa onda de violência relacionada ao tráfico”, disse.
Siderson Vitorino, também advogado criminalista, acredita que o elevado número de crimes de homicídio e de tráfico de drogas é resultado de uma patologia social.
“É dar acesso a outros meios de protagonismo social e familiar, a chave para mudar esse infeliz retrato social, que insiste em incidir sobre as camadas vulneráveis”, destaca.
“Andava de colete para não morrer”
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Ficar preso por dois anos, acusado de tráfico de drogas, foi o suficiente para um motoboy, de 34 anos, entender que a vida no crime não compensa. Ele conversou com A Tribuna e contou os detalhes dos bastidores da cadeia.
A Tribuna – Você ficou preso por dois anos?
Motoboy – Eu cumpri pena de 2010 a 2012 por tráfico e em setembro de 2020 fui preso acusado de sequestro, cárcere privado, lesão corporal, tentativa de homicídio e organização criminosa. Tem menos cinco meses que eu estou na rua. Fiquei preso um ano e seis meses por esses artigos aí.
E você voltou para o crime?
Não. Graças a Deus as coisas têm melhorado pra mim. Consegui um emprego, graças a Deus eu tive pessoas que acreditaram em mim e que me deram uma nova oportunidade, de estar recomeçando.
Como foi sua experiência no presídio?
Não foi uma experiência muito boa. Eles te tratam ali dentro da cadeia como um bicho. Muitas vezes você come comida estragada. Muita das vezes não tem água para tomar um banho, fazer a higiene. Foi uma experiência um pouco traumatizante!
Hoje, o que você pensa sobre a vida no crime?
Essa vida no crime, infelizmente, é uma vida ilusória, porque você quer ganhar as coisas facilmente… dinheiro fácil, mas a vida não é assim. Tudo que vem fácil vai fácil. As pessoas ficam iludidas pelo dinheiro, pela fama, pelo que você pode ter através do crime, através do tráfico de drogas… infelizmente a gente não consegue dormir direito, a gente não consegue deitar a cabeça no travesseiro e repousar tranquilamente, você não consegue andar num lugar público com a sua família a céu aberto, porque está correndo um risco de ser morto, ser alvejado por tiros.
Você não andava tranquilo?
Eu andava na rua de colete com medo de ser morto. Essa vida não vale a pena. Mas graças a Deus que isso que aconteceu comigo foi pra abrir os meus olhos, pra eu ver que essa a vida não dá futuro pra ninguém. Hoje trabalho e agradeço a Deus, a minha família e as pessoas que me deram essa oportunidade.
E lá na cadeia, como que é?
Lá dentro acontece a comercialização de alimentos. Por exemplo: se você recebe uma marmita, você consegue trocá-la por um pão, doce, etc. Aí, infelizmente algumas pessoas ficam endividadas e com isso, infelizmente, a cobrança é mais severa. A cobrança é na pancada. Não existe diálogo dentro da cadeia.
Comida é moeda de troca e cada unidade abriga uma facção
Quem não conhece a realidade das cadeias capixabas, surpreende-se ao ouvir histórias de quem já passou por alguma unidade prisional. Entre histórias de disputas, agressões e até mortes dentro de muitos presídios do Estado, o comércio ilegal de alimentos também é uma das situações que ocorre com frequência atrás das grades.
“De manhã você recebe um copo de café com leite, uma fruta e dois pães. À tarde, você recebe uma marmita, um doce, um copo de salada, um copo de suco e dois pães. E à noite, você recebe a sua marmita. Através desses alimentos é possível criar um pequeno comércio, onde você vende seu doce, sua marmita, etc. O problema é quem compra mais e não tem mais como pagar, aí provoca até morte”, contou um ex-detento.
A declaração foi dada na condição de não se identificar, a pedido de sua família. Ele ficou preso durante 2 anos, por tráfico de drogas.
Outra revelação é a divisão das unidades por facções.
“Aqui no Estado, hoje, temos duas facções que predominam: O PCV, que é o Primeiro Comando de Vitória, que é comandado pelo Bairro da Penha e a equipe do Trem Bala; e tem a Família Capixaba, que é comandada pelo Morro do Quiabo em Porto de Santana. Aí tem cadeias que são divididas por essas duas facções”, revela o ex-detento.
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