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DISCURSO HIISTÓRICO

Emocionado, Lula pede ‘movimento dos homens’ no combate à violência contra a mulher

Presidente cita caso recente em Pernambuco — incluindo o homem que matou mulher e quatro filhos na Várzea — e diz: “Não existe pena que faça justiça

Emocionado, Lula pede ‘movimento dos homens’ no combate à violência contra a mulher
- Em evento na Refinaria Abreu e Lima, Lula diz que os homens tem que tomar "vergonha"
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Aline Moura

Aline Moura é formada pela UFPE, trabalhou como repórter de Política, Editora Assistente de Produção de Política e repórter especial do Diario de Pernambuco, num período de 15 anos, onde atuou em todas as áreas, exceto esportes. Também teve experiência de quatro anos como gerente de comunicação da Secretaria do Trabalho, Emprego e Qualificação de Pernambuco e voltou ao jornalismo para integrar a equipe do Portal da Tribuna Online como repórter.

Última atualização



Em um ato que deveria celebrar a expansão da capacidade operacional da Refinaria Abreu e Lima (RNEST), em Ipojuca (PE), o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva desviou-se abruptamente da pauta econômica para proferir um dos discursos mais intensos, pessoais e impactantes de seu mandato contra a violência de homens contra mulheres.

Em uma longa e surpreendente mudança de foco, que tomou quase a metade de seu tempo de fala e o levou a pedir desculpas à Petrobras, o presidente teceu duras críticas à brutalidade masculina, citando casos recentes que chocaram o país e defendendo a urgência de uma mudança cultural que deve partir dos próprios homens.

Dor íntima compartilhada

O ponto de inflexão veio com o relato de uma dor íntima e compartilhada. Lula revelou que sua esposa, a primeira-dama Janja, chorou repetidas vezes ao longo do final de semana após a veiculação de notícias de feminicídios no país.

Segundo o presidente, foi a partir desse luto que partiu um apelo direto: “Ô Lula, assuma a responsabilidade de uma luta mais dura contra a violência do homem contra a mulher no planeta Terra”. O presidente, visivelmente emocionado, aceitou a missão em público, perguntando-se:

“O que está acontecendo na cabeça desse animal, que é tido como a espécie animal mais inteligente do planeta Terra, para tanta violência?”. A questão, que ecoou no ambiente da refinaria, transformou a celebração de um investimento industrial em um palanque para a conscientização social. Ele chegou a chamar os agressores de mulheres e estupradores de crianças de “animais”. Mas ainda não deu detalhes de como vai atuar de forma mais dura no tocante a este tema.

Veja esse trecho do discurso do presidente aqui

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Brutalidades mencionadas

Lula listou com detalhes a brutalidade dos crimes recentes, citando o caso de um agressor que “pegou duas pistolas na mão e descarregou a pistola contra a mulher” , outro que “matou a mulher grávida com quatro filhos, tocou fogo na casa (em Pernambuco)” , e o que “atropelou a mulher e arrastou ela a um quilômetro” , resultando na amputação das pernas da vítima.

Diante de tal barbárie, o presidente lançou um desafio direto ao sistema de justiça, questionando se as leis atuais são capazes de oferecer qualquer tipo de reparação moral ou legal. “A pergunta que eu faço é o seguinte, o código penal brasileiro tem pena para fazer justiça a um animal irracional como esse?”.

A reflexão sobre a justiça penal ganhou um contorno de crítica social ao ser comparada com a impunidade de criminosos abastados. Lula lamentou a situação em que um agressor rico é punido de forma branda, comparando-o a um indivíduo pobre que comete um crime de menor potencial ofensivo.

“Se o cara tiver dinheiro, como aquele madrandão que ficou dando 60 focos na cara da mulher no elevador, se ele tiver dinheiro, ele fica dois anos preso e vai para a rua bater noutra mulher” , enquanto “um pobre desgraçado que rouba um pão na padaria para comer é preso e não tem nem advogado para defendê-lo e não tem um juiz para liberá-lo”.

Para o presidente, a punição legal não se equipara à atrocidade dos atos, afirmando: “não existe pena para punir um cara desse. Porque até a morte é suave”.

A responsabilização masculina

O cerne do discurso residiu no apelo por uma mudança de conduta e na responsabilização masculina. O presidente defendeu que a solução passa pela reeducação e pela honra, afirmando que “Cada um de nós homens precisamos ter o professor do outro”. A crítica se estendeu a homens que usam a força física, fazendo um comentário de forte impacto: “Era melhor que tivesse nascido sem braço”. Ele prosseguiu, definindo o propósito do corpo: “Porque o braço Deus nos deu para a gente trabalhar, para a gente fazer carinho, para a gente fazer cafuné, para a gente fazer coisa boa e não para a gente bater nos outros”.

Dirigindo-se aos presentes, Lula fez um apelo emocional a homens em relacionamentos infelizes ou violentos: “Se você não está bem com a sua companheira, por favor, seja grande. Não bata nela, se separe dela”. Ele enfatizou que a convivência deve ser por escolha mútua, não por dependência ou aprisionamento. “Se ela não gosta de você, ela é obrigada a ficar com você. Deixe ela cuidar da vida dela, não aprisione essa pessoa”.

“Se você um dia tiver que bater numa mulher, é melhor que lhe caia as mãos”

O compromisso público e inédito de Lula culminou no lançamento de um movimento: “A partir de agora, eu estou no movimento dos homens que vão começar a conscientizar esse país de que o homem não nasceu para bater em mulher, para estuprar criança ou para fazer violência”.

Para selar o pacto, o presidente pediu que os homens que o apoiavam levantassem as mãos e compartilhou uma memória pessoal de sua mãe, a quem creditou sua educação em dignidade: “Minha mãe dizia para mim, Lula, se você um dia tiver que bater numa mulher, é melhor que lhe caia as mãos”.

Ao final, o presidente foi enfático ao declarar que esta não é uma causa exclusiva do gênero feminino. “Essa luta não é das mulheres, é dos homens”, concluiu, transformando um evento focado em óleo e gás em um marco histórico na discussão sobre a dignidade feminina no país. O discurso na RNEST se consolidou como uma inesperada, porém urgentemente necessária, ruptura na pauta governamental, exigindo que a sociedade brasileira e, em especial, a parcela masculina, “crie vergonha”.

Veja o discurso de Lula sobre o assunto completo

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