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Polícia

Maioria das vítimas de feminicídio nunca denunciou as agressões

Dados apontam que 70% das mulheres assassinadas não tinham registro prévio contra o autor. Fatores emocionais dificultam

Maioria das vítimas de feminicídio nunca denunciou as agressões
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Foto de perfil de Fernanda Coutinho

Fernanda Coutinho

Fernanda Coutinho é jornalista formada pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), em 2007, e tem aproximadamente 20 anos de experiência na profissão. É repórter multimídia das editorias de Cidades e Polícia do Jornal A Tribuna, com reportagens também publicadas no portal Tribuna On-line. Escreve reportagens especiais semanais para a editoria de Polícia do Jornal A Tribuna. Tem experiências com apresentações de podcasts e videocasts, além da participação ao vivo em telejornais da TV Tribuna, em colaboração com apresentadores, em casos de repercussão. Na função de redatora, atuou por 9 anos em editorias como Polícia, Cidades, Economia e Política do jornal impresso.

Última atualização

A maioria das vítimas de feminicídio no Brasil nunca denunciou o agressor antes de ser morta. Dados da Plataforma Mulher Segura, do governo federal, mostram que 30,8% das mulheres assassinadas tinham algum registro prévio contra o autor do crime.

No Espírito Santo, a realidade segue a tendência nacional. “Cerca de 30% haviam registrado ocorrência e outros 70% não”, afirma Michelle Meira, titular da Gerência de Proteção à Mulher da Secretaria de Segurança Pública.

Segundo ela, fatores emocionais pesam na decisão de não denunciar. “Muitas vítimas não acreditam que o agressor vai matar. O feminicídio é uma escalada de violência”, explica.

A dificuldade de reconhecimento também é apontada pelo juiz Marco Aurélio Soares Pereira, da Vara de Violência Doméstica da Serra.

“A mulher convive com o agressor, dorme com ele. Muitas vezes acredita que aquele comportamento ‘é o jeito’ do companheiro ou que ele só é violento ‘quando bebe’”, diz o juiz. Ele destaca que o agressor nem sempre apresenta sinais evidentes. “Boa parte se mostra ‘perfeita’ para a sociedade, mas exerce controle tóxico em casa”.

Para o promotor de Justiça Lucas Lobato La Rocca, o problema também passa pela compreensão do que é violência. “Muitas mulheres ainda não se reconhecem como vítimas. Existe violência psicológica, patrimonial, um xingamento. A palavra não desperta a mesma atenção que o tapa”.

Outro obstáculo é o medo do julgamento social. “Muitas acreditam que vão se expor e carregar o estigma de que o relacionamento fracassou por culpa delas”, diz o promotor.

Segundo Michelle Meira, o Espírito Santo conta com delegacias especializadas e monitoramento eletrônico de agressores, em programas como o Mulher Segura.

“As medidas protetivas não são ‘colete à prova de bala’, mas salvam vidas”, ressalta o juiz.

Especialistas são unânimes: informação e denúncia precoce são fundamentais. “Quanto antes soubermos, mais rápido podemos agir”, afirma La Rocca.

Em casos de emergência, a orientação é acionar a polícia pelo 190 ou procurar uma delegacia. “A maior arma da mulher é a informação”, conclui Pereira.


Advogada aponta falha no cumprimento da legislação

“Não é só um motivo. É a ausência de condição psicológica, econômica e também a dificuldade de acesso ao sistema”, afirma a advogada criminalista Layla Freitas, presidente da Comissão da Mulher Advogada da Ordem dos Advogados do Brasil Seccional Espírito Santo (OAB-ES).

Layla também critica a estrutura de atendimento. “Se a mulher não consegue um atendimento humanizado, como ela vai denunciar?”, questiona a especialista.

A advogada aponta falhas no funcionamento das delegacias e no cumprimento da legislação.

“A lei diz que o atendimento deve ser 24 horas nas Delegacias de Atendimento à Mulher (Deams), mas isso não é seguido. Falta estrutura física e humana”, completou Layla Freitas.

A titular da Gerência de Proteção à Mulher da Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp), Michelle Meira, por sua vez, defende a estrutura existente no Estado.

“Desconheço um estado no Brasil que conseguiu implantar Delegacias da Mulher funcionando 24 horas”, afirma.

Segundo ela, o Espírito Santo conta com rede de apoio estruturada, incluindo psicólogos e assistentes sociais em seus quadros.

“Temos serviço social na Central de Teleflagrantes, que funciona 24 horas, analisa as ocorrências e faz o encaminhamento para o serviço especializado dos municípios, que realizam a busca ativa da vítima”, explica.

“Não há psicólogo e assistente social presenciais porque não há demanda. E nem é uma atribuição da segurança pública”, afirmou Michelle Meira.

Delegacias

Segundo a gerente, o Espírito Santo possui 18 Delegacias Regionais e em 17 há as Salas Maria — espaços humanizados de acolhimento destinados a mulheres vítimas de violência doméstica e seus filhos.

No momento, o serviço só não está em funcionamento em Cachoeiro de Itapemirim porque a Regional passa por reforma.

Saiba mais

Perfil das vítimas no Brasil

  • 1.561 foram as vítimas de feminicídio em 2025.
  • 36,8 anos é a idade média das vítimas.
  • 29,7% dos casos estão concentrados na faixa etária de 25 a 34 anos.
  • 44,6% das vítimas são mulheres pardas.
  • 30,8% das vítimas possuíam registro anterior contra o agressor.
  • 28,4% dos registros ocorreram na residência das vítimas.
  • 19,4% dos crimes foram cometidos aos domingos.

Perfil no Espírito Santo

  • 35 mulheres foram vítimas de feminicídio no Estado em 2025, representando uma queda em relação a 2024, quando foram registrados 41 casos.
  • 8, sendo a maioria, tem entre 25 a 29 anos.
  • 17, a maioria, são mulheres pardas. Brancas (7), pretas (7), em branco (4).
  • 51,43% dos crimes foram cometidos com arma branca.
  • Domingo é o dia com mais registros: 11.
  • 20 dos 78 municípios do estado registraram feminicídios.
  • O companheiro da vítima foi o principal autor.

Onde denunciar

  • 190 em caso de crimes que estejam ocorrendo no momento. Vale lembrar que tanto a vítima como as testemunhas podem denunciar.
  • 181 o Disque Denúncia oferece anonimato garantido, funcionando 24h. Os canais oficiais são o telefone 181, o site oficial disquedenuncia181.es.gov.br e o WhatsApp (27) 99253-8181.
  • Disque 100



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