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Esquema em Concurso de Paulista usava ponto eletrônico e cartões com Bluetooth

Com 39 mil candidatos em disputa, esquema cobrava até R$ 170 mil; peça-chave da quadrilha foi presa em Igarassu

Esquema em Concurso de Paulista usava ponto eletrônico e cartões com Bluetooth
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Foto de perfil de Aline Moura

Aline Moura

Aline Moura é formada pela UFPE, trabalhou como repórter de Política, Editora Assistente de Produção de Política e repórter especial do Diario de Pernambuco, num período de 15 anos, onde atuou em todas as áreas, exceto esportes. Também teve experiência de quatro anos como gerente de comunicação da Secretaria do Trabalho, Emprego e Qualificação de Pernambuco e voltou ao jornalismo para integrar a equipe do Portal da Tribuna Online como repórter.

Última atualização

O que parecia uma tentativa amadora de fraude no concurso para a Guarda Municipal de Paulista revelou-se, após novos detalhes da Polícia Civil, uma operação de engenharia criminosa sofisticada. Entre os 39 mil inscritos que disputavam vagas em 80 escolas, a polícia identificou o uso de dispositivos que simulam cartões de crédito para transmitir gabaritos via Bluetooth e pontos eletrônicos tão fundos no canal auditivo que só foram removidos em hospitais.


As investigações e os detalhes da operação foram apresentados pelos delegados Juliano Ferronato, titular da unidade, e Júlio César Barbosa, adjunto da 1ª DECCOR (Delegacia de Combate à Corrupção e ao Crime Organizado). (Veja os vídeos abaixo)


A engenharia da trapaça: do banheiro ao Bluetooth


A peça-chave do esquema, segundo a investigação, era um homem de 47 anos preso em Igarassu. Ele não buscava a vaga: sua função era “sequestrar” o conteúdo da prova. O método era cinematográfico: o suspeito deixava uma prova falsa sobre a carteira e levava a verdadeira ao banheiro. Lá, usando um smartwatch, fotografava as questões e as enviava para uma central externa.


Para receber as respostas, os comparsas utilizavam um dispositivo eletrônico disfarçado de cartão de crédito — um pouco mais grosso que o normal, com chip telefônico integrado. Esse “cartão” recebia ligações de fora e as retransmitia via Bluetooth para micropontos eletrônicos escondidos no ouvido dos candidatos. Um dos detidos precisou de auxílio médico para retirar o aparelho, em uma cena que ilustra o desespero pela aprovação ilícita.


Valores de até R$ 170 mil e o papel do “chefe”


A investigação, iniciada após uma denúncia anônima em 7 de janeiro, aponta que o “pedágio” para a fraude era salgado. Enquanto um dos presos confessou o pagamento de R$ 5 mil, a polícia descobriu que os valores cobrados pela organização criminosa poderiam chegar a astronômicos R$ 170 mil, dependendo do perfil do “cliente” e do cargo pretendido.


A defesa do homem apontado como líder nega as acusações, afirmando que ele não foi flagrado cometendo fraude. No entanto, a Polícia Civil sustenta que ele ocupava cargo elevado na hierarquia do grupo. Apesar das prisões e da tecnologia apreendida, os suspeitos foram postos em liberdade após a audiência de custódia.

Investigado já tinha sido preso por fraude em concurso

A polícia chegou aos suspeitos através do cruzamento de dados de inscritos com antecedentes criminais. Um dos presos já era “velho conhecido” da justiça por ter cometido exatamente o mesmo crime em outro concurso. Segundo o delegado, a ação teve efeito preventivo imediato: outros inscritos monitorados sequer apareceram para fazer a prova ao perceberem a movimentação policial.

“A polícia está de olho em concursos já realizados e nos próximos. O papel da Polícia Civil é procurar a responsabilidade de todos. A polícia está bem atenta a esses fraudadores”, afirmou o delegado Ferronato, destacando que, apesar das prisões, o conteúdo das provas não vazou para o público geral.

Pontos nos quais a investigação vai avançar


Embora a coletiva tenha trazido luz à mecânica dos aparelhos, lacunas permanecem no ar, desafiando a lógica da investigação:

  1. A “banca” de respostas: quem eram os especialistas do lado de fora que resolviam as questões em tempo real? A polícia ainda não identificou a central de inteligência que processava as fotos enviadas do banheiro.
  2. O mistério da quarta prisão: por que um quarto homem, detido à tarde para a prova de agente de trânsito em esquema idêntico, não teria ligação com a quadrilha da manhã? A coincidência de métodos sugere uma possível ramificação ou uma segunda organização operando no mesmo território?


A conta com a justiça


Os quatro detidos responderão pelos crimes de fraude em certame de interesse público e associação criminosa. As penas podem aumentar, conforme o avanço das investigações.


Somadas, pelo Código Penal, as penas máximas para esses delitos chegam a 7 anos de reclusão. Pela fraude (Art. 311-A do CP), a punição varia de 1 a 4 anos. Já a associação criminosa (Art. 288 do CP), que se caracteriza pela união estruturada para cometer crimes, prevê de 1 a 3 anos de reclusão.

Com colaboração de André Nascimento









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