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POLÍCIA

Nove tiros: sem ser o alvo, mulher morre em cima da sua bebê ao tentar protegê-la

Crime em Nova Descoberta escancara padrão: alvo não é encontrado, mulher vira substituto e morre dentro de casa

Nove tiros: sem ser o alvo, mulher morre em cima da sua bebê ao tentar protegê-la
- Imagem mostra policial segurando bebê, que ficou embaixo do corpo da mãe
Foto de perfil de Aline Moura

Aline Moura

Aline Moura é formada pela UFPE, trabalhou como repórter de Política, Editora Assistente de Produção de Política e repórter especial do Diario de Pernambuco, num período de 15 anos, onde atuou em todas as áreas, exceto esportes. Também teve experiência de quatro anos como gerente de comunicação da Secretaria do Trabalho, Emprego e Qualificação de Pernambuco e voltou ao jornalismo para integrar a equipe do Portal da Tribuna Online como repórter.

Última atualização



Ela não era o alvo.


Mas estava disponível.


Beatriz Maria Oliveira de Souza, de 28 anos, foi assassinada com nove tiros dentro da própria casa, na Zona Norte do Recife. Morreu tentando proteger a filha de sete meses. Ao tentar proteger a bebê, perdeu a vida em cima do corpo da criança. Beatriz virou abrigo. Virou escudo. Virou estatística.

Segundo a Polícia Civil, os criminosos procuravam o companheiro dela, que não estava no local. Diante da ausência do homem, que não teve o nome divulgado, a violência escolheu outra vítima. Mais acessível. Mais vulnerável. Mulher. Dois homens teriam participado do homicídio, segundo investigações preliminares.


Quando o crime não encontra o alvo, cria outro



A execução aconteceu por volta de 1h30 da madrugada desta quarta-feira (4), no bairro de Nova Descoberta. Beatriz estava com as duas filhas: uma criança de dois anos e um bebê. Nenhuma delas foi atingida. Todos os disparos acertaram a mãe.


A cena se repete em Pernambuco e no Brasil:


o alvo não aparece,


o recado precisa ser dado,


alguém paga no lugar.


Não é erro.


É método.


O corpo que protege e paga


Após os tiros, a bebê ficou por vários minutos presa sob o corpo da mãe, até a chegada da Polícia Militar. Estava coberta de sangue. As pernas já começavam a ficar arroxeadas. Foi retirada por policiais e vizinhos, que deram banho e comida à criança.


A filha de dois anos presenciou o assassinato.


O instinto materno salvou as crianças.


Mas custou a vida da mulher.


“Ela não mexia com nada”


Uma das irmãs, pedindo anonimato, desbafou: Beatriz não tinha envolvimento com crimes, drogas ou conflitos. Era descrita como mãe dedicada, filha presente, mulher comum — comum demais para um sistema que normaliza mortes assim.


“Ela não mexia com nada errado”, repetiu a irmã.


E ainda assim morreu.


Violência que escolhe gênero e território


A polícia apura a participação de pelo menos dois suspeitos. A perícia confirmou que Beatriz foi atingida no rosto, no tórax e nos braços. O companheiro dela será intimado a depor.

Ele já teve passagem por homicídio e, segundo a investigação, pode ser usuário de drogas. Cachimbos de crack foram encontrados na residência — linha de investigação, não conclusão.


Mas a estrutura do crime não depende dessa resposta.


Porque, independentemente de quem era o alvo, quem morreu foi uma mulher dentro de casa, diante das filhas, em um bairro periférico.


Nada disso é aleatório.


A mensagem deixada no chão da casa


A mensagem não foi deixada para Beatriz.


Foi deixada para quem sobrou.


Esse tipo de crime ensina pelo terror. Ensina que o corpo feminino é moeda de troca. Ensina que a casa não é refúgio. Ensina que, na ausência do homem procurado, a mulher serve.


O bebê sobreviveu.


A criança de dois anos pode crescer com essa imagem.


A cidade e o estado seguem contabilizando mortes como esta.


E o sistema, mais uma vez, é uma roda viva.


As investigações foram iniciadas pelo delegado Douglas Camilo. A Polícia Civil continuará apurando o caso.


E você pode se perguntar: por que algumas mulheres escolhem este perfil de homem?


A recorrência de mulheres mortas em conflitos que não criaram não pode ser explicada por escolhas individuais isoladas. Pesquisadores como a socióloga Heleieth Saffioti destacam que a violência de gênero é um fenômeno estruturado em relações sociais desiguais.

• Território importa

Em áreas marcadas por pobreza, ausência do Estado e violência constante, as opções de afeto, proteção e sobrevivência são limitadas. Relação também é contexto.

• A violência chega antes do alerta

Homens envolvidos com criminalidade raramente se apresentam como risco no início da relação. O histórico violento, quando existe, costuma surgir depois ou se intensificar ao longo do tempo.

• Dependência não é fraqueza

Dependência econômica, emocional e social aprisiona. Romper vínculos custa caro — e, em muitos casos, custa a própria vida.

• O sistema falha antes do casal existir

A falha começa antes da relação: na educação, na política de drogas ineficaz, na ausência de proteção às mulheres e na falta de presença do Estado. A relação nasce dentro desse vazio.

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